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Alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) na última quinta-feira, 7, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) vinha, nos últimos meses, tranquilizando aliados que demonstravam preocupação com possíveis consequências para o cacique do Centrão a partir das investigações da megafraude do Banco Master e dos tentáculos políticos do esquema do ex-CEO Daniel Vorcaro.
Em um deslocamento pelo interior do Piauí no mês passado, um amigo ofereceu ajuda: “Ciro, se tiver qualquer coisa, é só falar que a gente se prepara para poder te defender”, disse o interlocutor durante um voo entre uma agenda política e outra. “Posso lhe garantir que não tenho nada a ver com isso aí”, afirmou o presidente do Progressistas.
Ciro já prometeu publicamente renunciar ao mandato no Congresso se as apurações revelarem vínculos negociais com Vorcaro ou alguma ilegalidade. Ele não nega a amizade com Vorcaro e, a quem o questiona, admite sem rodeios ter viajado em jatinhos e comparecido a eventos sociais do pivô da maior fraude financeira da história do país, estimada em ao menos 50 bilhões de reais. “Vão me encontrar em festas, jantares, solenidade, mas em nenhum tipo de negócio”, afirma.
A Polícia Federal discorda. Informações reproduzidas na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a batida na casa de Ciro apontam que a CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda, empresa do senador batizada com suas iniciais, comprou 30% da Green Investimentos S.A., dirigida por um primo de Vorcaro. Com base em uma troca de mensagens entre o banqueiro e esse parente, os investigadores também dizem que Ciro teria recebido uma “mesada” de 300.000 reais do ex-dono do Master.
Cabe à PF apresentar, no curso do processo, provas dessas acusações, que vão de encontro às negativas do senador sobre ter mantido negócios, legais ou não, com Vorcaro. Quanto às festas ao lado do banqueiro, contudo, não parece haver controvérsia para o timoneiro do Centrão. E que festas.
Em pelo menos uma ocasião, no segundo semestre de 2024, frequentadores assíduos de uma casa do elegante bairro do Lago Sul, em Brasília, que por anos sediou churrascos, convescotes, aniversários e rodadas de uísque de figurões da República, foram surpreendidos com o anúncio de que o então dono do Master estava prestes a chegar.
Proprietário do imóvel, um ex-ministro do governo Bolsonaro convidava integrantes do MDB, do PL, do Republicanos, servidores da cúpula da administração pública e eventualmente ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para, digamos, estreitar laços e discutir o cenário político.
Pouco depois do anúncio, duas vans com vidros escuros estacionaram diante da casa. Vorcaro havia trazido sua própria entourage, lembrou a VEJA um dos presentes ao encontro sob a condição de não ter o nome revelado. Dos dois automóveis saíram pelo menos duas dezenas de mulheres, brasileiras e estrangeiras.
Com a ampliação dos laços e conexões de Daniel Vorcaro, não tardaria para que o banqueiro passasse a utilizar, pouco tempo depois, uma casa própria em Brasília para os encontros. Em depoimento ao STF ainda em dezembro, o ex-dono do Master foi evasivo sobre suas relações: “Tenho amigos de todos os poderes. Não consigo nominar individualmente quem frequentava a minha casa”.