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A síndrome dos ovários policísticos, conhecida pela sigla SOP, acaba de ganhar um novo nome em um artigo de consenso publicado no periódico médico The Lancet. O documento foi assinado por pesquisadores ligados a 13 instituições, centros clínicos, universidades e organizações de pacientes de diferentes países, e contou com o apoio e o engajamento de 56 organizações acadêmicas, clínicas e de defesa de pacientes.

A nova denominação proposta é síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) — em inglês, polyendocrine metabolic ovarian syndrome.

A mudança não é apenas uma troca de rótulo. Ela tenta corrigir uma distorção histórica: o nome antigo dava a entender que o problema central seriam “cistos” nos ovários, quando, na verdade, a condição envolve alterações hormonais, metabólicas, reprodutivas, dermatológicas e psicológicas que afetam o organismo como um todo.

Segundo o artigo, a antiga SOP atinge cerca de uma em cada oito mulheres e mais de 170 milhões de pessoas no mundo em idade reprodutiva. Apesar disso, até 70% das pessoas afetadas podem permanecer sem diagnóstico, em parte porque a nomenclatura anterior ajudava a limitar a percepção da síndrome a uma questão ginecológica ou ovariana.

O novo nome foi definido após um processo internacional de consenso que ouviu pacientes, profissionais de saúde e entidades de várias regiões do mundo. Foram analisadas mais de 14 mil respostas de pessoas com SOP e profissionais multidisciplinares. A meta era chegar a uma nomenclatura mais precisa, menos estigmatizante e mais útil para orientar diagnóstico, tratamento, pesquisa e políticas públicas.

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Mas o novo nome não reduz a complexidade do problema. Ao contrário: ele escancara que essa síndrome sempre foi maior do que parecia.

A antiga SOP não é definida pela presença de cistos patológicos. O que existe, em muitos casos, é uma alteração no desenvolvimento dos folículos ovarianos, que pode aparecer no ultrassom com um padrão “policístico”. O termo “cisto”, portanto, confundia pacientes e profissionais, além de reforçar a falsa impressão de que o cuidado deveria se concentrar apenas no ovário.

A nova denominação destaca três dimensões essenciais. “Poliendócrina” aponta para o envolvimento de múltiplos eixos hormonais. “Metabólica” reforça a ligação com resistência à insulina, obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações no colesterol, gordura no fígado, apneia do sono e maior risco cardiovascular. “Ovariana” mantém a referência a manifestações como ciclos irregulares, infertilidade e alterações foliculares.

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Esse ponto é central para a prática clínica. A síndrome se conecta fortemente a doenças metabólicas e cardiovasculares. O artigo destaca que resistência à insulina é frequente na condição e que complicações como intolerância à glicose, diabetes gestacional, diabetes tipo 2, colesterol alto, hipertensão e disfunção vascular são mais comuns. Também são citados riscos aumentados para doença cardiovascular, infarto e AVC em mulheres com a síndrome, em comparação com aquelas sem a condição.

O peso corporal entra nessa história como um fator decisivo. O artigo afirma que o IMC costuma ser mais alto em pessoas com a síndrome e contribui para a gravidade do quadro. A obesidade, especialmente a adiposidade central, não deve ser tratada apenas como consequência ou característica associada: ela aparece como um agente causal importante, capaz de agravar resistência à insulina, inflamação, irregularidade menstrual e risco cardíaco.

Isso não significa reduzir a síndrome ao peso, nem culpabilizar pacientes. Significa reconhecer que o excesso de tecido adiposo, sobretudo na região abdominal, participa ativamente da fisiopatologia e precisa ser considerado no cuidado. Estratégias de manejo do peso — com mudanças de estilo de vida, medicamentos quando indicados e, em casos selecionados, cirurgia bariátrica — podem trazer benefícios clínicos relevantes.

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A consequência prática da mudança de nome é clara: ginecologistas não podem olhar apenas para ciclos menstruais, ovulação ou fertilidade. Endocrinologistas, cardiologistas, clínicos, dermatologistas, nutricionistas, psicólogos e médicos de família também precisam reconhecer a síndrome como parte de sua rotina. A paciente deve ser avaliada de forma integral, com investigação de risco metabólico, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico, sinais de resistência à insulina, saúde mental, qualidade do sono, pele, cabelo, fertilidade e risco cardiovascular.

O antigo nome ajudou a manter muitas pacientes em uma jornada fragmentada: uma consulta para acne, outra para irregularidade menstrual, outra para dificuldade de engravidar, outra para ganho de peso, outra para ansiedade ou depressão. O novo nome tenta reunir essas peças em uma mesma explicação clínica.

A transição não será imediata. O consenso prevê um período de cerca de três anos para implementação global, com atualização de materiais educativos, diretrizes, prontuários eletrônicos, classificações internacionais de doenças e sistemas de pesquisa. O termo SOP ainda deve circular por bastante tempo, inclusive para facilitar a compreensão de quem já recebeu esse diagnóstico.

Trocar o nome é um passo simbólico e científico relevante. Mas o impacto real virá quando a prática médica abandonar a visão estreita de uma doença “dos ovários” e passar a enxergar a paciente por inteiro — com o peso, o metabolismo, os hormônios e o risco cardiovascular no centro da conversa.



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