O contato próximo com a rotina familiar empreendedora despertou, logo cedo, a atenção de Joice Reis Lopes.
Foram anos observando sua mãe Gislaine Reis comandar o próprio negócio — uma clínica de estética em Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul, importante polo do agronegócio sulista.
“Adorava acompanhar minha mãe no negócio. Aos 12 anos, já recepcionava as pessoas na porta, atendia telefone e agendava horários para a clientela”, lembra a filha, que também se tornou empreendedora.
A Estética Gisa, clínica de Gislaine, foi fundada na década de 1980, período em que, segundo a filha, o ramo era pouco popular.
A ideia para o negócio surgiu de um interesse pessoal e da formação em massoterapia e cosmetologia. Desse conhecimento veio o trabalho em uma clínica especializada e também a atuação autônoma, antes mesmo do negócio se tornar formal.
“Ela se apaixonou pela área da estética facial e, depois de uma viagem profissional ao Chile, veio com muitas ideias e um grande sonho”, conta. Com uma maca móvel, Gislaine fazia atendimentos domiciliares nas horas vagas, oferecendo serviços como limpeza de pele e massagem.
Com reputação e a confiança de diversos clientes já estabelecidos, o negócio já nasceu com lista de espera.
“Ela brinca que começou com um cavalete e uma tábua — a maca que utilizava na época”, lembra. Com o tempo, a clínica cresceu em tamanho e relevância, conquistando um número crescente de clientes recorrentes, e a participação da família na administração do negócio.
“Como família, vivemos a estética junto com ela. Sabemos que a filha mais velha da nossa mãe é a Estética Gisa, e ela sempre esteve presente na nossa vida”, diz Joice, que comanda a clínica há três anos.
A decisão por assumir a gestão da empresa veio do desejo de Gislaine em reduzir a carga de trabalho, preparando uma sucessão familiar gradual.
Atualmente, a clínica oferece tratamentos faciais e corporais, como limpeza de pele, botox, preenchimentos e outros procedimentos estéticos. Do lado gerencial, Joice cuida de áreas que vão do financeiro ao marketing, enquanto Gislaine mantém os atendimentos pontuais às clientes.
Segundo Joice, um grande problema da sucessão familiar está na adaptação a novos processos e métodos.
“Passar da caderneta para as planilhas e depois para um sistema mais robusto é um desafio”, diz. “Mas nosso aporte principal, como gestores filhos, é dar um suporte inicial em relação a essas atualizações”, diz.
Para ela, a principal lição para famílias que empreendem junto — especialmente mães e filhos — é compreender a velocidade com que novas ideias serão aceitas.
“Em um processo de sucessão, nada é imposto. É preciso respeitar a voz de quem esteve à frente do negócio por tanto tempo”, afirma. “Vemos com muita garra e muita sede. Logo no início queria mudar tudo, mas logo vemos que não é bem assim”, diz.
Diferenciar os ambientes familiar e de sociedade também é essencial para uma boa convivência, seja ela pessoal ou nos negócios, afirma. “Impor limites e estabelecer regras é algo fundamental. Precisamos saber quando e o que falar em cada momento”, recomenda.
Mão na massa
Oigres Trevisan herdou de sua mãe, Celiane, a aptidão para a confeitaria. O ofício levou os dois a trabalhar em padarias e supermercados durante anos, ainda que de forma separada.
A mudança aconteceu com a oportunidade de alugar um espaço comercial em Porto Alegre, já preparado e com todo o maquinário necessário para que mãe e filho começassem o próprio negócio.
O começo da jornada foi de percalços: distantes de casa e sem meios de locomoção, Celiane e seus filhos dormiam no espaço comercial alugado, em cima de caixas de papelão, para iniciar a produção dos itens ainda de madrugada.
“Tínhamos um sonho, mas sempre pareceu muito distante”, conta a empreendedora. “Mas sem dúvida tínhamos a mão de obra e muita disposição”, conta Celiane.
Aos poucos, a padaria foi fidelizando a clientela, e se estabelecendo financeiramente. Dois anos depois, a proprietária do imóvel decidiu retomá-lo, o que levou Celiane e sua família a buscar um novo ponto comercial.
A padaria própria foi inaugurada a poucos quilômetros, dessa vez com mais estrutura, equipamentos e equipe — resultado de alguns anos de bom desempenho no local anterior.
No início, todos os quatro filhos participavam do negócio, do atendimento ao trabalho manual de confeitaria. Agora, há 10 anos no mercado, a padaria Trevisan conta com 22 pessoas, incluindo Celiane e dois de seus filhos, Oigres Trevisan e Vithoria Trevisan.
Além do atendimento em balcão, a padaria também é uma cafeteria, servindo clientes diretamente no ponto de venda.
“É o que sei fazer. Passei toda a vida profissional em uma padaria, e é o que me motiva”, conta Oigres, que além do trabalho manual, também é responsável pelas áreas de recursos humanos, financeiro, compra de mercadorias e negociações com fornecedores.
Para Celiane, ver a família seguindo seus passos na confeitaria, ramo que decidiu seguir como profissão, é um dos principais méritos do empreendedorismo entre mãe e filhos.
“Vejo o crescimento deles como pessoas, que passaram da adolescência para adultos aqui dentro, e isso é muito gratificante”, afirma.
Oigres destaca a proximidade com a mãe e o espaço para aprender. “É bom saber que temos espaço para aprender, errar e acertar, e que de outro lado está alguém que não irá julgar, mas sim direcionar para o caminho certo, profissionalmente”, diz.
Para os dois, porém, há um ponto em comum para continuar tendo sucesso nos negócios: a convivência excessiva precisa ser dosada para não comprometer o relacionamento familiar.
“Hoje, essa divisão entre trabalho e família ainda não existe aqui e sabemos que é prejudicial, mas é algo que queremos fazer acontecer no futuro”, diz Celiane.
(texto de Maria Clara Dias)