Quem nunca percebeu que basta a temperatura cair para as idas ao banheiro aumentarem? No inverno, muita gente relata vontade mais frequente de urinar, inclusive durante a madrugada. Embora isso seja bastante comum, poucas pessoas sabem que existe uma explicação fisiológica bem definida para esse fenômeno.
O nome dado a essa reação é “diurese do frio”. Trata-se de um mecanismo natural do organismo para preservar a temperatura corporal em ambientes frios.
Quando estamos expostos ao frio, o corpo reduz o calibre dos vasos sanguíneos da pele e das extremidades para diminuir a perda de calor. Com isso, uma quantidade maior de sangue passa a circular nas regiões centrais do organismo, aumentando momentaneamente o volume de líquido percebido pelos rins.
Diante dessa redistribuição da circulação, os rins entendem que há líquido em excesso no corpo e aumentam a produção de urina como forma de equilíbrio. O resultado é percebido rapidamente: mais vontade de fazer xixi.
O frio muda o funcionamento dos rins
Além da contração dos vasos sanguíneos, outro fator importante é a redução da transpiração nos dias frios. Como o corpo perde menos água pelo suor, sobra mais líquido disponível para ser eliminado pela urina.
Bebidas comuns no inverno também podem contribuir para isso. Café, chás e bebidas alcoólicas possuem efeito diurético em diferentes graus, estimulando ainda mais a produção urinária.
Em idosos, o fenômeno costuma ser ainda mais perceptível. Isso porque alterações naturais da idade, associadas a problemas urinários já existentes, podem aumentar a frequência das micções durante o inverno.
Homens com aumento benigno da próstata, por exemplo, muitas vezes percebem piora dos sintomas nessa época do ano, especialmente o hábito de acordar várias vezes durante a noite para urinar.
Nem sempre é apenas efeito do frio
Embora a diurese do frio seja considerada normal, é importante observar quando o aumento da frequência urinária vem acompanhado de outros sintomas.
Ardor ao urinar, dor, sangue na urina, dificuldade para segurar o xixi, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga, febre ou sede excessiva merecem investigação médica.
Em alguns casos, o que parece apenas uma reação ao frio pode esconder infecção urinária, diabetes, bexiga hiperativa, cálculos renais ou alterações da próstata.
Outro erro bastante comum no inverno é reduzir a ingestão de água porque a sensação de sede diminui. Isso pode favorecer desidratação, aumentar o risco de formação de pedras nos rins e facilitar infecções urinárias.
O corpo continua precisando de hidratação no inverno
Mesmo sem calor intenso, o organismo continua necessitando de hidratação adequada para o funcionamento dos rins e de todo o sistema urinário.
Muitas pessoas associam a hidratação apenas ao verão, mas os cuidados no inverno também são fundamentais. Uma forma prática de avaliar se a hidratação está adequada é observar a cor da urina. Em geral, tons mais claros, semelhantes ao amarelo-palha, costumam indicar boa ingestão de líquidos. Urina muito escura, cheiro forte e sensação de cansaço podem ser sinais de baixa ingestão de líquidos.
O aumento do número de vezes que vamos ao banheiro nos dias frios é, na maioria das vezes, apenas uma resposta inteligente do organismo tentando manter o equilíbrio térmico do corpo. Ainda assim, quando essa mudança vem acompanhada de desconfortos ou altera significativamente a rotina, vale procurar avaliação médica.
*Texto escrito pelo urologista Marcos Tobias Machado (CRM/SP 75.225 | RQE 63664), doutor em Urologia pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Brazil Health