Menos de uma semana depois de Xi Jinping ter estendido o tapete vermelho para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o líder chinês recebe outro convidado de honra – e desta vez, um aliado próximo.

O presidente russo, Vladimir Putin, deve chegar à capital chinesa nesta terça-feira (19) para uma visita de Estado claramente planejada para demonstrar o alinhamento entre Pequim e Moscou diante da turbulência geopolítica global.

Tanto Pequim quanto Moscou estão lidando com relações em constante mudança com os Estados Unidos de Trump e avaliando se devem desempenhar algum papel para ajudar a pôr fim ao conflito entre EUA e Irã, que comprometeu o fornecimento global de petróleo e desviou a atenção de Washington da própria guerra da Rússia na Ucrânia, que já dura anos.

O fato de Xi Jinping estar recebendo, em um intervalo de uma semana, dois líderes mundiais envolvidos em conflitos aparentemente insolúveis, criados por eles mesmos, dificilmente passará despercebido pelo governo chinês, que tem usado a guerra de Trump com o Irã, em particular, para promover a China como uma líder global alternativa e responsável.

E tanto Pequim quanto Moscou também têm buscado aproveitar a ruptura promovida por Trump com a política externa tradicional americana para avançar em sua própria visão de um mundo não dominado pelo poder americano ou por um sistema de alianças liderado pelos EUA.

A visita desta semana é a 25ª de Putin à China em seus mais de vinte anos como presidente – um período em que a China e a Rússia estreitaram a cooperação em comércio, segurança e diplomacia, impulsionadas por uma desconfiança mútua em relação a Washington e uma aparente afinidade pessoal entre Putin e Xi – que costumam se referir um ao outro como “queridos” ou “velhos” amigos.

Visita de Estado

Os dois já se encontraram mais de 40 vezes.

Trata-se de uma visita de Estado, portanto, é provável que o líder do Kremlin seja recebido em uma cerimônia com níveis semelhantes de pompa e circunstância – de tapete vermelho à banda militar – àquela oferecida por Xi a Trump na semana passada.

Em uma mensagem que tradicionalmente divulga antes de suas viagens à China, Putin elogiou as relações entre Rússia e China, afirmando que elas atingiram um “nível verdadeiramente sem precedentes”.

Os dois lados “apoiam-se mutuamente em questões que afetam os interesses fundamentais de ambos os países, incluindo a proteção da soberania e da unidade estatal”, afirmou ele em uma mensagem divulgada na terça-feira.

Antes da visita, a mídia estatal chinesa também publicou artigos elogiando os laços “inabaláveis” entre os dois países em meio a uma “turbulenta conjuntura internacional”.

Um artigo no Global Times, jornal estatal, também interpretou as visitas quase consecutivas dos líderes americano e russo como um sinal de que a China estava “emergindo rapidamente como o ponto focal da diplomacia global”.

Em pauta: Trump, energia e a ordem mundial

O recente encontro de Xi com Trump, as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, bem como a cooperação entre os dois líderes nas áreas de energia, comércio e segurança, devem ser alguns dos temas das discussões marcadas para a quarta-feira (20).

Eles também devem destacar sua visão de mundo alinhada em uma declaração sobre o “estabelecimento de um mundo multipolar” e um “novo tipo de relações internacionais”, afirmou Yury Ushakov, assessor do Kremlin, no início desta semana.

Esta não é a primeira vez que Putin e Xi se reúnem em estreita proximidade com os EUA para tratar de assuntos diplomáticos. Eles conversaram horas depois da posse de Trump no ano passado, dias após Trump ter falado com Xi.

Putin também informou o presidente chinês sobre as negociações anteriores entre EUA e Rússia para o fim da guerra na Ucrânia.

Para Putin, as recentes perdas de seu Exército na guerra na Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, podem aumentar a pressão sobre o encontro.

Negócios  entre os países

As compras de petróleo russo e as exportações de bens de dupla utilização pela China têm sido cruciais para o esforço de guerra de Moscou. Elas também tornaram a relação cada vez mais desequilibrada, na qual Moscou depende fortemente de seu vizinho mais rico e tecnologicamente avançado.

A Rússia já é a principal fonte de petróleo bruto da China. Os compradores chineses têm adquirido o petróleo a preços baixos desde a imposição de sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia por Putin.

O conflito no Oriente Médio e o risco de instabilidade futura podem agora levar Pequim a depender ainda mais da Rússia para o fornecimento de combustível.

Xi e Putin devem discutir esta semana o gasoduto Força da Sibéria 2, um projeto há muito pautado, que avançou durante a última visita do russo à China, em setembro de 2025.

Mas não apenas em relação à energia, o conflito no Irã provavelmente terá grande importância nas negociações, especialmente após a visita de Trump.

O líder americano buscou consenso com a China sobre aspectos do conflito, com um comunicado da Casa Branca afirmando que os dois líderes concordaram que o Irã não possui armas nucleares e que o Estreito de Ormuz será reaberto.

Tanto a China quanto a Rússia são parceiras próximas de Teerã e desempenharam um papel fundamental em protegê-la das sanções americanas nos últimos anos. A China também é a principal compradora de petróleo bruto iraniano, alvo de sanções dos Estados Unidos.

Moscou forneceu ao Irã informações de inteligência sobre a localização de tropas e instalações americanas, conforme noticiado pela CNN no início do conflito. No mês passado, fontes disseram à CNN que a China estava se preparando para entregar armas ao Irã – alegação que Pequim nega.

Agora, questiona-se se eles têm interesse em se envolver em um processo de paz, visto que Teerã já manifestou interesse em que a China e a Rússia assumam o papel de garantidoras da segurança.

Desempenhar um papel no fim do conflito poderia potencialmente conquistar a boa vontade de ambos os países junto aos Estados Unidos, mas seria uma decisão cautelosa por parte dos dois líderes, que precisam proteger suas próprias parcerias, interesses e ambições globais.



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