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No auge do escândalo do mensalão, nos idos de 2005, o presidente Lula repetiu, quando questionado sobre o esquema de cooptação de parlamentares pelo pagamento de propina, que “não sabia” de nada. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) recorre, agora, a expediente semelhante em conversas reservadas depois de ter sido alvo de buscas ordenadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), como parte das investigações sobre os tentáculos políticos do escândalo do Banco Master e de seu ex-controlador, Daniel Vorcaro.
Os agentes da Polícia Federal (PF) levaram o celular do parlamentar, um fator que sempre causa apreensão a investigados por ser quase impossível lembrar e se preparar para tudo que pode ser revelado pelas mensagens e pelo material armazenado no aparelho.
Mesmo depois da batida policial e das informações reveladas na decisão de Mendonça, Ciro reafirmou a aliados com que conversou nas horas seguintes que nunca havia recebido uma “mesada” de Vorcaro — a PF interceptou mensagens sugerindo, na interpretação dos investigadores, uma quantia de 300.000 reais por mês, com suposto aumento para 500.000 reais mais adiante — e que desconhecia a transação por meio da qual a CNLF Empreendimentos Imobiliários, sua empresa de gestão patrimonial, havia comprado 30% das ações da Green Investimentos S.A., dirigida por Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro.
De acordo com a Polícia Federal, constava do contrato que formalizou essa transação entre as empresas o nome de Raimundo Nogueira Lima, irmão de Ciro, que passou a figurar como administrador formal da CNLF oito meses depois. Como parte das medidas cautelares cumpridas nesta quinta, Mendonça determinou que a PF instalasse uma tornozeleira eletrônica em Raimundo.
“Sua posição funcional (na CNLF) não é acidental ou superveniente, mas voltada a conferir forma jurídica e cobertura documental à operação apontada como mecanismo dissimulado de transferência de vantagem econômica ao núcleo político investigado”, escreveu o ministro do Supremo.
O valor da compra das ações da Green, de 1 milhão de reais, teria sido flagrantemente subdimensionado, na avaliação da PF. Os investigadores se ampararam em dados informados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para afirmar que a participação adquirida pela empresa de Ciro valeria, na verdade, cerca de 13 milhões de reais.
Nas conversas reservadas que teve com interlocutores próximos depois das buscas em sua casa, o senador insistiu que desconhecia detalhes da transação, como o nome da empresa da família Vorcaro, sinalizando que coube ao seu irmão capitanear o negócio. Ciro chegou a dizer que pensava se tratar, à época, da compra de Certificados de Depósito Bancário (CDB) do Master com alta rentabilidade ou alguma outra aplicação financeira, como parte do investimento do capital da CNLF.
Agora, a defesa de Ciro estuda ir até o Piauí para analisar documentos e a estrutura da CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda, já que parte da operação policial desta quinta-feira foi deflagrada no estado nordestino.
Seja por não lembrar de todos os detalhes de sua relação com Vorcaro ou por ter entrado em estado de negação, o parlamentar repete o “eu não sabia” de Lula. O mundo político de Brasília reconhece, contudo, que vai ser difícil Ciro dar explicações juridicamente consistentes sobre todo o material que a PF amealhou, a julgar pelos fragmentos de trocas de mensagens e transações financeiras escolhidos por André Mendonça em sua decisão.