
Aeronaves militares e drones de vigilância dos Estados Unidos intensificaram operações nas proximidades de Cuba nas últimas semanas, em mais um sinal da crescente pressão americana sobre o governo comunista, informou a emissora britânica BBC nesta quinta-feira, 21.
Dados de rastreamento analisados pela BBC mostram que aviões da Marinha dos EUA chegaram a operar a cerca de 80 quilômetros do território cubano em meio ao agravamento das tensões diplomáticas entre os dois países. A exposição pública dos voos militares funciona como demonstração de força e tentativa de reforçar o bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos.
Com base em dados do site Flightradar24, o departamento de verificação de dados e imagens da emissora identificou, desde 11 de maio, ao menos cinco aeronaves de vigilância P-8A Poseidon e três drones MQ-4C Triton operando no mar do Caribe em áreas próximas à ilha. Em alguns momentos, os aviões chegaram a voar a cerca de 80 quilômetros da costa cubana.
As plataformas de rastreamento não mostram toda a atividade americana na região, já que aeronaves militares nem sempre transmitem sua localização em tempo real. Ainda assim, especialistas afirmam que o fato de parte dos trajetos permanecer pública dificilmente é casual.
“É provavelmente deliberado”, afirmou à BBC o especialista britânico em drones Steve Wright. Na avaliação dele, Washington busca transmitir “uma mensagem clara” de que mantém vigilância constante sobre a região.
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O que mostram os dados
Segundo a BBC, um dos voos rastreados ocorreu em 11 de maio, quando uma aeronave P-8 Poseidon operou próximo ao sul de Cuba antes de retornar à base militar americana em Jacksonville, na Flórida.
No dia seguinte, o mesmo modelo de avião voltou a ser detectado em uma rota próxima a Havana. Mais tarde, em 15 de maio, dois drones MQ-4C Triton foram identificados em operação perto da costa sul cubana, seguindo trajetos semelhantes aos percorridos anteriormente pelos aviões de vigilância.
Para Mark Cancian, coronel aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e consultor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a movimentação sugere monitoramento voltado principalmente para embarcações que poderiam tentar abastecer Cuba. “Nenhum dos voos passou sobre território cubano, então não se trata de preparação para uma invasão”, afirmou à BBC.
Analistas da consultoria de defesa Janes também apontaram um crescimento das missões americanas de inteligência, vigilância e reconhecimento desde fevereiro.
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Escalada das tensões
O aumento da atividade aérea ocorre em meio à escalada das tensõe entre os dois países. Washington endureceu a pressão econômica sobre Havana ao ampliar restrições ao envio de petróleo para a ilha, medida que aprofundou a crise energética cubana e agravou os apagões e problemas de abastecimento no país.
O portal de notícias Axios noticiou no domingo 17 que Cuba teria adquirido drones com capacidade de atingir o território continental americano. Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Parrilla, salientou que o país “não ameaça” os Estados Unidos e acusou o governo de Donald Trump de construir um “caso fraudulento” para justificar uma eventual intervenção militar.
Já na quarta-feira 20, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, fez um pronunciamento em espanhol direcionado aos cubanos no aniversário da independência da ilha dos Estados Unidos. Rubio responsabilizou a liderança comunista pelas dificuldades econômicas enfrentadas pela população e ofereceu o que chamou de uma oportunidade para um “novo relacionamento” com o povo cubano.
No mesmo dia, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ, na sigla em inglês) anunciou o indiciamento do ex-presidente Raúl Castro e de outros cinco envolvidos pela derrubada de duas aeronaves civis em 1996 — episódio que voltou a tensionar a relação bilateral.