
Ler Resumo
Propostas de transformação urbana raramente nascem consensuais. Ao contrário: quase sempre despertam resistência, contestação e desconfiança. Entendo haver algo de estrutural nisso. O ser humano, em geral, reage mal a tudo que altera a sua rotina, o seu entorno imediato ou a percepção de estabilidade no dia a dia. Esse comportamento não é novo. Nos anos 1950, a demolição do bairro San Juan Hill, em Nova York, para a construção do Lincoln Center, provocou forte reação pública. O episódio se tornou um marco das tensões entre visões desenvolvimentistas e preservacionistas um embate que, décadas depois, segue atual.
O Brasil oferece um exemplo quase didático desse fenômeno. Uma área localizada na zona sul carioca, denominada de Jardim de Alah, degradada por décadas, marcada pela ausência do poder público, passou a ser alvo em 2023 de uma proposta de requalificação por meio de parceria público-privada. O projeto previa contrapartidas expressivas: investimentos sociais voltados à população mais vulnerável do entorno, além de ganhos ambientais relevantes. Ainda assim, e apesar do cumprimento rigoroso de todos os ritos legais, a iniciativa enfrentou forte resistência.
O episódio expõe uma tensão recorrente no debate urbano: mesmo quando há aderência normativa, benefícios coletivos evidentes e participação institucional consolidada, a desconfiança em relação à transformação persiste. Reconhecer as razões que levaram a sociedade a desacreditar o poder público é essencial. Há um histórico consistente de promessas não cumpridas, mudanças de direção e baixa previsibilidade regulatória. Ainda assim, é preciso lembrar que o próprio Estatuto da Cidade (2001) incorporou, em sua lógica, a necessidade de adaptação contínua. Ao estabelecer a revisão obrigatória dos planos diretores a cada dez anos, a lei parte do princípio de que usos, dinâmicas econômicas e comportamentos sociais se modificam ao longo do tempo. A cidade é um organismo vivo e precisa de instrumentos capazes de acompanhar essas mudanças.
Nas propostas de transformação urbana, a realização de audiências públicas com participação da sociedade é exigida. E é justamente nesses espaços que, muitas vezes, o debate perde qualidade. O que se observa, com frequência, é a predominância de pleitos individuais ou de grupos específicos, muitas vezes desconectados de uma visão mais ampla de cidade. São demandas legítimas, mas que nem sempre dialogam com o interesse coletivo ou que ignoram tendências urbanas que devem moldar o desenvolvimento das cidades no futuro próximo.
Perde-se densidade no debate. Falta um mergulho mais profundo nos conceitos que estruturam o planejamento urbano e nos compromissos de longo prazo que essas decisões exigem.Mesmo diante de um cenário de desconfiança, alguns exemplos mostram que a resistência nem sempre está certa. O fechamento, aos domingos, da Avenida Paulista, em São Paulo, e a demolição do Elevado da Perimetral, no Rio de Janeiro, ilustram como medidas inicialmente criticadas podem se consolidar como avanços urbanos.
Cidades como Nova York e Paris também vêm adotando medidas impopulares que as tornaram mais humanas, caminháveis e seguras. Na megalópole norte-americana o programa “Open Streets” surgiu em 2020 como um piloto, fechando ruas para carros e abrindo espaço para pedestres; pouco depois se tornou política permanente. Na capital francesa, no mesmo período, o Rues aux écoles adotou lógica semelhante ao restringir veículos no entorno de escolas para priorizar pedestres e crianças. Ambos ilustram como intervenções experimentais podem ganhar escala, sem eliminar o conflito urbano.
É necessário reconhecer que viver em cidades mais sustentáveis e menos desiguais exige escolhas concretas e nem sempre resultantes de unanimidade. A redução da dependência do automóvel, o fortalecimento do transporte público, o incentivo ao uso misto do solo, o adensamento em áreas bem servidas de infraestrutura e a reocupação de regiões centrais são algumas delas.
*Luciane Virgilio, docente-líder do curso de educação executiva Planejamento Urbano e Regulações das Cidades, do Laboratório Arq.Futuro do Insper, é arquiteta e urbanista, mestre em Engenharia Urbana pela Poli-USP