Uma espécie de folha de pagamento do Primeiro Comando da Capital (PCC) abastecia integrantes da facção transferidos para o sistema penitenciário federal, considerados pela organização criminosa como homens que prestaram “bons serviços” ao grupo, que desembolsou quase meio milhão de reais por mês em transferências bancárias.
Investigação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e da Polícia Federal (PF) identificou pagamentos mensais — feitos ao menos entre 2019 e 2019 — que variavam entre R$ 1,5 mil e R$ 4 mil, feitos por meio do chamado Setor da Ajuda, núcleo responsável por distribuir recursos a integrantes da facção e familiares de presos.
As planilhas e comprovantes bancários foram encontrados em mídias enviadas anonimamente à Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, em Minas Gerais, durante desdobramentos da Operação Caixa Forte, em 2019.
Segundo o material analisado, os depósitos eram feitos em contas de terceiros, normalmente parentes ou pessoas ligadas aos integrantes do PCC, para ocultar a origem dos recursos e evitar rastreamento direto dos beneficiários.
Entre os presos contemplados com os maiores valores estava Hugo Aparecido da Silva, apontado pelas autoridades como um dos envolvidos no assassinato do agente penitenciário federal Alex Belarmino, morto em 2016, em Cascavel (PR), durante uma emboscada atribuída ao PCC.
Conforme as investigações, Hugo recebia R$ 4 mil mensais da facção, valor reservado aos integrantes considerados estratégicos ou que haviam executado missões de interesse da organização criminosa.
“Mesada” do crime
Os investigadores identificaram que o Setor da Ajuda funcionava como uma engrenagem financeira paralela do PCC. Além de bancar despesas de integrantes presos, o núcleo também auxiliava familiares, custeava visitas a presídios federais e irrigava outras áreas da facção.
Segundo o MPSP, os valores eram pulverizados em depósitos fracionados, feitos em contas de “laranjas”. Depois, o dinheiro era redistribuído para sustentar operações criminosas, compra de armas, tráfico de drogas e manutenção da estrutura da facção.
A apuração também revelou a existência de imagens de cartões bancários, prints de transações eletrônicas e comprovantes de depósitos físicos extraídos do celular de investigados ligados à facção.
Bi da Baixada
No centro das investigações aparece Moacir Levi Correia, o “Bi da Baixada”, apontado como uma das lideranças históricas do PCC na Baixada Santista e acusado de atuar em esquemas de lavagem de dinheiro ligados à facção.
Denunciado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, Moacir é acusado de ocultar e dissimular valores provenientes das atividades do PCC, em conjunto com outros investigados.
Bi da baixada já foi apontado como foragido após ser solto por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2019. No processo no qual o Setor da Ajuda é mencionado, a Justiça registrou que ele possuía mais de um mandado de prisão, incluindo um ligado a condenação de quase 30 anos em Santa Catarina.
O processo segue em tramitação no Tribunal de Justiça de São Paulo, com manifestações protocoladas ao longo de 2025.
As defesas de Moacir e Hugo aparecido não foram localizadas. O espaço segue aberto para manifestações.
