A fabricante do popular medicamento para perda de peso Wegovy relatou vendas da versão do remédio em comprimido acima do esperado, elevando também as projeções para o ano todo. Isso, consequentemente, é uma notícia particularmente boa tanto para a farmacêutica Novo Nordisk quanto para a cidade Kalundborg, na Dinamarca.
Há alguns anos, a Novo Nordisk percebeu que o ingrediente ativo do medicamento para diabetes Ozempic fazia com que os pacientes perdessem quantidades significativas de peso. Logo em seguida, a fábrica da empresa em Kalundborg começou a produzir Wegovy, um medicamento aprovado para perda de peso que usa o mesmo ingrediente ativo.
A subsequente procura mundial pelos “medicamentos milagrosos” da Novo fez com que ela se tornasse, em 2023, a empresa mais valiosa da Europa. O Danske Bank, o maior banco do país, também atribui à empresa o mérito de ter evitado a recessão na economia dinamarquesa naquele ano.
Martin Høgh Sørensen trabalha para a Novo Nordisk Engineering, empresa que auxilia na expansão da fábrica de Kalundborg, parte do gigantesco investimento de US$ 9,3 bilhões da Novo na região desde 2021. Ele se sente, “é claro, um pouco orgulhoso” da cidade de menos de 17.000 habitantes, que agora se encontra em um polo da revolução global da perda de peso.
Ainda assim, revoluções raramente são fáceis. O preço das ações da Novo despencou quase três quartos desde o pico em 2024 e caiu no ranking das empresas mais valiosas da Europa. A empresa também anunciou milhares de demissões e prevê uma queda de até 12% nas vendas e nos lucros até 2026.
Então, o que aconteceu? E o que isso significa para a cidade de Kalundborg?
A Novo “passou de ter uma capacidade incomparável… para agora estar bastante vulnerável”, apontou Michael Leuchten, analista sênior de pesquisa farmacêutica europeia da Jefferies, uma empresa de investimentos.
A companhia trava uma acirrada rivalidade com a Eli Lilly, a gigante farmacêutica americana cujos medicamentos GLP-1 – nomeados em homenagem ao hormônio supressor de apetite que imitam – superaram as vendas dos seus pela primeira vez no ano passado nos Estados Unidos, segundo a Jefferies.
Nos resultados do primeiro trimestre, divulgados na quarta-feira (6), a Novo afirmou que as fortes vendas do medicamento injetável Wegovy fora dos EUA contribuíram para o aumento dos lucros. No entanto, a empresa se prepara para uma avalanche de versões genéricas mais baratas do medicamento, visto que a patente que protege o princípio ativo, a semaglutida, expira este ano em diversos países, incluindo Índia e China.
O CEO Mike Doustdar atribui os problemas da Novo à “maldição da liderança”. Por ser pioneira na comercialização de um medicamento popular e eficaz para o tratamento da obesidade, a Novo permitiu que os concorrentes aprendessem com os erros, declarou ele à CNN.
“Estávamos abrindo caminho para todos os outros”, continuou Doustdar. Um erro grave no início, observou ele, foi não aumentar as doses em algumas das canetas injetáveis para maximizar a perda de peso.
Leuchten vê a situação de forma diferente, argumentando que a Novo se colocou em uma situação difícil ao depender demais da semaglutida ao invés de diversificar o estoque de ingredientes ativos para os medicamentos para perda de peso. Isso tornaria a empresa menos vulnerável à concorrência à medida que a patente expira em vários mercados, disse ele.
“O que eu discordo é a ideia de que, porque a Novo cometeu erros, outros acharam mais fácil”, comentou Leuchten à CNN. “A Novo errou, não aprendeu com os erros e demorou muito para mudar de rumo”.
Este ano, a Novo lançou canetas Wegovy com doses mais elevadas e, crucialmente, lançou uma versão em comprimido nos Estados Unidos com grande sucesso (os comprimidos são menos intimidantes para muitas pessoas do que as injeções). Nos resultados do primeiro trimestre, a Novo afirmou que as prescrições para o comprimido – que fabrica em instalações na Carolina do Norte – já ultrapassaram 2 milhões. De acordo com um relatório do mês passado do Morgan Stanley, há indícios de que o comprimido já está expandindo o mercado – ou seja, os clientes não são apenas aqueles que estão substituindo os comprimidos por canetas, mas muitos são novos usuários de GLP-1.
Las Olsen, economista-chefe do Danske Bank, afirmou que a Novo adotou uma mudança de mentalidade para competir nos Estados Unidos, o maior mercado dela. Na Dinamarca, “ela nunca teve esse perfil de uma grande empresa comercial”, destacou ele à CNN.
Em fevereiro, a Novo exibiu o primeiro comercial no Super Bowl. Sob pressão do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, a empresa concordou em reduzir os preços dos medicamentos para americanos que pagam em dinheiro e fornecer o Wegovy com desconto para o Medicare — o que libera milhões de pacientes em potencial inscritos no programa de saúde do governo para idosos. Mas os preços mais baixos também afetaram os lucros da Novo em seu mercado mais importante.
E a Eli Lilly — que lançou o próprio comprimido de GLP-1 no mês passado — continua sendo uma pedra no sapato da Novo, com um faturamento de mais de US$ 900 bilhões.
A “corrida pelo ouro”
Em Kalundborg, o dono de um café, Shaun Gamble, percebeu a mudança no clima da cidade depois que a Novo anunciou demissões em massa em setembro.
“Eu também conhecia algumas pessoas que foram demitidas… foi bastante dramático”, comentou ele à CNN no Café Costa Kalundborg, com vista para o porto. “Mas agora, depois de um tempo, acho que esse sentimento diminuiu”.
Dos 9.000 postos de trabalho que a Novo anunciou que cortaria em todo o mundo, 5.000 estavam distribuídos entre as unidades na Dinamarca. A Novo não informou quantos cortes ocorreram em Kalundborg.
Gamble espera que as demissões tenham sido um “problema pontual”, enquanto a Novo continua a expandir a fábrica em um local acostumado aos altos e baixos da indústria. Na década de 1960, a cidade fabricava os modeladores de cachos Carmen Curlers — rolos aquecidos para penteados que se tornaram populares no mundo todo — antes que a chegada do modelador de cachos elétrico ajudasse a forçar o colapso da indústria.
A Novo não corre esse risco.
Ainda uma gigante de US$ 200 bilhões, o crescimento da empresa provocou um fluxo de pessoas para Kalundborg nos últimos anos, impulsionando a demanda por moradia e, consequentemente, os preços dos imóveis. Cerca de 10.000 pessoas trabalham na fábrica, seja como funcionários ou terceirizados, embora muitas venham de fora da cidade para trabalhar.
Uma série de empresas locais, de construção civil a serviços elétricos, se beneficiaram da proximidade. No entanto, elas têm, por vezes, dificuldades para contratar funcionários suficientes, já que muitos preferem trabalhar na Novo, segundo Martin Damm, prefeito do município de Kalundborg.
“Acho que teríamos uma vida ruim sem a Novo Nordisk”, declarou Damm à CNN.
Damm afirmou que mais de mil casas estão atualmente em construção, além de uma rodovia que liga a cidade a Copenhague, localizada a cerca de 96 quilômetros a oeste. Vendedores e cabeleireiros contam a Damm que estão falando inglês com mais frequência, à medida que a clientela se torna mais internacional.
De volta ao barco de Sørensen, sob o sol poente da primavera, o morador de longa data de Kalundborg acredita que o domínio da Novo tornou pelo menos um aspecto da vida cotidiana mais difícil. A empresa, disse ele, absorveu muitos mecânicos locais.
“Isso dificulta o conserto do carro”, compartilhou.