
Em 1953, o médico psiquiatra martinicano Frantz Fanon (1925-1961) chega à Argélia, país no continente africano que enfrentava, na época, as ameaças de uma guerra. Sua missão é liderar o Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville, local onde reinavam as abordagens violentas e desumanizadas com pacientes psiquiátricos. Formado pela Universidade de Lyon, na França, e tendo sido supervisionado durante a residência pelo psiquiatra marxista François Tosquelles (1912-1994), Fanon destoava da abordagem do local. Suas ideias antimanicomiais inflamam quando descobre, dentro de Blida-Joinville, uma ala subterrânea de presos argelinos torturados e submetidos a péssimas condições de saúde, sob a justificativa de serem biologicamente inferiores aos brancos.
A cena precede em um ano o início da Guerra da Argélia, que é o fio condutor do longa de Jean-Claude Barny, cineasta conterrâneo de Fanon, feito em comemoração ao centenário de nascimento do médico e que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 14. Ao lado do contexto político atribulado, a fiel abordagem escolhida pelo cineasta preserva o Fanon intelectualizado, com o filme ganhando fôlego especialmente nos momentos em que o psiquiatra articula suas ideias livremente enquanto sua esposa, Josie, as transcreve para o papel. Ou quando, ao dar ordens ao seus assistentes, não deixa reinar a crença de dano mental isolado — todos os pacientes naquele hospital, sem exceção, são atravessados pelo colonialismo e pelo sentimento forçado de inferiorização.
Para os que não conhecem a fundo a história do psiquiatra, algumas cenas e personagens podem passar batidos. É desejável ter em mente alguns detalhes importantes. Um deles é a sua conexão com o jornal El Moudjahid, o principal meio de comunicação da frente revolucionária da Argélia, liderada pela interessantíssima figura Abane Ramdane (1920-1957), um dos maiores nomes na luta pela independência argelina e líder da Frente Libertadora Nacional (FLN), que, não por acaso, manteve uma amizade próxima com Fanon até seu assassinato em 1957. Outro personagem a se prestar atenção é Hocine Aït Ahmed, um político e revolucionário argelino, também da FLN, que fortaleceu a atuação de Fanon durante a Guerra ao ser tradutor e intérprete dos pacientes argelinos atendidos em Blida-Joinville.
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