Os mercados de câmbio e ações foram sacudidos nesta terça-feira (19/5) por uma nova deterioração de expectativas em torno do cenário econômico global. Tal quadro aumentou a aversão a risco dos investidores, que também acompanharam os desdobramentos das relações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

Nesse cenário, o dólar registrou alta de 0,85% frente ao real, cotado a R$ 5,04. O Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3), fechou em queda de 1,52%, aos 174,2 mil pontos. Esse foi o menor nível registrado pelo indicador, desde 21 de janeiro, ou seja, há quase quatro meses.

No campo internacional, a incerteza sobre a duração da guerra entre Estados Unidos e Irã voltou a contaminar a economia, à medida que acentuou temores inflacionários. Esse medo é provocado, notadamente, pelo aumento do preço do petróleo no mercado mundial e pela possível demora de queda desse valor, mesmo em caso de fim dos combates no Oriente Médio.

O fato é que a estimativa de mais inflação faz com que diminui a expectativa dos agentes econômicos de cortes de juros por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) neste ano. Atualmente, essas taxas estão fixadas no intervalo entre 3,50% e 3,75%.

No início de 2026, a maior parte dos analistas acreditava em reduções dos juros americanos, com apostas de cortes a partir de julho. Esse crença, porém, sofreu uma reviravolta radical. De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, não só estão afastadas as previsões de baixa, como deslancharam as chances de aumento dos juros.

Mais juros

Para a reunião do Fed marcada para dezembro, a possibilidade de aumento da taxa soma 59,8% (na sexta-feira, 15/5, esse percentual era de 50%). Para uma elevação de 0,25 ponto percentual, as chances são de 41,4%; para um aumento de 0,5 ponto percentual, elas ficam em 15,8%; e para um acréscimo 1 ponto percentual, atingem 2,6%.

Em paralelo, a previsão do aumento dos juros americanos em 2025 provoca uma escalada dos rendimentos dos Treasuries, os títulos da dívida do governo dos Estados Unidos. Nesta terça-feira, a taxa da T-bond de 30 anos (Treasury Bond, um título de longo prazo) ultrapassou o maior patamar desde 2007, superando 5,15%.

Dólar caro

O aumento da remuneração dos Treasures, considerados os ativos de renda fixa mais seguros do mundo, atrai novos dólares de investidores, o que aumenta a cotação da moeda americana no mercado mundial. “E temos Treasuries de 2, 5, 7 e 30 anos batendo máximas dos últimos quase vinte anos”, diz Felipe Sant’Anna, do grupo Axia Investing.

Eleições

Mas não é somente a guerra e a alta dos juros que pesam nos mercados de câmbio e de capitais. No cenário interno, observam analistas, os investidores continuam acompanhando o quadro eleitoral.

Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, divulgada nesta terça-feira, indicou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentou a liderança na corrida presidencial sobre o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A vantagem foi ampliada tanto no primeiro como no segundo turnos depois da divulgação das conversas entre o parlamentar e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Análise

Na avaliação de Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o dólar operou em forte alta na sessão, pressionando o real e seus pares emergentes em meio ao avanço global da moeda americana e à escalada dos rendimentos das Treasuries. No cenário internacional, as idas e vindas nas negociações entre Estados Unidos e Irã mantêm o petróleo Brent acima do patamar de US$ 110 o barril, alimentando temores inflacionários e reforçando a perspectiva de juros restritivos por mais tempo na maior economia do mundo, o que estimula a migração de capital para a renda fixa americana.

No ambiente doméstico, a cautela é amplificada pelo fator político após novas pesquisas eleitorais mostrarem uma perda de tração do senador Flávio Bolsonaro frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, refletindo o desgaste decorrente das investigações envolvendo o banco Master. Desse modo, tivemos dois vetores fortes atuando na sessão: o fator de risco político doméstico e o cenário externo ainda incerto consolidaram a pressão de alta do câmbio.



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