A resposta de Mali Hightower aos preços altos da gasolina é um brinquedo que ele retirou do lixo de alguém. Calma que a gente te explica.
O faz-tudo de 30 anos de Ellenwood, Geórgia (EUA), colocou um motor com capacidade de dois galões e um pistão de uma lavadora de alta pressão em um Power Wheels Barbie Dream Camper rosa quebrado – um carrinho de brinquedo a bateria com menos de um metro e meio de altura. Com um único puxão no cabo, parecido com o de um cortador de grama, ele parte para o supermercado, com os joelhos praticamente nas orelhas e o capacete de motociclista na cabeça.
O carro dele de verdade, um Mercedes-Benz conversível de 1996, custa cerca de US$ 90 (pouco mais de R$ 455, na cotação atual) para ser abastecido. “É muito caro”, compartilhou Hightower, que também instalou um suporte na parte superior do carrinho para mantimentos. “Eu dirijo isso quando posso”.
A solução que ele adotou pode ser vista como incomum, mas o aumento do custo da gasolina está remodelando as decisões cotidianas nas residências de todo o país. Há muito tempo apaixonados por carros, especialmente SUVs e caminhões leves menos eficientes em termos de combustível, os norte-americanos estão buscando alternativas como transporte público ou ficar perto de casa.
Em 18 de maio, o preço médio do galão de gasolina comum nos EUA foi US$ 4,52, acima dos cerca de US$ 3 antes do início da guerra do Oriente Médio, de acordo com a Associação Automobilística Americana. Um galão americano equivale a mais ou menos 3,8 litros.
Em uma pesquisa da Ipsos de 28 de abril, publicada pelo Washington Post e pela ABC News, 44% dos norte-americanos disseram ter reduzido o número de viagens de carro.
Alguns estão encontrando oportunidades em meio à crise. Depois de gastar quase US$ 40 a mais do que o normal para abastecer um Buick Enclave, Renee Tocci, diretora executiva do Camp Farley em Mashpee, Massachusetts, teve uma ideia: lançar um acampamento noturno como medida de economia de custos para os pais que gastam uma fortuna levando os filhos de um lado para o outro durante todo o verão.
“Meu colega disse: ‘Isso é hilário'”, contou Tocci. “E eu pensei: ‘Sério, vou colocar isso em todas as mídias sociais'”. Ela começou a fazer referência aos custos de combustível online e em e-mails de marketing para aumentar o número de adesões.
“Aqui está uma dica de orçamento sobre a qual ninguém fala: Mande os filhos para um acampamento noturno”, diz uma das publicações.
Diferentes estilos de vida
A criadora de conteúdo Dafne Flores dirige de sua casa em Silverdale, Washington, para Los Angeles várias vezes ao ano para visitar amigos. Durante a mais recente estadia de dois meses, ela estacionou em Glendale e passou a usar o transporte público para se locomover.
“Estamos acostumados a preços de gasolina caros, mas nunca tão altos”, comentou Flores, de 28 anos.
Abastecer o Toyota Highlander agora custa pelo menos US$ 95, por isso ela está evitando saídas de carro para além de oito quilômetros e postos próximos a rodovias, onde já viu preços perto de US$ 9 o galão.
No ônibus, ela pode editar vídeos e evitar custos de estacionamento. Flores diz que, online, mais norte-americanos da mesma idade que ela estão falando sobre escolhas semelhantes. “Estou vendo muitos vídeos de pessoas usando o ônibus”, citou.
A tendência é evidente em todo o território dos EUA. No Maine, o número de passageiros no sistema de ônibus público de Bangor aumentou 21% desde janeiro, informou a administradora de trânsito Laurie Linscott, com a maior parte do crescimento durante os horários de pico.
“Comecei a observar as pessoas e a tentar obter algum tipo de perfil”, comentou Linscott. “Eram pessoas de todos os estilos de vida”.
Brindes de cartão de gasolina
Recentemente, os motoristas esperaram mais de uma hora em um posto de gasolina em El Segundo, Califórnia, onde a agência de turismo Visit Las Vegas estava oferecendo até US$ 100 em gasolina para os primeiros 100 motoristas na fila para incentivar viagens para a cidade.
Mas poucos dos que compareceram estavam pensando em tirar férias.
Robert Jackson, de El Segundo, disse que o combustível duraria apenas alguns dias. “Agora tenho que andar e pegar o trem”, acrescentou ele. “É difícil. Realmente é”.
Segette Frank, de Los Angeles, disse que costumava fazer compras em toda a cidade. “Agora fico perto, porque não quero ficar sem gasolina”, revelou ela.
Em Chicago, a CityPoint Community Church planeja distribuir US$ 5.000 em cartões de gasolina de US$ 25 nas próximas semanas. O pastor Demetrius Davis destacou que eles distribuíram mais de 70 cartões após os cultos do Dia das Mães.
“O transporte não é um luxo para muitas famílias”, disse ele. “É uma questão de sobrevivência”, pontuou.
Até agora, a crise não causou um aumento nas compras de veículos elétricos, mas trouxe alívio para os motoristas deles.
John Stringer, presidente da Tesla Owners of Silicon Valley, um grupo de entusiastas da Tesla, publicou recentemente um vídeo no TikTok mostrando uma placa de posto de gasolina com preços altíssimos.
“Ah, cara, gostaria que isso fosse um problema com o qual eu tivesse que lidar”, diz Stringer, em tom de brincadeira, antes de virar a câmera para o Cybertruck.
Embora tenha sido uma piada, Stringer disse que o alívio é real.
“Não sei qual foi a última vez que olhei os preços da gasolina, exceto por esse vídeo”, enfatizou.