Ocorrida em 2022, a erupção do vulcão submarino Hunga Tonga-Hunga Ha’apai, no Pacífico Sul, foi uma das mais violentas nos últimos anos. Por outro lado, o fenômeno natural também revelou boas notícias para o futuro da Terra. Segundo pesquisadores, o evento conseguiu limpar, sozinho, parte da poluição por metano (CH4) liberado por ele próprio. O metano é um dos principais gases de efeito estufa (GEE).
A descoberta do mecanismo pode ser vista como um caminho para nortear soluções futuras a fim de desacelerar o avanço do aquecimento global. A detecção ocorreu através do satélite Sentinel-5P da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), responsável por monitorar diariamente a poluição do ar e os GEEs em todo o mundo.
Por meio de um instrumento do Sentinel-5P, foi possível identificar concentrações muito altas de formaldeído na pluma vulcânica após a erupção. O encontro foi uma evidência essencial para a detecção do mecanismo: o formaldeído se forma justamente quando o metano é destruído na atmosfera.
O achado foi liderado por uma equipe de sete pesquisadores europeus, incluindo uma do Instituto Real Belga de Aeronomia Espacial, na Bélgica, e outro da Universidade de Copenhague, na Dinamarca. Os resultados foram publicados na revista Nature Communications em 7 de maio.
Como o vulcão “limpou” o metano
A principal hipótese é que as grandes quantidades de água salgada do mar juntamente com cinzas vulcânicas lançadas pela erupção na estratosfera foram atingidas pela luz solar. A junção formou um cloro altamente reativo, que auxiliou na decomposição do metano.
O mecanismo foi descoberto de forma inédita em 2023 no Saara. Na ocasião, a poeira do deserto foi levada pelo vento até o Oceano Atlântico e se misturou com o sal marinho da névoa do mar. Assim, foram formados aerossóis de sal de ferro, que são pequenas partículas. A incidência da luz sobre os aerossóis produziu cloro, o elemento capaz de destruir o metano na atmosfera.
“O que é novo — e completamente surpreendente — é que o mesmo mecanismo parece ocorrer em uma pluma vulcânica na alta estratosfera, onde as condições físicas são totalmente diferentes”, destaca um dos autores do estudo, Matthew Johnson, da Universidade de Copenhague, em comunicado.
No momento, o metano provoca um terço do aquecimento global no mundo, sendo 80 vezes mais potente que dióxido de carbono (CO2), outro GEE. Por outro lado, o CH4 se decompõe com mais rapidez, em cerca de 10 anos.
De acordo com os pesquisadores, a descoberta pode pavimentar um caminho de novas tecnologias visando a eliminação mais rápida do metano e, consequentemente, a diminuição do aquecimento global. Estudos que buscam soluções podem tentar reproduzir artificialmente o mecanismo realizado pelo vulcão.
Mesmo assim, os especialistas ressaltam que a melhor arma no momento é reduzir as emissões de metano e dióxido de carbono, causadas especialmente pelo setor industrial e agropecuário.
“Para a indústria, é uma ideia óbvia tentar replicar esse fenômeno natural — mas somente se for comprovado que é seguro e eficaz. Nosso método via satélite pode oferecer uma maneira de ajudar a descobrir como os humanos podem desacelerar o aquecimento global”, ressalta Johnson.