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Enquanto o conflito entre Estados Unidos e Irã se arrasta para além do que era originalmente esperado pelo presidente Donald Trump, a dificuldade em subjugar os persas chama a atenção da China, seu maior rival no xadrez geopolítico. De acordo com uma reportagem publicada pelo jornal The New York Times nesta sexta-feira, 8, o enfraquecimento do poder de fogo americano decorrente do conflito tem feito Pequim reavaliar se os americanos têm capacidade de dissuasão, por exemplo, para evitar uma potencial invasão de Taiwan.
Autoridades do Congresso dos Estados Unidos estimam que as Forças Armadas americanas utilizaram aproximadamente metade de seus mísseis de cruzeiro furtivo desde o início do conflito, em 28 de janeiro, e dispararam dez vezes mais mísseis de cruzeiro Tomahawk do que compram anualmente. Mas, para além da matemática bélica, uma questão psicológica se mostra ainda mais preocupante: a dificuldade em lidar com o regime dos aiatolás destruiu a aura de domínio que emanava de Washington.
Tal cenário enfraquece a posição americana na próxima cúpula entre Trump e o líder chinês, Xi Jinping, marcada para a próxima quinta-feira, 14.
“Ele pretendia visitar a China com a aura de um líder que obteve uma vitória rápida, aproveitando sua posição para intensificar a pressão sobre Pequim”, disse o general aposentado do Exército de Libertação Popular da China, Yue Gang, em entrevista ao NYT. “Com o conflito estagnado e a campanha militar paralisada, ele se encontra em uma posição difícil e não será capaz de projetar a mesma arrogância”, completou.
Esse ponto de vista tem crescido junto a analistas militares chineses: se lidar com uma potência regional, como o Irã, já é um desafio, os Estados Unidos teriam ainda menos sucesso em bater de frente com Pequim, rival à altura. Isso se mostra ainda mais importante no contexto da disputa por Taiwan, a pequena ilha que, apesar do autogoverno democrático salvaguardado pelos americanos, a China considera seu território.
Trump vai à China
Especialistas acreditam que, entre os principais objetivos de Trump na visita da semana, estão acordos comerciais para reduzir o déficit com o gigante asiático, o que pode incluir compromissos por parte do governo chinês para comprar mais soja americana e aviões da Boeing. De acordo com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, o ocupante do Salão Oval também pretende pressionar o Xi sobre as importações de petróleo iraniano — quase 90% da produção do Irã vai para a China, apesar das sanções.
Pequim, por sua vez, faz esforços para estabilizar os laços com o mercurial líder americano e busca revitalizar a sua economia através do fortalecimento da trégua na guerra comercial. No entanto, traz à baila o espinhoso assunto “Taiwan”: o principal diplomata do país, Wang Yi, deu a entender que as relações dos Estados Unidos com a ilha estarão na agenda do encontro, incluindo a venda de armas americanas para Taipei.
Antes do encontro oficial, a China manteve cautela ao abordar a guerra no Irã. Não houve críticas abertas às ações de Trump, à exceção da vez que Xi falou sobre um “retorno à lei da selva” devido à violação do direito internacional, mas sem citar nomes. A mídia estatal chinesa também evitou comentar as dificuldades americanas no conflito, embora, claro, elas não tenham passado desapercebido.
“Se a China e os Estados Unidos estivessem jogando xadrez, e a aposta fosse o Estreito de Taiwan, os americanos estariam à beira de perder todas as suas peças”, afirmou o ex-editor do jornal nacionalista chinês Global Times, Hu Xijin.
Em meio às especulações, Washington rejeita qualquer posição de fraqueza e minimiza o prolongamento da contenda com Teerã. Questionado sobre o tema durante uma audiência no Senado em abril, o chefe do Comando Indo-Pacífico das Forças Armadas, almirante Samuel J. Paparo Jr., afirmou: “A guerra não impôs nenhum custo real à nossa capacidade de fazer frente a China”.