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A diretora brasileira Luciana Malavasi vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Enquanto o longa “O Que Sobrou do Céu” integra o VDF Showcase, dentro do Marché du Film, no Festival de Cannes, o curta “O Novo Corpo” segue ampliando sua circulação internacional e acaba de ser selecionado para o Hard:line Film Festival, na Alemanha — um dos principais eventos europeus dedicados ao cinema de gênero.

Com uma linguagem autoral marcada por suspense, desconforto e reflexões sobre vulnerabilidade feminina, a cineasta falou a VEJA sobre o impacto de chegar a Cannes, os bastidores do mercado audiovisual, a força do horror como ferramenta política e a necessidade de mais espaço para diretoras brasileiras no circuito internacional.

“O Novo Corpo” transita por horror, fantasia e ficção científica — gêneros que lidam com o limite entre o real e o imaginário. O que te atrai nesse território e como ele potencializa as histórias que você quer contar?

É curioso porque, quando escrevi “O Novo Corpo”, há quatro anos, eu não pensei “vou fazer um filme de horror”. O filme simplesmente aconteceu a partir dos atravessamentos que eu tenho como mulher e da forma como recebo o mundo. Acho que o horror acabou surgindo desse incômodo constante diante da realidade que vivemos hoje. No filme, coloquei mulheres como uma nova carne de consumo dentro de um universo distópico. É absurdo, claro, mas a provocação é justamente essa: até que ponto nós nos acostumamos ao absurdo? A gente vê guerras, feminicídios, agressões, violências diariamente e a vida segue. O horror entra como ferramenta para gerar desconforto e, talvez, recuperar um pouco da sensibilidade e da empatia que o mundo perdeu. E o fantástico abre possibilidades muito cinematográficas de transformar incômodos em imagem. Ele permite brincar mais com as sensações do público e criar experiências emocionais mais intensas.

Seu trabalho vem ganhando força no circuito internacional. Em meio a esse reconhecimento, como você preserva sua identidade autoral sem ceder às expectativas de um mercado global cada vez mais competitivo?

Não é fácil. “O Novo Corpo” teve estreia mundial no Fantastic Fest, um dos maiores festivais de cinema de gênero do mundo, e eu fui a única diretora latina da minha categoria. Depois seguimos para outros festivais, passamos pelo Brasil, Alemanha e agora teremos estreia na Noruega. É muito bonito ver o filme ganhando esse alcance. Mas existe uma pressão muito grande do mercado. Hoje participo de mercados nacionais e internacionais exercendo também meu lado produtora, porque cinema depende de orçamento, de parceiros, de viabilização. O mercado exige formatos, caixas e entendimento estratégico. Ao mesmo tempo, eu acredito que precisamos lutar para preservar nosso cinema autoral. Senão, facilmente somos engolidos. Meu primeiro longa, “O Que Sobrou do Céu”, só aconteceu graças às políticas públicas brasileiras. Agora ele está em pós-produção e já estamos trabalhando internacionalmente sua circulação.Cinema não se faz sozinho. Existe uma dança delicada entre manter a visão da direção e entender como o mercado funciona. O filme precisa existir, circular e encontrar seu público.

“O Que Sobrou do Céu” chega ao Marché du Film, em Cannes, ainda em fase de pós-produção e tema forte de vulnerabilidade e salvação espiritual. Como está sendo viver esse momento?

É muito importante. Vamos participar do showcase da VDF Connection ao lado de outros filmes internacionais e apresentar cenas e trechos para distribuidores, agentes de vendas e programadores. Esse movimento mostra que o trabalho de um filme começa muito antes da estreia. Existe toda uma construção para entender onde ele se encaixa, quais festivais fazem sentido, quais parceiros podem ajudar no caminho. E esse filme é bem diferente de “O Novo Corpo”. É um thriller dramático, muito mais próximo da suspensão e do suspense psicológico. Ainda fala sobre vulnerabilidade feminina, manipulação e controle, mas de uma forma mais sutil e muito ligada à nossa realidade atual.

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Ana Costa (Emergência Radioativa, Netflix) em cena de
Ana Costa (Emergência Radioativa, Netflix) em cena de “O Que Sobrou do Céu”, de Luciana Malavasi, que será exibido no Marché du Film, em Cannes (Divulgação/Divulgação)

O olhar feminino tem sido cada vez mais valorizado, mas ainda enfrenta desafios estruturais. Que mudanças você considera urgentes para que mais diretoras brasileiras ocupem espaços de destaque fora do país?

Acho que estamos começando a abrir uma trilha, mas ainda é muito difícil. Nos festivais em que participei, quase sempre havia uma ou duas diretoras mulheres no máximo. Muitas vezes eu era a única mulher no palco. O olhar feminino faz diferença porque nossas vivências são diferentes. Uma diretora mulher inevitavelmente vai trazer outro tipo de sensibilidade, de dor, de percepção do mundo. Mas oportunidades ainda são fundamentais. As mulheres continuam precisando provar muito mais. Precisamos de mais pessoas — especialmente mulheres em posições de decisão — apostando em novas cineastas. Porque, se continuarmos circulando sempre entre os mesmos nomes, o novo nunca aparece. Existem muitas diretoras talentosas precisando apenas que alguém diga “sim”.

Em “O Novo Corpo”, o figurino funciona quase como extensão da narrativa. Como roupas, texturas e construção visual ajudam a aprofundar emoções?

O figurino é um dos pontos mais importantes do filme. As personagens aparecem embaladas em plástico, como carnes à venda, e isso nasceu de um trabalho incrível entre direção de arte e figurino. Aquelas imagens ajudam a construir o impacto emocional do filme. Sempre que o curta é exibido, as pessoas falam do plástico no corpo das mulheres porque é algo muito chocante visualmente. Eu tenho uma admiração enorme pelos profissionais de arte. Muitas vezes o público fala apenas do diretor ou dos atores, mas a verdade do cinema também passa completamente pela construção visual.

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O burburinho em torno de “O Diabo Veste Prada 2” reacendeu discussões sobre moda, poder e cultura pop. Como você enxerga fenômenos assim dentro da indústria audiovisual?

Acho maravilhoso quando um filme lota salas de cinema. Isso mostra a força da cultura pop e prova que o cinema continua vivo. Filmes como “O Diabo Veste Prada 2”, assim como aconteceu com “Barbie”, movimentam debates, geram identificação e mostram a potência da indústria audiovisual quando existe investimento pesado em marketing. E essa é justamente a provocação que eu gosto de fazer: por que apenas projetos considerados “seguros” recebem apostas tão grandes? O marketing funciona. Quando existe investimento, o público sabe que o filme existe.Talvez o mercado pudesse arriscar mais também em outros tipos de cinema, em novas vozes, em projetos autorais. Porque, quando há investimento e visibilidade, os filmes realmente conseguem acontecer.



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