Michael Codd aprendeu cedo que cultura vai além do idioma. Ela aparece no jeito de conversar, no tempo dedicado à construção da confiança e na forma como uma decisão é recebida por uma equipe. Antes de assumir os negócios no Brasil e no México do BRP, grupo canadense de veículos recreativos e mobilidade outdoor, dono de marcas como Can-Am, Sea-Doo e Ski-Doo, essa percepção já fazia parte da sua própria história.

Filho da belga Ingrid e do inglês John, ele nasceu em Gent, na Bélgica, em fevereiro de 1985. A convivência com referências culturais diferentes começou dentro de casa e ganhou novos contornos na juventude. Em 2003, concluiu uma formação técnica com ênfase em Matemática e Ciências no St. Jozef Instituut, em Antuérpia, segunda maior cidade belga e conhecida como a “capital mundial dos diamantes”.

Aos 21 anos, formou-se em Gestão Esportiva pela Buckinghamshire New University, em High Wycombe, na Inglaterra. Depois, cruzou o mundo para viver em Sydney, na Austrália, onde concluiu, em 2009, o mestrado em Negócios Internacionais pela Universidade de Sydney. A passagem por esses países foi menos uma sequência de diplomas e mais um curso de convivência. Michael passou a observar como pessoas de origens diferentes negociam, discordam, trabalham e constroem confiança. Dali surgiu uma ideia que acompanharia sua vida executiva: cada mercado tem seus próprios códigos.

A entrada no mundo corporativo veio em 2010, na Accenture, multinacional de consultoria em gestão, tecnologia e terceirização de processos. O início foi ligado à tecnologia, mas a carreira logo passou a cruzar vendas, marketing, produto e transformação digital. Em projetos para grandes clientes de consumo, como Nestlé e PepsiCo, Michael aprendeu a transformar soluções técnicas em respostas para problemas de negócio. Essa experiência abriu caminho para a AB InBev, onde ingressou, em 2016, como senior manager de uma área voltada à tecnologia aplicada ao marketing (MarTech) na Europa. A função aproximava dados, plataformas digitais, campanhas e relacionamento com consumidores, uma combinação que se tornaria central em sua trajetória.

Na AB InBev, a trajetória começou em Londres, onde Michael atuou na área de MarTech para a Europa. Em 2021, em plena pandemia de covid-19, uma promoção para uma função global o trouxe ao Brasil. O destino foi Campinas, no interior de São Paulo, onde passou a liderar projetos que conectavam equipes, fornecedores e mercados diferentes em torno de estratégias comuns. O desafio envolvia mais do que ferramentas ou plataformas digitais. A tecnologia servia como ponto de partida; a adaptação cultural, no entanto, era parte essencial do trabalho.

A experiência fora da multinacional

Depois de dois anos em uma função global na AB InBev, Michael deixou a companhia, em 2023, para viver uma experiência distante da estrutura de uma grande multinacional. Tornou-se cofundador e CEO da GameFlavor, startup de in-game branding e itens colecionáveis ligados ao universo dos videogames.

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Com uma equipe enxuta, passou a acompanhar de perto o caixa, a operação, o varejo, os investimentos e o crescimento. Em uma empresa menor, cada decisão aparecia mais rapidamente nos resultados. A experiência trouxe uma lógica diferente daquela das grandes corporações: menos camadas de aprovação, mais proximidade com a execução e impacto imediato das escolhas.

Em junho de 2024, veio o convite para liderar a BRP no Brasil. A partir de Campinas, Michael passou a comandar os negócios da companhia no Brasil e no México, à frente de cerca de 200 colaboradores.

A dimensão da operação ajuda a explicar o peso da responsabilidade. Globalmente, a BRP registra faturamento de cerca de 8 bilhões de dólares canadenses (equivalentes a quase 30 bilhões de reais). No Brasil, a operação alcançou 2 bilhões de reais, e a Sea-Doo ocupa posição de destaque no mercado de motos aquáticas. O país, que há cerca de quatro anos era o quarto maior mercado global da marca em volume de vendas, ultrapassou Austrália e Canadá e hoje está atrás apenas dos Estados Unidos.

Esse percurso, iniciado na Bélgica e ampliado por passagens pela Inglaterra, Austrália e Brasil, moldou a convicção que hoje orienta sua liderança. Aos 41 anos, Michael entende que comandar uma operação global exige leitura de contexto, escuta e disposição para adaptar decisões a pessoas, mercados e culturas diferentes.

Cultura não se impõe, se aprende

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Ao longo da carreira, Michael percebeu que países próximos no mapa podem funcionar de maneiras muito diferentes no ambiente de trabalho. Bélgica, Holanda, Alemanha, França e Inglaterra têm formas próprias de conduzir reuniões, expressar discordâncias, tomar decisões e construir confiança. No Brasil, essa percepção ganhou uma nova camada.

Por aqui, uma característica chamou sua atenção: a importância das relações pessoais. Ao contrário de parte dos ambientes europeus por onde passou, mais diretos e formais, o cotidiano corporativo brasileiro também se constrói nas conversas antes das reuniões, no café antes do expediente e no tempo dedicado à criação de proximidade.

Para ele, entender esses códigos faz parte do trabalho de qualquer líder que atua em contextos diferentes. Adaptar-se não significa apenas aprender processos. Significa observar comportamentos, expectativas e formas de comunicação. Quem chega com respostas prontas corre o risco de perder a confiança da equipe antes mesmo de iniciar qualquer mudança.

Na BRP, essa leitura aparece também na forma de interpretar o mercado brasileiro. O avanço da Sea-Doo no país não está ligado apenas à venda de motos aquáticas, mas à compreensão de um comportamento de consumo associado ao lazer, ao turismo náutico e à convivência entre família e amigos.

A empresa passou a tratar o produto como parte de uma experiência na água, ligada a fins de semana, viagens e momentos de desconexão. Para Michael, essa lógica conversa diretamente com sua forma de liderar. Antes de definir uma estratégia, é preciso entender como as pessoas vivem, decidem e se relacionam com aquilo que consomem.

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Liderança não é decisão solitária

Apesar de ocupar a principal posição executiva da BRP na América Latina, Michael não costuma tratar decisões relevantes como um exercício individual. Sua forma de liderar passa pela escuta, pelo alinhamento e pela leitura do ambiente antes da definição de caminhos.

Ao assumir a operação regional, encontrou equipes com décadas de experiência na companhia. Em vez de chegar com mudanças prontas, escolheu observar. Nos primeiros meses, dedicou tempo a ouvir o time, entender a cultura interna e construir confiança.

A decisão ajudou a evitar uma armadilha comum em transições de comando: acelerar transformações sem compreender a história da operação. Para Michael, a autoridade de um líder se fortalece quando ele consegue somar o conhecimento acumulado pela equipe às decisões que precisa tomar.

Ele reconhece que, em alguns momentos, a palavra final cabe a quem lidera, sobretudo em estruturas globais. Ainda assim, defende que decisões mais consistentes nascem do diálogo, da escuta ativa e da diversidade de perspectivas.

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Comunicação deixou de ser acessório

Ao comparar o início da carreira com o presente, Michael identifica uma transformação clara no perfil das lideranças. Modelos mais hierárquicos e distantes deram lugar a estruturas mais colaborativas.

A liderança marcada por decisões tomadas de cima para baixo perdeu espaço para uma atuação em que a comunicação se tornou central. O papel do líder evoluiu: mais do que definir direções, tornou-se necessário conectar pessoas, alinhar expectativas e construir consensos em meio às divergências.

Essa mudança também está ligada ao avanço da empatia como competência estratégica. Para ele, compreender a equipe, suas motivações, seus limites e seus diferentes estilos de trabalho é tão importante quanto definir metas.

A pressão não é igual para todos

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Um dos aprendizados mais importantes da trajetória de Michael foi perceber que uma pressão não produz o mesmo efeito em todos os profissionais.

Há pessoas que respondem bem a prazos apertados, cobrança direta e metas agressivas. Outras entregam melhor quando têm mais clareza, previsibilidade e espaço para organizar o próprio trabalho. Para Michael, cabe ao líder entender essas diferenças antes de aplicar a mesma régua a todos.

Essa leitura exige proximidade com a equipe. Não basta acompanhar números ou resultados. É preciso observar comportamentos, compreender limites e ajustar a forma de conduzir cada pessoa. Liderar, para ele, também é saber ler as pessoas.

A virada da inteligência artificial

Na visão de Michael, a inteligência artificial deixou de ser tendência e passou a funcionar como uma linha divisória no mundo corporativo.

Ele é direto: empresas que incorporam IA ao dia a dia aumentam significativamente sua produtividade, enquanto aquelas que resistem correm o risco de se tornar irrelevantes.

No cotidiano, utiliza a tecnologia como ferramenta de apoio estratégico, incluindo revisão de comunicações, análise de apresentações e feedback estruturado. Ainda assim, reconhece um desafio geracional. Profissionais mais experientes tendem a resistir mais à adoção da tecnologia, enquanto os mais jovens a incorporam com naturalidade.

O papel da liderança, nesse cenário, é reduzir a distância entre esses dois ritmos de adaptação e transformar a tecnologia em ferramenta de trabalho, e não em ameaça.

Escrever para entender

Entre as práticas pessoais de Michael, uma se destaca pela simplicidade: o hábito de escrever.

Ele registra desafios, reflexões e aprendizados ao longo do tempo. O exercício permite organizar pensamentos e acompanhar a própria evolução. Ao revisitar situações difíceis meses depois, consegue identificar padrões, reconhecer erros e consolidar aprendizados.

Para Michael, escrever reduz o estresse e amplia a clareza na tomada de decisões. Em posições de liderança, a pressão costuma encurtar o tempo dedicado à reflexão. Escrever permite organizar argumentos, separar emoção de fatos e compreender melhor o que está em jogo.

Carreira não é corrida curta

Ao observar as novas gerações, especialmente influenciadas por redes como o TikTok, Michael percebe um aumento do imediatismo nas expectativas de carreira.

Profissionais mais jovens, muitas vezes, projetam ascensões rápidas sem compreender o processo necessário para alcançar posições de liderança. Esse desalinhamento pode gerar frustração.

Sua recomendação é clara: o foco deve estar no aprendizado e na entrega, não apenas em cargos ou salários. A visão se aproxima de uma das obras que ele cita como referência, Radical Candor, de Kim Scott, que defende a importância de feedbacks diretos, construtivos e baseados na confiança como ferramenta de desenvolvimento profissional.

Sucesso é equilíbrio

Para Michael, o sucesso não se resume a resultado financeiro, cargo ou status. Está mais ligado à sensação de realização e ao equilíbrio entre aquilo que se espera da vida e aquilo que se constrói no dia a dia.

Quando expectativa e realidade caminham próximas, a sensação de sucesso se fortalece. Quando se afastam, até mesmo conquistas importantes podem perder parte do sentido.

Essa visão ajuda a explicar sua trajetória. Da Bélgica ao Brasil, passando pela Inglaterra, Austrália, Accenture, AB InBev, GameFlavor e BRP, Michael construiu uma carreira marcada por adaptação, escuta e disposição para rever certezas.

Para ele, liderar em ambientes globais exige repertório técnico, presença e sensibilidade para compreender pessoas e contextos. Quem escuta melhor, decide melhor. E quem se adapta chega mais preparado ao futuro.



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