A pesquisa AtlasIntel divulgada na terça-feira (19) é a primeira a mensurar o impacto do vazamento das conversas entre o senador e pré-candidato a Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro nas intenções de voto para a presidência da República. Os dados foram debatidos por analistas da CNN Brasil, que avaliaram as consequências do contato para a pré-campanha do político.
O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, garantiu que a metodologia adotada não induziu os entrevistados a responderem de forma tendenciosa. Segundo ele, “nenhum respondente ouviu o áudio antes de responder o questionário principal da pesquisa”.
Roman explicou ainda que o teste de áudio foi aplicado apenas após a submissão do questionário principal, conforme documentado no cadastro enviado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), cumprindo as obrigações legais do instituto.
Impacto limitado no eleitorado bolsonarista, mas preocupante no cenário geral
De acordo com Roman, as conclusões do teste realizado com o áudio apontam que a repercussão negativa dentro do eleitorado bolsonarista foi menor do que se poderia esperar. “A tese dele de que ele apenas está pedindo dinheiro para um projeto cultural, dinheiro privado para um projeto privado, é uma tese que parece ter sido acolhida por uma maioria do seu eleitorado”, afirmou.
No entanto, o analista ressaltou que esse cenário é diferente quando se considera o eleitorado brasileiro como um todo.
Questionado sobre se recomendaria a substituição do candidato, Roman foi direto: para o objetivo de vencer a eleição contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a troca seria recomendável. “Provavelmente o Ronaldo Caiado (PSD) teria melhores chances do que o Flávio Bolsonaro (PL) nesta altura, provavelmente o Romeu Zema (Novo) teria chances melhores”, declarou. Para a sobrevivência da “marca Bolsonaro” enquanto clã político, porém, a avaliação seria diferente.
Ao ser perguntado diretamente se a candidatura estaria inviabilizada, Roman respondeu: “Na minha percepção, sim.”
Corrupção como tema central e a linha do tempo
Um dos pontos centrais do debate foi a possibilidade de o eleitor “esquecer o escândalo” com o passar do tempo. Roman descartou esse cenário com base nos dados do instituto. Ele lembrou que a corrupção é a maior preocupação do eleitorado brasileiro, afetando mais de 70% dos entrevistados ao longo de uma década.
“Dentro de um tema de mais alta relevância possível, temos um fato do maior impacto plausível, a relação entre o candidato presidencial e o articulador de uma grande fraude, talvez a maior fraude recente do sistema financeiro”, afirmou. Para ele, não seria razoável esperar que o eleitor simplesmente ignore o tema diante de um horário eleitoral focado em segurança pública.
Roman também destacou que a pesquisa não capturou ainda o impacto da visita de Flávio Bolsonaro (PL) a Daniel Vorcaro, que já se encontrava em prisão domiciliar. “Pela dinâmica da situação, todo dia tendo mais revelações, novos fatos afetando o Flávio… a tendência de erosão da base de apoio do Flávio vai continuar”, avaliou. Sua projeção é de que “a situação tende a piorar pela frente para o Flávio Bolsonaro”.
Votos perdidos por Flávio não migram para nenhum candidato específico
Outro ponto de destaque na pesquisa, segundo o diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, é que a queda de 5,5 pontos percentuais de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno não beneficia diretamente nem Lula nem qualquer candidato da centro-direita ou da chamada terceira via.
O CEO da AtlasIntel confirmou que esses eleitores “não se enxergam hoje em dia na figura de nenhum dos candidatos conhecidos”, como Renan Santos (Missão), Caiado (PSD) ou Zema (Novo). O espaço de candidatos alternativos foi descrito como muito fragmentado, com Renan em torno de sete pontos, Zema em cinco e Caiado em três.
Sobre a possibilidade de Joaquim Barbosa (DC) atrair esses votos, Roman considerou que “uma figura com bons credenciais em termos da luta anticorrupção possa atrair apoio”, mas ponderou que o espaço está muito disputado. “São muitas opções para poucos indecisos”, disse.
Quanto à tese da campanha de Flávio (PL) de que as acusações de corrupção seriam neutralizadas por escândalos envolvendo o campo adversário, Roman questionou a coerência da estratégia: “Eles não eram contra isso como projeto político? Não foi o DNA do bolsonarismo justamente isso? Então agora eles são, e eles acreditam que com isso eles vão reter o capital político? Parece uma contradição.”