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Com a Copa do Mundo de 2026 batendo à porta, os ânimos das torcidas ficam cada vez mais exaltadas e podem, por vezes, atingir extremos na defesa de seu clube (ou nesse caso, país) do coração. Duas pesquisas lideradas por Tiago Bortolini, neurocientista e pesquisador apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira, analisaram de perto o “cérebro” de um torcedor para entender como funciona o forte sentimento de identidade que leva um indivíduo à euforia e à violência na mesma intensidade.

Publicadas na Scientific Reports, da Nature, e na Evolution and Human Behavior, os estudos identificaram que, ao ajudar torcedores do mesmo time, dois córtices relacionados à recompensa e ao apego são ativados. Segundo o pesquisador, beneficiar alguém nesse contexto aciona respostas que se comparam às relações afetivas mais próximas, como a de uma família.

É esse vínculo que ajuda a explicar situações em que torcedores fazem sacrifícios pessoais “em nome do grupo”. Em experimentos, participantes fizeram mais esforço para recompensar outros fãs dos clubes, diferente dos indivíduos que não tinham ligações com o time.

Foto de torcida do Flamengo durante partida
A coesão na hora de vibrar, cantar e torcer é um fator real que pode até influenciar a torcida rival na hora de uma partida (Buda Mendes/Getty Images)

O mesmo mecanismo que sustenta esse comportamento de “ajuda” baseia também a violência. Os estudos sugerem que episódios de violência no futebol não estão ligados a indivíduos desajustados, mas sim a uma situação em que a identidade individual e a do grupo se “fundem”. Em estádios e grandes competições, esse fenômeno aumenta.

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Para Bortolini, o estudo de torcedores no futebol brasileiro fornece um modelo “natural e rico” para estudar a psicologia humana. “Pesquisas anteriores sobre o comportamento entre grupos foram feitas em laboratórios com grupos artificiais, como times divididos por cores sem qualquer significado real”, explica. O cenário do futebol no Brasil, para ele, oferece um cenário com “laços fortes, emoções genuínas e rivalidades históricas”.

Muitas vezes, a violência extrema observada em contextos do futebol é vista como um “simples desajuste social”, ideia rebatida pelo especialista. “Nossas pesquisas mostram que ela pode derivar também de uma ‘psicologia guerreira’ ligado ao nosso passado ancestral de defesa do grupo“, explica Tiago.

Para ele, entender como esses comportamentos funcionam e estão representados no cérebro ajuda a lidar com episódios de violência em estádios. Além disso, “dá ferramentas para compreender e intervir em outros fenômenos sociais destrutivos, como a radicalização política, células terroristas, entre outros”, finaliza.

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Caso brasileiro

Um levantamento recente da Ipsos-Ipec mostrou que a torcida brasileira não está tão animada quanto já esteve para a Copa do Mundo, mas o que poderia ser um sinal de menos engajamento e força durante os jogos pode na verdade representar o contrário. Segundo o pesquisador, caso um indivíduo simplesmente se identifique com o grupo (ou seja, com a torcida) de forma comum, os laços emocionais e de identidade enfraquecem e o engajamento também diminui. Porém, quando o sentimento é mais profundo, a situação muda de cenário.

Em situações em que ocorre a fusão das identidades — entre o individual e o grupo — o gosto por torcer dificilmente desaparece. “Diversos estudos mostram que experiência negativas e fracassos compartilhados podem até aumentar a fusão, criando laços mais fortes”, explica o pesquisador. Para ele, essa mudança atual no senso de grupo pode indicar uma queda da identificação, mas o núcleo de torcedores “altamente alinhados” tende a permanecer com o mesmo sentimento.



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