
O jornal mais importante do mundo divulgou uma informação tão estarrecedora que ainda não foi absorvida, não só no Oriente Médio como no resto do mundo: Israel tinha um plano de colocar Mahmoud Ahmadinejad como chefe de um novo regime, no lugar dos figurões que efetivamente foram mortos na hora zero do começo da guerra no Irã.
Segundo fontes que disseram ter sido informadas sobre o plano, completamente absurdo por qualquer padrão que se use, os israelenses chegaram a bombardear a entrada da casa onde o ex-presidente estava sob uma espécie de prisão domiciliar, para livrá-lo dos guardas, mas ele também foi ferido no ataque e se desinteressou pela proposta.
É difícil exagerar o quanto a história soa absurda – a começar pelo fato de que ele não tem nenhuma ascendência sobre as forças militares do Irã, impossibilitando completamente que fosse aceito como sucessor do venerado Ali Khamenei e líder de um novo regime. Os absurdos são tantos que despertaram especulações de que Ahmadinejad na verdade seria um colaborador da CIA, uma espécie de Delcy Rodríguez, a presidente venezuelana que, segundo múltiplas fontes, negociou no Catar a traição que possibilitou a captura, praticamente sem reação, de Nicolás Maduro.
Se tivesse sido publicada em qualquer outro lugar, a reportagem teria sido recebida com risadas. Como saiu no New York Times, com seu rigoroso mecanismo de checagem de informações, demanda-se uma certa tolerância. Não obstante o jornal tenha colocado sua credibilidade em jogo ao publicar uma recente coluna de Nicholas Kristof divulgando acusações de que Israel treinou cães para violentar sexualmente prisioneiros palestinos, um absurdo tão grande, inclusive pela impossibilidade material, que deixou muitos especialistas de queixo caído.
Não custa lembrar que Ahmadinejad pregava regularmente a extinção de Israel, incentivava a produção de armas nucleares e negava o Holocausto. Chegou a promover um infame concurso de charges sobre o tema, um sacrilégio contra a memória de seis milhões de vítimas.
Fora dos círculos do poder, ninguém sabe o que aconteceu com ele. Sua morte chegou a ser noticiada na primeira onda de ataques, mas depois foi desmentida.
CONVERSA LONGA E DRAMÁTICA
O fato incontestável da nova versão publicada pelo New York Times é que Israel realmente promovia a mudança de regime – única forma garantida de que a guerra aérea atingiria o objetivo básico de bloquear definitivamente o programa nuclear bélico.
Não foi o que aconteceu e aumenta o sentimento de frustração coletiva em Israel com os resultados inconclusivos. Aumentam também as divergências entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, com o primeiro-ministro israelense defendendo a retomada imediata dos bombardeios e o presidente americano protelando-a, em nome de um acordo de paz que, nas condições atuais, parece totalmente impossível.
Os dois tiveram uma “longa e dramática” conversa por telefone de terça para quarta-feira, segundo a emissora israelense de televisão Channel 12. Quase simultaneamente, Trump disse que o primeiro-ministro fará “o que quer que eu queira que faça”. Para amenizar, acrescentou: “Ele é um grande sujeito”.
São maus sinais, indicando divergências graves entre os dois aliados que foram juntos à guerra, mas não se alinham sobre o que fazer depois da frustração com os resultados da primeira fase. E, segundo o Times, do fracasso dos planos para trazer uma figura repugnante como Mahmoud Ahmadinejad para o centro de uma guinada fracassada.
Dá para acreditar?