A Bolívia vive seu momento mais turbulento desde a posse do presidente Rodrigo Paz Pereira, de centro-direita, há seis meses. As manifestações contra o governo entraram na segunda semana, espalharam bloqueios por diferentes regiões do país e transformaram áreas centrais de La Paz em palco de confrontos entre manifestantes e policiais. Em meio à escalada da tensão, os Estados Unidos chamaram nesta terça-feira, 19, os atos de uma “tentativa de golpe de Estado”.

“O que está acontecendo é um golpe em andamento”, afirmou o vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, em Washington. Segundo ele, a mobilização seria financiada por “uma aliança perversa entre política e crime organizado na região”.

Os protestos representam o maior desafio enfrentado por Paz Pereira desde que assumiu o cargo prometendo recuperar a economia boliviana e encerrar quase duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), principal força política da esquerda no país.

Segundo autoridades bolivianas, quatro pessoas morreram desde o início da onda de protestos. Um manifestante teria sido morto durante confrontos com forças de segurança. Outras três vítimas, de acordo com o governo, não conseguiram receber atendimento médico adequado em razão dos bloqueios em rodovias.

+ Bolívia expulsa embaixadora colombiana em meio a escalada de tensões diplomáticas

Continua após a publicidade

Mudanças do governo Paz

Ex-senador de centro-direita e filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, que governou a Bolívia entre 1989 e 1993, Paz chegou ao poder prometendo uma política de choque para enfrentar a pior crise econômica do país em quatro décadas. A escassez de dólares e combustíveis, combinada ao avanço da inflação, já pressionava a economia boliviana ainda nos últimos anos do governo de Luis Arce, do MAS.

Uma das primeiras medidas da nova gestão foi acabar com o subsídio estatal aos combustíveis, política mantida por cerca de vinte anos. O novo governo defendia que a abertura do mercado estimularia a concorrência, elevaria a qualidade dos produtos e reduziria problemas de abastecimento.

O resultado, porém, foi o oposto. Além de a falta de combustível persistir, o país passou a enfrentar o escândalo do chamado “combustível adulterado”, após irregularidades serem identificadas em parte dos produtos distribuídos. Paz, por sua vez, atribuiu o episódio a uma suposta sabotagem promovida por ex-integrantes do governo ligados ao MAS.

Continua após a publicidade

Crise com Colômbia

Em paralelo à turbulência, a Bolívia mergulhou em uma crise diplomática com a Colômbia. Nesta quarta, o governo boliviano anunciou a expulsão imediata da embaixadora colombiana em La Paz, Elizabeth García, em resposta a declarações do presidente Gustavo Petro.

No domingo 17, Petro compartilhou nas redes sociais um vídeo que definia Paz como um “fantoche dos Estados Unidos”. Ele também afirmou que a o país sul-americano vivia uma “insurreição popular” em reação ao que chamou de “arrogância geopolítica”.

Ao anunciar a expulsão da diplomata, o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia explicou que a medida tinha como objetivo preservar “os princípios de soberania e não interferência em assuntos internos”. Pouco depois, Petro reagiu em entrevista a uma rádio colombiana e afirmou que a Bolívia estaria “deslizando para o extremismo”.

Continua após a publicidade

+ Atos pela renúncia do presidente da Bolívia afligem líderes regionais: ‘Risco à democracia’

Sombra de Evo Morales

A crise também recolocou no centro do debate o ex-presidente Evo Morales, líder histórico do MAS e principal nome da esquerda boliviana nas últimas duas décadas.

Primeiro presidente indígena da história do país, Morales permanece desde o fim de 2024 na região de Chapare, importante área produtora de coca, onde apoiadores impedem forças de segurança de cumprirem um mandado de prisão expedido contra ele.

Continua após a publicidade

O ex-presidente é acusado de ter mantido, em 2006, uma relação com uma adolescente de 15 anos, com quem teria tido um filho. Também responde a acusações ligadas a suposto tráfico de pessoas e favorecimento político à família da jovem. Ele nega as acusações.

O porta-voz presidencial, José Luis Gálvez, afirmou que o ex-presidente estaria estimulando os protestos para “evitar enfrentar a Justiça”. Morales rebateu a acusação e afirmou que as manifestações são uma reação da população “contra a implementação do modelo neoliberal” adotado pelo novo governo.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *