A Índia vive uma escalada dramática da crise no clima.
Em um retrato sem precedentes da intensidade do aquecimento extremo no país, as 50 cidades mais quentes do planeta estavam em território indiano em um único dia de abril, segundo levantamento da plataforma internacional de monitoramento atmosférico AQI.
O dado sintetiza o tamanho da emergência enfrentada pela maior população do mundo, que convive com temperaturas próximas de 50°C, noites sufocantes, sobrecarga no sistema elétrico e temor crescente de colapso energético em algumas regiões.
Na cidade de Banda, no estado de Uttar Pradesh, os termômetros chegaram a 47,6°C, de acordo com dados do India Meteorological Department. Mesmo durante a madrugada, a temperatura permaneceu acima de 34°C, um patamar considerado perigoso para o corpo humano.
O calor extremo já provoca apagões, amplia o consumo de eletricidade e coloca sob pressão hospitais, redes de abastecimento e infraestrutura urbana em diversas partes do país.

Noites escaldantes agravam crise
Embora a Índia esteja acostumada a verões severos, meteorologistas afirmam que o padrão atual se diferencia pela duração e pela intensidade do calor noturno.
Segundo especialistas, as temperaturas mínimas vêm subindo de forma consistente nos últimos anos, um dos sinais mais claros do avanço das mudanças climáticas.
Sem alívio térmico após o pôr do sol, milhões de pessoas mantêm ventiladores e aparelhos de ar-condicionado ligados continuamente, elevando a demanda de energia a níveis recordes.
Rede elétrica entra sob pressão
O aumento abrupto do consumo vem expondo fragilidades históricas da infraestrutura energética indiana.
Dados do governo mostram que o país registrou déficits noturnos de até 5,4 gigawatts nas últimas semanas, suficientes para abastecer milhões de residências.
Em várias regiões, moradores relatam apagões frequentes justamente nos horários de maior calor. Estados como Punjab já enfrentam interrupções programadas no fornecimento de eletricidade.
O problema se agrava porque parte importante das usinas térmicas e nucleares está fora de operação para manutenção. Ao mesmo tempo, a guerra no Golfo Pérsico afetou o fornecimento internacional de gás natural liquefeito, combustível usado para compensar oscilações da geração renovável.
A Índia ampliou fortemente sua capacidade solar na última década, mas ainda depende de combustíveis fósseis para sustentar o sistema durante a noite, quando a geração solar desaparece.

Calor ameaça economia e saúde pública
Especialistas alertam que a onda de calor pode produzir efeitos econômicos severos sobre a Índia.
O país possui centenas de milhões de trabalhadores expostos ao calor extremo em atividades como agricultura, construção civil e transporte. Em regiões mais pobres, muitas famílias ainda não têm acesso regular a refrigeração ou energia estável.
Hospitais também registram aumento de casos de desidratação, insolação e complicações cardiovasculares ligadas às temperaturas elevadas.
Além disso, o calor extremo pressiona o abastecimento de água e eleva o uso de eletricidade para irrigação agrícola, aprofundando o risco de novos apagões.
Mudanças climáticas tornam fenômeno mais frequente
Cientistas afirmam que ondas de calor intensas vêm se tornando mais frequentes, duradouras e severas no sul da Ásia devido ao aquecimento do planeta.
A Índia é considerada um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas por combinar alta densidade populacional, urbanização acelerada, desigualdade social e forte dependência de atividades expostas ao clima.
Estudos recentes estimam que o calor extremo já ameaça bilhões de dólares em produtividade econômica no país e pode tornar determinadas regiões perigosas para habitação durante períodos do ano.
Meteorologistas também monitoram a possível influência do fenômeno El Niño sobre as monções previstas para os próximos meses. Caso as chuvas fiquem abaixo da média, especialistas temem uma combinação ainda mais explosiva entre seca, calor extremo e crise energética.