
Do asfalto da Maré para um dos maiores palcos do mundo. O criador de conteúdo e dançarino Raphael Vicente viveu um momento que parecia impossível até para ele: dançar ao lado de Shakira diante de 2 milhões de pessoas na Praia de Copacabana. O jovem, que teve grande repercussão nas redes sociais com uma coreografia de Waka Waka gravada na Maré, transformou um vídeo despretensioso em um encontro histórico com a artista que sempre admirou. Em entrevista à coluna GENTE, Raphael relembra o convite inesperado, os bastidores ao lado da estrela pop e a emoção de representar a favela em um espetáculo acompanhado pelo mundo inteiro.
Em que momento você percebeu que a “ficha caiu”, que estava mesmo ao lado de Shakira no palco? Só fui perceber que aquilo estava acontecendo no exato momento em que subi no palco, porque, até antes disso, com a gente ensaiando, com tudo acontecendo, eu, na minha cabeça, achava que, em algum momento, não ia dar certo e não ia acontecer. Para mim, fugiu de uma coisa que era tão simples como ter feito um clipe da Copa, de uma música de 10 anos atrás, que eu nem fiz com a intenção de chegar até a própria Shakira.
Como foi receber o convite para participar do show em Copacabana? O convite para participar do show veio através da coreógrafa dela, a Maite, que achou o meu número e me mandou uma mensagem. Só que, na hora, eu estava na minha formatura do teatro, estava em cena, fazendo peça, não consegui ver. Ela ficou várias horas no vácuo e começou a ir atrás de pessoas que trabalham perto de mim, alguém que me conhecia e tal. Aí minha equipe começou a me ligar. Assim que saí, tinham várias ligações, várias mensagens no meu WhatsApp.
Muita gente fala do carisma da Shakira. Como ela é nos bastidores? A interação forte que a gente teve com a Shakira durante esse processo todo de ensaio pro show e tal… acho que a gente só viu ela duas vezes. Uma vez foi quando a gente estava saindo do ensaio; ela estava com o balé dela e meio que sentada no chão, mas estava longe. Eu dei um tchauzinho para ela, bem de longe, foi uma coisa muito rápida. A segunda vez foi quando a gente foi convidado a gravar um vídeo divulgando a música dela praa Copa desse ano. Tinha alguns momentos do clipe em que a gente não estava gravando, e ela chegava até mim e falava: “Rafa, você tá cansado, está tudo bem?”. Ela sempre muito preocupada com a gente, sabe? As interações foram as melhores possíveis. Super humilde, super simpática. Nem parece que é uma estrela global.
A sua produção de conteúdo a partir da Maré ganhou visibilidade com o vídeo de Waka Waka, chegando até a própria Shakira. Você imaginava que aquela coreografia poderia te levar para o palco do show mais importante da diva latina? Não imaginava que aquele vídeo iria fazer a gente chegar onde chegou hoje. Fiz esse clipe sem a intenção de chegar até a Shakira, porque, pra mim, era uma coisa muito improvável. Até então, era só um clipe da Copa, de uma música super bombada nesse período.
Você levou integrantes do coletivo Dance Maré para o palco. O que significa representar a Maré? Ela levou os integrantes do Dança Maré, mas não só o Dança Maré, foi super representativo, porque levar o nome da Maré para um palco com essa visibilidade enorme e esse reconhecimento, de uma forma boa, muda completamente a perspectiva de quem enxerga a favela apenas pela violência. Quando a gente pisa naquele palco, as pessoas estão vendo jovens da Maré que são talentosos, que estão em busca de sonhos, que são pessoas boas. Foi um momento muito importante para gente, como seres humanos e também como favelados.
Depois dessa experiência, mudou algo na forma como você enxerga sua carreira como criador de conteúdo e dançarino? Na verdade, não mudou a forma como eu enxergo. Só concretizou a forma como eu sempre enxerguei a minha profissão. Porque eu vejo o que eu faço criação de conteúdo de uma maneira muito maior. A gente pode se comunicar de várias formas: com a dança, com a palavra, sem a palavra, com vídeos ou com fotos.
Quais são os próximos passos? São passos antigos, que já estão acontecendo há algum tempo, mas ainda não finalizaram. Como exemplo, estou abrindo o meu estúdio de dança aqui na Maré, que vai ser a primeira escola de dança da comunidade. Vai se chamar Dança Maré Space. Agora, depois de tudo isso que aconteceu, eu estou mais animado ainda. As obras já estão acontecendo há um tempo e acredito que vai ficar pronto até o final do ano. A ideia é incentivar ainda mais a dança aqui na Maré e fazer com que mais jovens daqui acreditem que podem, um dia, talvez, dançar com uma diva pop ou subir em um palco desse tamanho.