Flávio Bolsonaro está diante de um grande desafio: desvincular-se de seu colega, o senador Ciro Nogueira (presidente do PP) — atingido em cheio pelo escândalo do Banco Master —, sem se desvincular do Centrão, grupo de partidos de direita. A tarefa parece um daqueles exercícios de contorcionismo político que só Brasília é capaz de produzir, já que os dois nomes andaram tão próximos nos últimos anos que era difícil saber onde terminava o bolsonarismo e onde começava o DNA pragmático do Centrão.

O problema para o “01” é que Ciro não é apenas um aliado; ele foi o mentor que ensinou Flávio a navegar nas águas escuras e malcheirosas do Congresso. O plano de ter o cacique do PP como vice era o seguro de vida que a família Bolsonaro buscava para garantir capilaridade e mais tempo de propaganda no rádio e na TV. No entanto, com a Polícia Federal investigando repasses suspeitos do Banco Master que tiveram Ciro como destino, o abraço que antes trazia conforto agora “cheira a queimado”. Flávio sabe que, para o eleitorado que ainda acredita no discurso de “limpeza” da política, carregar esse fardo nas costas é um suicídio eleitoral anunciado.

A manobra de distanciamento começou de forma seca, com declarações de que “não se responde por atos de terceiros” e um recuo estratégico sobre a vice-presidência. O senador tenta agora vender a imagem de que o Banco Master é um problema do governo Lula, que apenas teria começado na gestão de seu pai. Flávio quer empurrar a lama para longe de si. Só que o Centrão é uma criatura de muitos braços e pouca paciência para quem abandona parceiros ao primeiro sinal de tempestade. Se Flávio for ríspido demais no descarte de Ciro, corre o risco de sofrer um isolamento dentro do próprio bloco que tanto se esforça para conquistar.

O dilema é cruel: Flávio precisa do Centrão para sobreviver, mas precisa que esse grupo tenha uma cara nova — ou, pelo menos, uma que não esteja estampada nas páginas policiais de hoje. Ele tenta a proeza de ser o político que transita no sistema sem ser tragado por ele, uma linha muito tênue para quem já carrega seus próprios desgastes acumulados. Se não conseguir equilibrar essa “saída à francesa” de Ciro com a manutenção do apoio de outros líderes partidários, Flávio poderá chegar a outubro com o pior dos dois mundos: sem a pureza ideológica da direita raiz e sem o suporte logístico e coeso da velha política.

No fim das contas, tentar descolar um nome do outro enquanto o escândalo do Master ferve — e ferverá cada vez mais daqui para frente — é como tentar separar a água do óleo depois que ambos já foram batidos no liquidificador do poder. A propósito: cuide-se Davi Alcolumbre, presidente do Senado, “unha e carne” com Ciro e Daniel Vorcaro, dono do Master. Um tsunami é uma sucessão de muitas ondas; a próxima poderá afogá-lo.

 

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