A apreensão tomou conta da rotina de quem vive da praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Quase dois meses após a interdição de uma das praias mais bonitas da capital baiana, moradores, pescadores e comerciantes convivem com o medo dos impactos ambientais e também das possíveis consequências à saúde.

A CNN Brasil foi até o local após a Polícia Federal abrir um inquérito para investigar o surgimento das manchas azuis e amarelas que atingiram a faixa de areia e o mar da região. A praia segue interditada desde o dia 11 de março, após laudos do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia) confirmarem a presença de cobre e nitrato.

O professor de Ecologia e Biodiversidade da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Francisco Kelmo, explica que os efeitos da contaminação podem aparecer ao longo do tempo. Segundo ele, o risco existe principalmente por conta do acúmulo dessas substâncias no organismo humano através da cadeia alimentar.

“O problema é que estamos falando de metais. Tudo em excesso faz mal. Dependendo da quantidade consumida ao longo do tempo, especialmente pescados contaminados, isso pode sim gerar problemas de saúde futuros”, afirmou. No entanto, dados precisos só podem vir após conclusão da pesquisa.

O pesquisador disse ainda que a recuperação plena da área contaminada não acontece rapidamente e depende também dos resultados das análises laboratoriais em andamento.

Enquanto os laudos seguem sendo aguardados, quem depende economicamente da praia relata prejuízos e abandono. Joilda Borges trabalha há anos em uma barraca na areia de São Tomé de Paripe. Ela é uma das cerca de 62 permissionárias afetadas pela interdição.

“Estamos sem poder levar nosso pão para casa e a gente quer a solução com uma praia limpa. São cozinheiras, garçons… muita gente que complementa a renda. Peço justiça pelo meio ambiente. Eles não estão levando isso a sério”, desabafou.

Ela também demonstra preocupação com possíveis consequências futuras da contaminação. “Eles estão tirando vidas marinhas e humanas. Daqui a alguns anos, segundo os estudiosos, as pessoas podem adoecer e nem saber identificar que foi por conta dessa contaminação”, disse.

Os impactos também atingem diretamente os pescadores da região. Segundo moradores, 70 pessoas sobrevivem da atividade pesqueira no local. Clênio Dias conta que precisou mudar a área de pesca para continuar trabalhando. “Tenho que ir mais distante para pescar e mesmo assim encontro dificuldade para vender, porque as pessoas duvidam da procedência do pescado. Só quem sabe sou eu… e ainda corro risco no mar”, afirmou.

Quem tem ajudado na articulação entre comunidade e órgãos públicos é o morador Jocival Nascimento. Ele afirma que a população cobra respostas e diz que promessas feitas ainda não foram cumpridas. Segundo Jocival, o Ministério Público da Bahia teria prometido auxílio equivalente a um salário mínimo para centenas de famílias afetadas, mas até agora não houve retorno.

“O Inema não dá mais atualização dos laudos. A praia está praticamente livre, tem apenas uma placa pequena de interdição. A empresa fica nesse jogo de empurra e não assume responsabilidade… Outra coisa, os estudiosos estão vindo aqui e dizendo que os produtos são cancerígenos e que podem demorar anos para resolver o problema. Nosso bairro virou praticamente um bairro fantasma”, criticou.

A praia de São Tomé de Paripe é conhecida pelas águas calmas e pela proximidade com a Base Naval de Aratu, região frequentada historicamente até por presidentes da República durante períodos de descanso.

A contaminação ocorreu em uma área localizada atrás da empresa atualmente chamada Intermarítima, responsável por operações de logística e movimentação portuária. Segundo moradores, apesar da classificação de “graneis sólidos”, os materiais movimentados incluem fertilizantes e produtos químicos.

O Inema interditou temporariamente também as atividades da empresa após inspeções técnicas apontarem irregularidades e relação entre a contaminação e as operações realizadas no terminal. O caso segue sendo investigado pela Polícia Federal. A defesa da Intermarítima não respondeu aos contatos da reportagem.

A CNN Brasil solicitou um posicionamento ao Inema e ao Ministério Público da Bahia, e aguarda um retorno. O espaço segue aberto.



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