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Existe uma nova elite brasileira surgindo diante dos nossos olhos. Ela usa relógio suíço, toma vinho cujo nome não consegue pronunciar, posta foto olhando para o horizonte em hotéis que parecem laboratórios de concreto e trata brunch como experiência espiritual. Mas existe uma característica fascinante nesse novo grupo social: ele tem horror à cultura. Claro que ninguém admite isso publicamente. Seria deselegante. Então foi criado um mecanismo mais sofisticado. A cultura não desapareceu. Ela apenas foi transformada em decoração. Os livros continuam nas casas. Estão espalhados pela sala, cuidadosamente posicionados sobre mesas de centro. São enormes, capa dura, lombadas neutras, títulos sobre arquitetura escandinava, fotografia japonesa ou culinária mediterrânea. Ninguém lê. Mas alguns ficam abertos para mostrar fotos bonitas ou desenhos interessantes. O livro perdeu sua função original e virou objeto cenográfico, quase uma almofada intelectual.

Outro dia fui jantar na casa de um homem muito rico. O apartamento era tão luxuoso que parecia cenário de novela sobre bilionários exuberantes. Mármore por toda parte, iluminação indireta, obras de arte gigantescas e um piano de cauda no centro da sala. Perguntei se ele tocava. Ele respondeu: “Não. Mas achei chique”. Talvez essa frase explique o Brasil contemporâneo melhor do que qualquer tese sociológica. A nova elite brasileira não quer parecer culta. Quer parecer cara. Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. O culto faz perguntas. O caro tira foto.

“A nova elite brasileira não quer parecer culta. Quer parecer cara. O culto faz perguntas. O caro tira foto”

Isso aparece em tudo. No restaurante da moda, por exemplo, onde a comida chega fria, servida sobre pedras vulcânicas trazidas de algum lugar exótico, enquanto um garçom emocionado explica que o molho foi defumado em madeira de reflorestamento sustentável. As pessoas mastigam confusas, pagam uma fortuna e saem felizes porque a experiência ficou linda no story. Ninguém mais quer emoção. Quer repertório visual. O teatro virou programa conceitual. O cinema brasileiro virou obrigação moral. A leitura virou acessório estético. Existe gente que compra livros por metro para combinar com a decoração da sala. E talvez o mais assustador seja perceber que isso não parece piada. Parece estratégia de vida.

Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanto acesso à cultura. Tudo está disponível. Filmes, peças, livros, museus, concertos, debates, cursos gratuitos. O problema não é falta de acesso. É falta de silêncio interno. As pessoas assistem a séries olhando o celular. Escutam música respondendo a mensagens. Leem duas páginas e já sentem necessidade de verificar quem visualizou o story. A cultura deixou de ser experiência e virou fundo sonoro da ansiedade contemporânea. Talvez por isso a arte que provoca desconforto cause tanto incômodo.

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Filme triste demais é “arrastado”. Livro complexo demais “cansa”. Peça inteligente demais “fica difícil”. A cultura agora precisa entreter o tempo inteiro, como um funcionário simpático tentando não perder clientes. No fundo, existe uma dificuldade crescente de permanecer presente diante de qualquer coisa que exija profundidade. Contemplar virou atividade exaustiva. Pensar demais virou quase falta de educação. E talvez seja justamente por isso que tanta gente tenha trocado Dostoiévski por uma adega climatizada. Um exige mergulho interno. O outro combina perfeitamente com a foto da sala.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995



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