Diante da escalada de ataques e episódios de violência em instituições de ensino — como os recentes casos registrados no Ceará e no Rio de Janeiro —, especialistas e educadores defendem uma mudança radical na estratégia de enfrentamento.
Em vez de focar exclusivamente em medidas de segurança física, como detectores de metais e vigilância armada, o caminho para pacificar o ambiente escolar passa pela reconstrução do sentimento de pertencimento e pela humanização das relações pedagógicas.
Um problema invisível
A resposta institucional imediata costuma ser o controle. No entanto, o diagnóstico pedagógico é claro: a escola excessivamente burocratizada e centrada no desempenho ignora o sofrimento e a invisibilidade dos jovens. Muitos dos que produzem violência carregam marcas de exclusão social e ressentimento.
“A violência escolar não se resolve com controle, vigilância ou punição. Essas medidas podem até conter episódios imediatos, mas dificilmente transformam as causas profundas e estruturais que atravessam os sujeitos”, aponta a especialista Maria Amélia Santoro, que é doutora em educação, pós-doutora em pedagogia e organizadora do livro “Pedagogias Emergentes: princípios e práticas”.
Escola como comunidade formativa
Para transformar o clima escolar, a especialista enfatiza que é necessário que o aluno deixe de ser um número ou um objeto de disciplina para se tornar um sujeito legítimo. “Isso exige a implementação de assembleias de classe, práticas restaurativas e um currículo que dialogue com as angústias reais do estudante”, afirma Maria Amélia.
De acordo com ela, a prevenção ocorre quando o jovem encontra vínculos significativos. Em outras palavras, um adolescente agressivo é, muitas vezes, um jovem desamparado. “Quando ele se sente parte de um projeto coletivo, a escola deixa de ser um ‘território hostil’ e passa a ser um espaço de proteção”, avalia.

Desafios dos dias atuais
Com a popularização das redes sociais, gerações nasceram sob uma perspectiva em que a fronteira entre o real e o virtual desapareceu – e, como consequência, os conflitos originados nas redes sociais transbordam para a sala de aula.
A intervenção eficaz, contudo, não deve ser policialesca, alerta a educadora. “O papel da escola não é controlar redes sociais, mas educar para a convivência ética no ambiente digital. Isso exige um trabalho contínuo de formação crítica sobre empatia e as consequências emocionais da violência virtual.”
Na linha de frente dos desafios que invadem a rotina escolar, os professores enfrentam hoje um cenário crítico de exaustão emocional – dentro e fora do universo digital – e dilemas que, muitas vezes, acontecem antes mesmo de os estudantes chegarem à sala de aula.
Recentemente, dados da Pense (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), organizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), revelaram que mais de 1,5 milhão de estudantes brasileiros não compareceram às aulas por receio da insegurança no trajeto.
Figura do professor
A especialista explica que a pressão sobre os professores aumenta sob modelos de gestão que, muitas vezes, reduzem o papel do docente ao de um mero “repassador de conteúdos”.
“Essa visão tecnicista retira do professor sua autonomia fundamental, dificultando a criação de vínculos profundos com os alunos e esvaziando sua capacidade de mediar conflitos de forma orgânica”, reflete a especialista.
Para que a mediação de conflitos deixe de ser uma teoria distante e se torne uma prática efetiva, a pedagoga defende que o corpo docente não necessita de mais treinamentos burocráticos ou cursos isolados que apenas sobrecarregam a jornada.
“A solução passa por uma mudança estrutural nas condições de trabalho. É imperativo o estabelecimento de equipes multiprofissionais de apoio e a garantia de que o professor possa concentrar sua carga horária em uma única unidade escolar, permitindo que ele se torne, de fato, parte daquela comunidade”, defende.
Além disso, a criação de espaços institucionais de escuta e supervisão coletiva é apontada como essencial para processar o estresse secundário da violência. O consenso entre educadores é que o fortalecimento da categoria não depende de fórmulas prontas, mas de condições humanas de trabalho. Conforme destaca a diretriz pedagógica atual: “Professor precisa estar trabalhando em equipe. Não precisa de treinamento para mediar conflitos. Precisa de boa formação profissional e contar com uma equipe pedagógica de apoio e escuta”.
Somente com esse suporte a escola poderá retomar sua função de espaço de cuidado e formação integral.
Educação parental
Em 10 anos, o número de casos da violência escolar mais que triplicou no Brasil, crescendo mais de 250% e ao menos 13 mil casos registrados. Os dados são do MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania) e FAPESP.
O aumento dos casos tem chocado toda a sociedade. Especialmente porque a escola sempre foi vista como um espaço de aprendizado, amizade e desenvolvimento. “Por isso é tão doloroso ver episódios violentos acontecendo justamente nesse ambiente”, define Claudia Alaminos, psicopedagoga, educadora parental e autora do “Manual de sobrevivência para pais de adolescentes”.
Entre o público-alvo mais impactado pela recente onda de ataques está alunos ou ex-alunos vítimas de bullying, exclusão e humilhação ao longo da trajetória escolar – que sem o pertencimento tão necessário na adolescência, acabam buscando acolhimento em outros lugares, principalmente na internet.
“Nesses grupos virtuais de discurso de ódio, o adolescente encontra algo que estava faltando: atenção, validação e sensação de pertencimento. Inicialmente, ele é acolhido e valorizado. Depois, começam os incentivos à vingança, à agressividade e às “provas” de coragem e lealdade ao grupo. Sentindo-se fortalecido por esse ambiente, muitos jovens acabam planejando e executando atos de violência extrema”, detalha a especialista.
Apoio da família
Neste momento, a educação parental se torna fundamental, enfatiza a psicopedagoga. Isso porque quando um filho sofre bullying, isolamento ou mudanças emocionais importantes, os pais precisam observar, acolher e, muitas vezes, buscar ajuda psicológica.
Também é essencial acompanhar o que os adolescentes consomem e produzem na internet. “Entender do que eles riem, quais conteúdos compartilham e que tipo de humor os atrai faz parte do cuidado. O mundo virtual oferece riscos reais e adolescentes ainda precisam da orientação dos adultos”, acrescenta.
Outro ponto essencial é a construção de conexão dentro de casa. Muitas vezes os pais se interessam naturalmente pelo universo das crianças, mas passam a criticar os gostos dos adolescentes, criando um distanciamento na relação.
Para a especialista, demonstrar interesse genuíno pelas músicas, assuntos e experiências deles fortalece vínculos e cria espaços de confiança. “A qualidade da relação entre pais e filhos é um dos maiores fatores de proteção que existem, porque ninguém consegue entender a dor de um adolescente sem aproximação, conversa e presença verdadeira”, reflete. ^
Para além do choque factual, os ataques a escolas e creches provocam um impacto emocional profundo nas famílias e em toda a sociedade.
Não por acaso para muitos pais, especialmente os que deixam crianças pequenas nesses espaços, o medo acaba crescendo de forma intensa. E embora esse sentimento seja legítimo, Claudia pondera que a tentativa de proteger os filhos não pode transmitir a ideia de que o mundo inteiro é perigoso e imprevisível, porque isso também afeta o desenvolvimento emocional da criança.
“A educação parental propõe justamente esse equilíbrio entre proteção e segurança emocional. Crianças pequenas não precisam — e nem devem — ser expostas a excesso de informações, imagens violentas ou detalhes sobre esses acontecimentos. Mas também não significa manter silêncio absoluto. As crianças percebem o medo dos adultos, escutam conversas fragmentadas e, quando não recebem explicações adequadas para a idade, acabam criando fantasias ainda mais assustadoras do que a realidade.”