Ler Resumo

Nenhum observador mais atento da cena geopolítica esperava que a aguardada reunião entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim colocasse um ponto-final nas rivalidades tão existenciais entre as superpotências — e estavam corretos.

Por trás dos apertos de mão, dos elogios protocolares e das fotos cuidadosamente encenadas, muitos temas espinhosos permanecem em aberto, a serem abordados nos próximos três de quatro encontros previstos até o fim de 2026 — Xi deve visitar Washington em setembro, confirmou a China na sexta-feira 15. Entre eles, estão quatro grandes frentes de atrito, capazes de redefinir os rumos da economia e política globais neste século.

BEIJING, CHINA - MAY 14: U.S. President Donald Trump and Chinese President Xi Jinping attend a bilateral meeting at the Great Hall of the People on May 14, 2026 in Beijing, China. President Trump is meeting with President Xi Jinping in Beijing to address the Iran conflict, trade imbalances, and the Taiwan situation while establishing new bilateral boards for economic and AI oversight. (Photo by Alex Wong/Getty Images)
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, em reunião bilateral no Grande Salão do Povo. 14/05/2026 – (Alex Wong/Getty Images)

1. Tarifas, comércio e a disputa por influência econômica

Desde o primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2020, o comércio virou arma geopolítica. Obcecado com o déficit comercial americano, o republicano transformou tarifas em ferramenta de pressão contra Pequim, com taxas que chegaram a 145% no ano passado, desencadeando uma guerra comercial que sacudiu mercados e redesenhou cadeias produtivas mundo afora.

A China retaliou mirando onde dói: restringiu a exportação de minerais estratégicos e passou a endurecer regras para empresas que tentam deslocar fábricas para fora do país. O embate deixou multinacionais em posição desconfortável, divididas entre seguir a cartilha de Washington ou preservar acesso ao gigantesco mercado chinês.

O presidente dos EUA, Donald Trump, anuncia tarifas recíprocas aos parceiros comerciais dos EUA no dia 2 de abril
O presidente dos EUA, Donald Trump, anuncia tarifas recíprocas aos parceiros comerciais dos EUA no dia 2 de abril (CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP)
Continua após a publicidade

Nem mesmo a recente trégua parcial reduziu de fato a desconfiança. Por trás dos anúncios diplomáticos, americanos e chineses seguem travando uma queda de braço para definir quem dará as cartas na economia global. Por ora, China e os Estados Unidos concordaram em continuar implementando “todos” os acordos firmados anteriormente e em criar conselhos para comércio e investimentos, afirmou Wang Yi, ministro das Relações Exteriores chinês, na sexta-feira. (Trump, hiperbólico como sempre, falou em acordos “fantásticos”.)

2. Cadeias produtivas e a guerra fria da inteligência artificial

A disputa entre as duas maiores economias do planeta entrou de vez na era dos algoritmos, dos supercomputadores e dos chips ultrapotentes. Washington apertou as restrições à exportação de semicondutores avançados para a China numa tentativa explícita de frear o desenvolvimento tecnológico e militar chinês.

Pequim reagiu, bem ao seu modo, usando o peso que tem nas cadeias globais de suprimentos, já que controla aproximadamente 90% do processamento e refino global de terras raras. No ano passado, limitou exportações de minerais críticos indispensáveis à produção de baterias, armamentos e sistemas de inteligência artificial, antes dos países chegarem a uma trégua comercial parcial.

Mais do que uma simples briga comercial, trata-se de uma corrida por supremacia tecnológica. Os Estados Unidos acusam os chineses de roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia; a China responde dizendo que os americanos tentam impedir artificialmente sua ascensão. No centro da batalha está uma pergunta que inquieta Washington: quem dominará a inteligência artificial dominará também a próxima fase do poder global.

Continua após a publicidade

3. Taiwan, o barril de pólvora asiático

Não existe assunto mais delicado na relação entre chineses e americanos do que Taiwan. Para Xi Jinping, a ilha autogovernada é uma província rebelde que cedo ou tarde retornará ao controle de Pequim (à força, se necessário).

Já os Estados Unidos seguem sustentando a política da chamada “ambiguidade estratégica”: oficialmente, não reconhecem Taiwan como Estado soberano, mas abastecem sua defesa com armas e apoio político — tudo a ver com a disputa tecnológica no tópico anterior, uma vez que a ilha produz 90% dos chips mais avançados no mundo, que alimentam as esteiras fabris americanas.

Forças terrestres chinesas participam de exercícios de tiro real de longo alcance, tendo como alvo áreas marítimas ao norte de Taiwan, a partir de local não divulgado
Forças terrestres chinesas participam de exercícios de tiro real de longo alcance, tendo como alvo áreas marítimas ao norte de Taiwan, a partir de local não divulgado (Reprodução/Reprodução)

O problema é que Donald Trump, adepto de uma diplomacia movida a relações de custo-benefício, frequentemente trata alianças militares como fichas de negociação, despertando temor de lado a lado. Os chineses enxergam qualquer gesto americano como incentivo à independência taiwanesa; aliados dos americanos na Ásia, por sua vez, receiam uma acomodação que redesenhe o equilíbrio de forças no Indo-Pacífico.

Continua após a publicidade

Em Pequim, Xi fez questão de subir o tom: se a questão “não for bem conduzida”, advertiu, poderá gerar “confrontos e até conflitos” com os Estados Unidos.

4. Irã, petróleo e o novo tabuleiro do Oriente Médio

A guerra no Oriente Médio abriu mais uma frente de tensão entre Xi e Trump. Com o Estreito de Ormuz parcialmente comprometido e o fluxo global de petróleo ameaçado, Washington passou a pressionar Pequim para usar sua influência sobre Teerã — do qual os chineses são os principais compradores de petróleo.

A resposta veio em tom frio. A China evita se alinhar à estratégia americana e prefere manter relações simultaneamente próximas do Irã e das monarquias árabes do Golfo, preservando espaço de manobra em uma região vital para sua segurança energética. O impasse irrita a Casa Branca, que vê Pequim como uma potência que colhe benefícios da estabilidade garantida pelos Estados Unidos sem assumir o ônus político e militar das crises internacionais.

Navios no Estreito de Ormuz
Embarcações aparecem ancoradas no Estreito de Ormuz, perto de Bandar Abbas, no sul do Irã. (AMIRHOSSEIN KHORGOOEI / ISNA/AFP)
Continua após a publicidade

Xi parece mais confortável no papel de observador pragmático enquanto Trump se desgasta em mais um conflito externo de alto custo político, mas a ele tampouco interessa uma guerra desestabilizadora no momento em que a economia do país anda de lado (para padrões chineses, é claro). De acordo com o secretário do Tesouro americano, Pequim se comprometeu em “ajudar” no que diz respeito a Ormuz; a diplomacia chinesa, por ora, não deu passos concretos nesta direção, afirmando apenas que é necessário encontrar uma solução rápida para um conflito “que não deveria ter acontecido”.

Nos próximos encontros esperados até o final deste ano, cada superpotência terá suas prioridades, que analistas dividiram entre os quatro Bs dos Estados Unidos e os três Ts da China.

Os quatro Bs:

  • Boeing: garantir vendas maciças de aeronaves para companhias aéreas chinesas (por ora, foi anunciada a venda de 200 unidades);
  • Boi: aumentar as exportações de carne bovina americana para o crescente mercado chinês.
  • Beans (grãos de soja): firmar acordos de compra agrícola de longo prazo.
  • Boards (conselhos de negócios e investimentos): criar órgãos bilaterais estruturados para gerenciar o intercâmbio econômico em setores não relacionados à segurança.

Os três Ts:

  • Tarifas: exigir uma redução nas tarifas punitivas impostas aos produtos chineses.
  • Tecnologia: pressionar por menos controles de exportação sobre semicondutores avançados e chips relacionados à IA dos Estados Unidos.
  • Taiwan: solicitar a redução de vendas de armas americanas e o endurecimento da postura de Washington contra a independência de Taiwan.

No fim das contas, americanos e chineses sabem que não podem se desacoplar completamente sem provocar um terremoto econômico global, e cada um se prejudicar. Ainda assim, o encontro em Pequim deixou claro que a lógica que rege a relação entre as duas potências já não é mais a da cooperação, mas a da rivalidade administrada — um equilíbrio frágil entre concorrência, dependência mútua e permanente disputa por hegemonia.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *