
“San Vicente, um país imaginário do nosso Continente.” Assim o filme Crônica de um Industrial, de 1978, situa o cenário onde se passa a história criada pelo diretor carioca Luiz Rosemberg Filho (1943-2019). Na trama, um empresário bem-sucedido vive distante dos seus ideais da juventude, que eram alinhados com ideias progressistas. A desigualdade social e a entrada massiva de capital estrangeiro no país, em paralelo com tragédias pessoais, o levam a uma crise profunda, estopim de uma busca de sentido em lugares e situações deveras obscuras.
Não é difícil imaginar por que o filme Crônica de um Industrial foi barrado pela censura da ditadura militar brasileira, que proibiu seu lançamento nos cinemas na época. Mais complexo, porém, é o fato de que a produção chegou a ser escolhida para representar o Brasil no Festival de Cannes, para disputar a Palma de Ouro, mas também foi impedida pelo regime.
A aversão dos militares com o filme ia além de sua mensagem de teor comunista. Naquele momento do país, as greves sindicais estavam em ebulição — e um longa desafiando o poder das indústrias e criticando as multinacionais não se alinhava com os ideais do governo. As muitas cenas de nudez também teriam ruborizado os censores mais sensíveis. Hoje considerado um símbolo do Cinema Marginal, que fugia dos padrões narrativos, o filme só chegou a uma plateia de fato em 1980, na Mostra As Perspectivas do Cinema Brasileiro, no Masp, e depois entrou brevemente em cartaz no Cinesesc. Vira e mexe a produção é exibida em festivais de cinema. Para ver em casa, o caminho é mais difícil: o filme não está em nenhuma plataforma de streaming oficialmente, mas pode ser encontrado em canais paralelos, como o YouTube.