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Nenhum observador mais atento da cena geopolítica esperava que a aguardada reunião entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim colocasse um ponto-final nas rivalidades tão existenciais entre as superpotências — e estavam corretos.
Por trás dos apertos de mão, dos elogios protocolares e das fotos cuidadosamente encenadas, muitos temas espinhosos permanecem em aberto, a serem abordados nos próximos três de quatro encontros previstos até o fim de 2026 — Xi deve visitar Washington em setembro, confirmou a China na sexta-feira 15. Entre eles, estão quatro grandes frentes de atrito, capazes de redefinir os rumos da economia e política globais neste século.

1. Tarifas, comércio e a disputa por influência econômica
Desde o primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2020, o comércio virou arma geopolítica. Obcecado com o déficit comercial americano, o republicano transformou tarifas em ferramenta de pressão contra Pequim, com taxas que chegaram a 145% no ano passado, desencadeando uma guerra comercial que sacudiu mercados e redesenhou cadeias produtivas mundo afora.
A China retaliou mirando onde dói: restringiu a exportação de minerais estratégicos e passou a endurecer regras para empresas que tentam deslocar fábricas para fora do país. O embate deixou multinacionais em posição desconfortável, divididas entre seguir a cartilha de Washington ou preservar acesso ao gigantesco mercado chinês.

Nem mesmo a recente trégua parcial reduziu de fato a desconfiança. Por trás dos anúncios diplomáticos, americanos e chineses seguem travando uma queda de braço para definir quem dará as cartas na economia global. Por ora, China e os Estados Unidos concordaram em continuar implementando “todos” os acordos firmados anteriormente e em criar conselhos para comércio e investimentos, afirmou Wang Yi, ministro das Relações Exteriores chinês, na sexta-feira. (Trump, hiperbólico como sempre, falou em acordos “fantásticos”.)
2. Cadeias produtivas e a guerra fria da inteligência artificial
A disputa entre as duas maiores economias do planeta entrou de vez na era dos algoritmos, dos supercomputadores e dos chips ultrapotentes. Washington apertou as restrições à exportação de semicondutores avançados para a China numa tentativa explícita de frear o desenvolvimento tecnológico e militar chinês.
Pequim reagiu, bem ao seu modo, usando o peso que tem nas cadeias globais de suprimentos, já que controla aproximadamente 90% do processamento e refino global de terras raras. No ano passado, limitou exportações de minerais críticos indispensáveis à produção de baterias, armamentos e sistemas de inteligência artificial, antes dos países chegarem a uma trégua comercial parcial.
Mais do que uma simples briga comercial, trata-se de uma corrida por supremacia tecnológica. Os Estados Unidos acusam os chineses de roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia; a China responde dizendo que os americanos tentam impedir artificialmente sua ascensão. No centro da batalha está uma pergunta que inquieta Washington: quem dominará a inteligência artificial dominará também a próxima fase do poder global.
3. Taiwan, o barril de pólvora asiático
Não existe assunto mais delicado na relação entre chineses e americanos do que Taiwan. Para Xi Jinping, a ilha autogovernada é uma província rebelde que cedo ou tarde retornará ao controle de Pequim (à força, se necessário).
Já os Estados Unidos seguem sustentando a política da chamada “ambiguidade estratégica”: oficialmente, não reconhecem Taiwan como Estado soberano, mas abastecem sua defesa com armas e apoio político — tudo a ver com a disputa tecnológica no tópico anterior, uma vez que a ilha produz 90% dos chips mais avançados no mundo, que alimentam as esteiras fabris americanas.

O problema é que Donald Trump, adepto de uma diplomacia movida a relações de custo-benefício, frequentemente trata alianças militares como fichas de negociação, despertando temor de lado a lado. Os chineses enxergam qualquer gesto americano como incentivo à independência taiwanesa; aliados dos americanos na Ásia, por sua vez, receiam uma acomodação que redesenhe o equilíbrio de forças no Indo-Pacífico.
Em Pequim, Xi fez questão de subir o tom: se a questão “não for bem conduzida”, advertiu, poderá gerar “confrontos e até conflitos” com os Estados Unidos.
4. Irã, petróleo e o novo tabuleiro do Oriente Médio
A guerra no Oriente Médio abriu mais uma frente de tensão entre Xi e Trump. Com o Estreito de Ormuz parcialmente comprometido e o fluxo global de petróleo ameaçado, Washington passou a pressionar Pequim para usar sua influência sobre Teerã — do qual os chineses são os principais compradores de petróleo.
A resposta veio em tom frio. A China evita se alinhar à estratégia americana e prefere manter relações simultaneamente próximas do Irã e das monarquias árabes do Golfo, preservando espaço de manobra em uma região vital para sua segurança energética. O impasse irrita a Casa Branca, que vê Pequim como uma potência que colhe benefícios da estabilidade garantida pelos Estados Unidos sem assumir o ônus político e militar das crises internacionais.

Xi parece mais confortável no papel de observador pragmático enquanto Trump se desgasta em mais um conflito externo de alto custo político, mas a ele tampouco interessa uma guerra desestabilizadora no momento em que a economia do país anda de lado (para padrões chineses, é claro). De acordo com o secretário do Tesouro americano, Pequim se comprometeu em “ajudar” no que diz respeito a Ormuz; a diplomacia chinesa, por ora, não deu passos concretos nesta direção, afirmando apenas que é necessário encontrar uma solução rápida para um conflito “que não deveria ter acontecido”.
Nos próximos encontros esperados até o final deste ano, cada superpotência terá suas prioridades, que analistas dividiram entre os quatro Bs dos Estados Unidos e os três Ts da China.
Os quatro Bs:
- Boeing: garantir vendas maciças de aeronaves para companhias aéreas chinesas (por ora, foi anunciada a venda de 200 unidades);
- Boi: aumentar as exportações de carne bovina americana para o crescente mercado chinês.
- Beans (grãos de soja): firmar acordos de compra agrícola de longo prazo.
- Boards (conselhos de negócios e investimentos): criar órgãos bilaterais estruturados para gerenciar o intercâmbio econômico em setores não relacionados à segurança.
Os três Ts:
- Tarifas: exigir uma redução nas tarifas punitivas impostas aos produtos chineses.
- Tecnologia: pressionar por menos controles de exportação sobre semicondutores avançados e chips relacionados à IA dos Estados Unidos.
- Taiwan: solicitar a redução de vendas de armas americanas e o endurecimento da postura de Washington contra a independência de Taiwan.
No fim das contas, americanos e chineses sabem que não podem se desacoplar completamente sem provocar um terremoto econômico global, e cada um se prejudicar. Ainda assim, o encontro em Pequim deixou claro que a lógica que rege a relação entre as duas potências já não é mais a da cooperação, mas a da rivalidade administrada — um equilíbrio frágil entre concorrência, dependência mútua e permanente disputa por hegemonia.