Os Estados Unidos realizaram ações na Venezuela, em operação que resultou na captura de Nicolás Maduro, e agora voltam suas atenções para Cuba. Para a analista de Internacional da CNN Fernanda Magnotta durante o CNN 360°, o movimento reflete uma estratégia do presidente americano, Donald Trump, para deixar uma “marca histórica”, associada à imagem de um líder de pulso firme na geopolítica.

Magnotta elencou um conjunto de razões que, segundo ela, ajuda a explicar o comportamento da atual administração americana em relação à região. “Veja que é menos sobre política externa em si e mais sobre um conjunto de outros elementos mais complexos”, afirmou.

Sinais concretos de pressão sobre Cuba

Magnotta destacou que Trump já havia anunciado, em março, durante um evento na Flórida, que “Cuba seria a próxima”. Desde então, sinais objetivos foram se acumulando: o indiciamento de Raul Castro nos últimos dias e a presença de um importante porta-aviões instalado no Caribe, que inclusive passou pelo Brasil antes de chegar à região. “Isso tudo vai dando sinais objetivos de que pode ser que, para além da retórica, de fato, alguma coisa aconteça”, avaliou a analista.

Segundo ela, a percepção dentro da diplomacia americana é de que algum tipo de ação acabará acontecendo. As apostas atuais indicam que, caso os Estados Unidos decidam agir, a opção mais provável seria um ataque aéreo.

Magnotta ressaltou, no entanto, que Cuba representa um desafio diferente da Venezuela: “A Venezuela só foi possível nos termos que aconteceu porque houve uma traição e uma divisão dentro da administração Maduro, o que não se vê acontecendo no caso cubano.”

As motivações por trás das ações

A analista identificou ao menos cinco camadas de motivação para as ações americanas. A primeira delas é estratégica: a tentativa de consolidar o poder hemisférico dos Estados Unidos, transformando a região em um contraponto a potências como Rússia e China, que estabeleceram alianças importantes na América Latina. Venezuela, Cuba, Panamá e o combate ao narcotráfico fazem parte desse esforço.

A segunda camada diz respeito à criação de legado. Magnotta relatou ter ouvido de diversas fontes que Trump “quer entrar para a história como aquele que fez o que outros presidentes não tiveram coragem de fazer”.

Essa lógica explicaria as ações na Venezuela, no Irã e agora em Cuba, com o objetivo de se dissociar de gestões anteriores que, na visão do grupo mais próximo ao atual ocupante da Casa Branca, teriam tido “pulso fraco”.

Uma terceira dimensão envolve os conselheiros mais próximos de Trump. Magnotta citou especificamente Marco Rubio, filho de cubanos e figura que construiu sua trajetória política na Flórida dialogando com a comunidade de dissidentes cubano-americanos. “Se para Trump mudança de regime não é exatamente um ativo que ele costuma valorizar, para Rubio isso sim é algo importante”, disse a analista.

Eleitorado da Flórida e desvio de foco interno

A quarta motivação apontada por Magnotta é eleitoral. A Flórida, estado decisivo nas eleições americanas, abriga o núcleo mais anticastrista do país, concentrado em Miami e arredores.

Segundo a analista, esse eleitorado está “cobrando a conta de ações efetivas contra Cuba“. Ela destacou ainda que a atual administração é amplamente composta por figuras ligadas à Flórida ou que atendem a interesses do estado.

Por fim, Magnotta apontou que a ênfase em temas de política externa — seja Venezuela, Irã ou Cuba — pode funcionar como uma forma de desviar a atenção de questões domésticas mais sensíveis, como o custo de vida, que é “o assunto mais quente dos Estados Unidos”, e o escândalo envolvendo Epstein, segundo a oposição democrata.

Risco de conflito prolongado e o fator imigração

Questionada sobre o impacto de uma eventual intervenção para a população cubana e para a agenda migratória de Trump, Magnotta diz que as fontes com quem tem conversado reforçam que qualquer ação tenderia a ser pontual e circunscrita, sem se arrastar como um conflito mais abrangente.

A analista também alertou para o risco que uma eventual guerra representaria para duas das principais bandeiras de Trump: “As guerras elevam o custo de vida, fazem pressão inflacionária e, além de tudo, podem aumentar a imigração. São os dois elementos que elegeram o Trump na última eleição.”

Para Magnotta, um conflito mais amplo seria, portanto, um “tiro que sai pela culatra” na própria agenda do presidente americano.



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