A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) vê com ressalvas o plano da operadora espanhola Aena para a internacionalização do aeroporto de Congonhas (SP) e considera essa hipótese prematura.
Na semana passada, em entrevista à CNN, a Aena reiterou o desejo de iniciar voos internacionais em Congonhas a partir de 2028 e colocou rotas no Cone Sul como prioridades.
O CEO da empresa no Brasil, Santiago Yus, falou da possibilidade de criar uma ponte aérea Congonhas-Aeroparque, ligando os aeroportos centrais de São Paulo e de Buenos Aires.
“É um desejo. Imagina fazer uma viagem de manhã, ter uma reunião de negócios e um almoço no Don Julio [restaurante portenho] e voltar à noite para dormir em casa. Seria fantástico”, disse Yus no programa semanal Conexão Infra.
Para a Anac, no entanto, essa ideia é “prematura” e não pode ser precipitada.
“Não temos data nem sequer para começar uma análise sobre a internacionalização de Congonhas”, afirmou à CNN o diretor-presidente da agência reguladora, Tiago Faierstein.
Faierstein diz que, antes de qualquer análise, será preciso concluir a implantação da tecnologia IFR (Instrument Flight Rules) no aeroporto do Campo de Marte (SP) e verificar as consequências disso.
O IFR, previsto no contrato de concessão do Campo de Marte, permitirá aos aviões se aproximarem em condições de baixa visibilidade por questões meteorológicas.
Essa tecnologia viabilizaria mais pousos e decolagens no aeroporto, mas pode gerar conflitos por espaço aéreo com as demais unidades do Terminal São Paulo, que engloba Congonhas e Guarulhos.
A sobrecarga pode provocar perda de “slots”. Estuda-se, como forma de mitigar os efeitos, um redesenho das aerovias.
De qualquer forma, existe a possibilidade de redução da capacidade de pousos e decolagens, o que ensejaria reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos da Aena e da GRU Airport.
Faierstein lembra que Congonhas é um aeroporto com capacidade bastante limitada e sem “slots” disponíveis para ampliação de voos pelas empresas aéreas. Alocar uma parte desses horários para voos internacionais já significa um potencial enxugamento da oferta para rotas domésticos e aumento no preço das passagens.
Diante da hipótese de redução dos “slots” totais em Congonhas, por causa da implantação do IFR no Campo de Marte e eventual redesenho das aerovias, é necessário agir com mais prudência ainda.
Por tudo isso, o diretor-presidente avalia que não é hora de se falar sobre a internacionalização de Congonhas. E lembra que outras autoridades — como Polícia Federal, Receita Federal, Vigiagro — também precisariam dar aval prévio. Até agora, eles não foram consultados.
Pelo menos uma dessas autarquias, segundo relatos feitos à CNN, também tem ressalvas porque considera não ter equipes suficientes para deslocar pessoal ao aeroporto de Congonhas.