Uma empresa ligada aos filhos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, solicitou ao governo americano mais US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,2 bilhões) para desenvolver uma mina de tungstênio no Cazaquistão, aprofundando questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo negócios privados da família Trump e políticas estratégicas da Casa Branca.
Segundo o jornal Financial Times, a empresa Cove Kaz Capital pediu o financiamento adicional ao Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Defesa dos EUA, órgão criado para apoiar cadeias de suprimento consideradas essenciais para a segurança nacional.
O grupo já havia obtido, em novembro do ano passado, cartas de intenção não vinculantes que preveem até US$ 1,6 bilhão (cerca de R$ 8,8 bilhões) em apoio de duas agências federais americanas: o Export-Import Bank e a Development Finance Corporation.
A Cove Kaz controla 70% dos projetos Northern Katpar e Upper Kairakty, no centro do Cazaquistão. As minas são consideradas estratégicas porque o tungstênio é um mineral crítico usado nas indústrias militar, energética e de manufatura.
Mineral virou prioridade geopolítica
O pedido ocorre em meio à ofensiva do governo Trump para reduzir a dependência americana da China em minerais críticos e terras raras. Pequim domina cerca de 80% da oferta mundial de tungstênio e endureceu restrições de exportação do metal no início de 2025.
O tungstênio é utilizado em ferramentas industriais, perfuração, munições perfurantes e mísseis de energia cinética. A pressão geopolítica e as restrições chinesas fizeram o preço do minério disparar.
Segundo dados da consultoria Fastmarkets citados pelo FT, a tonelada métrica do metal saltou de cerca de US$ 350 para mais de US$ 3.100 desde o começo do ano passado.
A Cove afirma que o projeto no Cazaquistão poderá se tornar a maior mina de tungstênio fora da China. A expectativa da empresa é iniciar a construção em 2028 e começar a operação no ano seguinte.
Ligação com filhos de Trump levanta questionamentos
A controvérsia envolve a conexão da empresa com Donald Trump Jr. e Eric Trump.
No mês passado, a Cove Kaz anunciou uma fusão com a Skyline Builders, companhia listada na Nasdaq apoiada financeiramente pelos dois filhos do presidente por meio da gestora American Ventures.
Segundo o FT, os irmãos ampliaram participação na empresa meses depois de o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, informar diretamente a Trump que pretendia conceder um grande projeto de tungstênio à Cove Kaz.
Não há evidências de que Donald Jr. e Eric Trump tenham participado diretamente das negociações com o governo americano ou influenciado decisões sobre financiamento público. Ambos afirmam ser investidores passivos, sem atuação operacional.
Ainda assim, a proximidade entre os investimentos privados da família presidencial e os interesses estratégicos da política mineral americana ampliou críticas de especialistas em ética pública e governança.
Corrida por minerais críticos se intensifica
O episódio reflete a crescente disputa internacional por acesso a minerais considerados essenciais para defesa, transição energética e tecnologia.
Além do tungstênio, os EUA tentam ampliar acesso a lítio, níquel, cobre e terras raras diante da dependência da cadeia produtiva chinesa. A estratégia ganhou força após as tensões comerciais e tecnológicas entre Washington e Pequim.
Nos últimos anos, o governo americano passou a usar bancos públicos, incentivos fiscais e apoio diplomático para estimular projetos minerais em países aliados ou parceiros estratégicos.
O Cazaquistão ganhou relevância nesse cenário por possuir grandes reservas minerais e buscar maior aproximação econômica com Estados Unidos e Europa, ao mesmo tempo em que tenta equilibrar relações com China e Rússia.