
Uma das séries de maior sucesso do momento, a sarcástica “Seus amigos e vizinhos”, da AppleTV+, tem como protagonista Andrew Cooper (interpretado por Jon Hamm, o bonitão de Mad Man), um ex-gestor de fundos, recém-divorciado, que invade mansões de um subúrbio bilionário e escolhe roubar objetos que passariam invisíveis a olhos destreinados, mas que provocam taquicardia em muitos colecionadores.
É assim que ele chega a uma garrafa de Domaine d’Auvenay Chevalier-Montrachet Grand Cru. Não é o Bordeaux óbvio que milionários exibem para impressionar visitas. É um branco borgonhês de produção microscópica assinado por Lalou Bize-Leroy, a sacerdotisa suprema da Borgonha, capaz de produzir menos de 600 garrafas em certas safras, disputadas no mundo inteiro. O verdadeiro “quiet luxury”, para usar um termo da moda, é a riqueza que sussurra. O d’Auvenay é uma garrafa que pode superar com folga os 80 000 reais no Brasil e, nas safras mais disputadas, entrar com naturalidade no território dos seis dígitos.
Ele faz parte do grupo de vinhos que figuram no imaginário dos amantes da bebida em todo mundo. São feitos por pequenas parcelas de vinhedo ou em pedaços de terra históricos, ou ainda são os responsáveis por mudar o enredo da vinificação de uma região. São muitos dígitos em todas as moedas e normalmente raros.
Se um Lafite é um Rolex Daytona, um d’Auvenay é aquele relógio suíço sem logotipo visível que custa o preço de um apartamento e só outro bilionário saberia reconhecer. A escolha do roteiro da série da AppleTV+ é brilhante. Não colocaram um rótulo para impressionar, escolheram um vinho para ser reconhecido por iniciados. É o equivalente enológico de deixar casualmente um Rothko, o maior expressionista abstrato que tem salas inteiras dedicadas a ele na Tate Modern e Moma, pendurado em um corredor vulgar.
Durante anos, os grandes vinhos surfaram uma espécie de imunidade econômica. Enquanto bolsas tremiam e moedas cambaleavam, Romanée-Conti, Rayas, Petrus e afins pareciam existir numa dimensão paralela, protegidos pela mística da escassez.
Ocorre que esse mundo das maravilhas começou a ranger. A China, durante décadas uma locomotiva para os rótulos mais caros do planeta — impulsionada pela cultura corporativa de presentear com o melhor possível —, esfriou brutalmente após regras mais rígidas de compliance e combate à ostentação. O mercado evaporou quase da noite para o dia. Os oligarcas russos, compradores vorazes de Bordeaux e Borgonha, desapareceram do radar internacional. Nos Estados Unidos, maior praça global para esses vinhos, o consumidor segue comprando, mas ficou dramaticamente mais sensível a preço. Londres, antigo paraíso logístico do fine wine, ficou mais cara e menos eficiente depois do Brexit. O fetiche continua; o impulso diminuiu.
SÓ UMA GARRAFA POR CPF
E o Brasil desde anos 90 passou a ser uma rota tímida, mas cativa dos grandes vinhos, que funcionam com uma lógica peculiar. Aqui, ninguém simplesmente compra. Mas disputa, espera e é observado. Como as mulheres na fila da Hermès por sua Birkin, o santo graal da bolsa de grife.
O empresário Otávio Lilla, da importadora Mistral, resume o espírito: quando chegam microalocações (lotes reservados), a regra é pulverizar e impedir especulação. A garrafa precisa cumprir sua função civilizatória: ser aberta. Boa parte delas vende-se apenas uma por CPF. Com isso, ocorre uma corrida na disputa pelos produtos mais preciosos.
Funciona assim com Romanée-Conti, onde revenda descoberta pode significar exílio perpétuo da lista. O Sassicaia é comercializado de forma igual, mesmo quando desembarca aqui em lotes generosos. Vale isso também para os grandes Bordeaux como Château Lafite Rothschild, Château Latour e Château Mouton Rothschild. No caso do Pétrus, ele é oferecido no país de forma tão seletiva que a importadora sequer ostenta preço online e só em ocasiões muito específicas vende duas garrafas por pessoa.
Parte da remessa dos minúsculos lotes é sacrificada em exames laboratoriais exigidos pelo Ministério da Agricultura, o MAPA. Na entrada no país, exige-se a abertura de uma garrafa para os funcionários da Receita checarem o produto. Escapam da regra apenas os vinhos incluídos na lista oficial criada em 1996 durante o governo Fernando Henrique Cardoso, chamada “Vinhos de Excepcional Qualidade”. A relação ficou famosa no mercado por seus buracos e lobbies históricos. Essa burocracia praticamente impede que garrafas comemorativas cheias de cifrões desembarquem por aqui.
O exemplo mais recente disso é o do vinho MCDXIX, da Blandy’s, criado em comemoração aos 600 anos da Ilha da Madeira, em Portugal. Sua garrafa é em formato Magnum, com cápsula de prata feita artesanalmente e que contém um blend de vinhos reserva mais especiais da casa aos custo de 6.500 euros. Inglaterra, China, Suíça e Alemanha disputaram alguns dos 600 exemplares e o Brasil não entrou na rota porque não havia budget pra deixar uma belezura dessas no entrada para os testes laboratoriais que comprovam o que há ali dentro. Enquanto escrevo imagino, pós-análise, a turma da aduana, com um copinho de plásticos tomando uma dose dessa preciosidade.
Apesar da dificuldade burocrática, muitos dos grandes vinhos furam essa barreira e são disputados a tapa por consumidores endinheirados. Além dos Montrachet, da família da série da AppleTV+, costuma desembarcar por aqui o porto da Graham’s 80 Years Old Tawny, que custa cerca de 27 000 reais. É uma importação quase a conta-gotas: apenas três unidades por ano. Há também importação regular para o Brasil para o Oremos Petrács 2017, o branco feito na Hungria pela Vega Sicília, que é equiparado em qualidade aos grandes borgonhas, para o Tondonia Branco e Rosé (espanhol de Rioja) e para os ícones do piemontês Gaja e o Brunello de Montalcino Reserva da Biondi Santi. Aplica-se a eles a mesma regra: apenas uma garrafa é vendida por CPF. “Quando o Gran Enemigo Single Vineyard Gualtallary 2019, produzido pelo Alejandro Vigil, recebeu 200 pontos, passamos mais de um ano vendendo um por CPF. Não era uma questão de escassez, mas era uma maneira de pulverizar, fazer com que mais pessoas o conhecessem”, conta Otávio, referindo-se ao vinho que conquistou 1oo pontos de Robert Parker e outros 100 de James Suckling.
Da Zahil, outra importadora importante do mercado brasileiro, recebem o mesmo tratamento na hora da distribuição o Clos Sainte Hune (Trimach), “o Montrachet da Alsácia”, que custa 7 779 reais e é referência em todos os grandes livros de como deve ser um grande Riesling e o Barca Velha, que desembarca por aqui a 12 800, trazendo consigo um pedaço engarrafado da vinificação história portuguesa.
Bernardo Pinto, director técnico da Zahil e um dos maiores especialistas brasileiros em vinho, crava uma verdade rara em tempos de hype fabricado: “Escassez hoje se produz. Relevância, não. Se a grandeza não aparece na taça, ou na história, o rótulo murcha”. É a bússola que separa fetiche de patrimônio líquido-cultural. Um dos vinhos que o emociona, entre muitos, é o Vin de La Solitude, da família Lançon, de Châteauneuf du Pape. “é um vinho que custa R$ 1.333, já recebemos 48 garrafas de duas safras, mas ele é uma reprodução de uma receita de 200 anos, com rótulo e garrafas da época, feito com as técnicas atuais, claro. “Ele é um passeio no tempo, servido na taça”, diz Bernardo, quase como quem recita uma poesia.
Mas um grande vinho — mesmo quando custa valores absurdos — sempre conta alguma coisa: um solo, uma obsessão, uma família, um século. Na série da AppleTV+, Andrew Cooper rouba o d’Auvenay não só para fazer caixa: é uma forma também de zombar de uma elite que trata vinho como ativo climatizado. No Brasil, apesar de toda a liturgia e da burocracia, ainda persiste uma esperança contra a secura do fetiche da simples ostentação: a de que alguém abra e dê à bebida o valor que ela merece.