A reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, realizada na Casa Branca nessa quinta-feira (7/5), terminou com avaliação positiva por parte do governo brasileiro. O encontro tinha como objetivo, além de distensionar a relação bilateral, avançar em temas considerados estratégicos para o Palácio do Planalto.
Lula retornou ao Brasil na madrugada desta sexta-feira (8/5) tendo como principal resultado a consolidação da reaproximação diplomática com Washington.
A reunião, que durou cerca de três horas, tratou de temas como cooperação no combate ao crime organizado, minerais críticos e terras raras, tarifas comerciais e investimentos. Questões geopolíticas também entraram na pauta, incluindo o cenário no Irã e a situação de Cuba. Segundo Lula, Trump afirmou não ter intenção de invadir a ilha caribenha.
Uma das prioridades do governo brasileiro era evitar o risco de novas sanções comerciais. De acordo com Lula, não há temas proibidos na relação entre os dois países. “A única coisa de que não abrimos mão é da nossa democracia e da nossa soberania. O resto é tudo discutível”, afirmou.
Houve avanço no diálogo sobre as tarifas que ainda incidem sob produtos importados brasileiros, embora persistam divergências entre as delegações. Após o encontro, Lula informou que os dois países estabeleceram um prazo de 30 dias para que as equipes negociem uma solução.
“Tem uma divergência entre eles e nós que ficou explicitada na reunião. Como a gente não podia ficar debatendo o dia inteiro sobre isso, eu propus ao Trump: ‘Vamos dar 30 dias para esses companheiros resolverem o problema’”, disse o presidente, em coletiva na Embaixada do Brasil em Washington. Segundo ele, o prazo permitirá acompanhar as negociações “com mais precisão”.
Apesar do impasse, Lula demonstrou otimismo e afirmou que deseja que os Estados Unidos “voltem a ver no Brasil um parceiro importante”.
Seção 301
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, indicou que novas reuniões entre as delegações do Brasil e dos EUA devem ocorrer nas próximas semanas.
A expectativa do governo brasileiro, segundo ele, é que o diálogo também contribua para o encerramento da investigação aberta pelos EUA sobre o Brasil, que envolve temas como Pix, etanol, desmatamento ilegal e propriedade intelectual — e que pode resultar na imposição de novas tarifas.
A investigação foi aberta em julho do ano passado com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. À época, o representante comercial Jamieson Greer alegou práticas consideradas “desleais” por parte do Brasil.
Lula afirmou, no entanto, que o tema não foi abordado por Trump durante a reunião. “Ele [Trump] não tocou no assunto do Pix, então também não toquei. Porque eu espero que um dia ele ainda vai fazer um Pix, porque muitas empresas americanas já fazem”, brincou.
Segundo o presidente, as divergências foram reconhecidas por ambos os lados, e a expectativa é que uma proposta seja construída ao fim do prazo. “Quem estiver errado vai ceder. Se tivermos que ceder, nós vamos ceder”, afirmou.
Lula também cobrou maior participação dos Estados Unidos em investimentos no Brasil. “Eu disse a ele que, muitas vezes, nós fazemos licitações internacionais e, muitas vezes, os EUA não participam, quem participa são os chineses”, disse.
Mudança no script a pedido de Lula
- A reunião, seguida de um almoço, foi fechada à imprensa, mudando o protocolo usual da Casa Branca.
- Lula solicitou a Trump que invertessem o protocolo de visitas de líderes estrangeiros, de modo que a imprensa só participasse do encontro após a reunião. Tradicionalmente, os jornalistas acompanham o início do encontro, mas, desta vez, só poderiam entrar no Salão Oval depois da conversa com o presidente dos EUA.
- O chefe do Executivo brasileiro quis evitar a mesma situação que ocorreu durante o último encontro presencial entre ele e Trump. Durante a reunião, à margem da 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean) na Malásia, em outubro do ano passado, jornalistas fizeram perguntas antes da conversa entre os líderes, o que incomodou o petista. Lula achava melhor falar com a imprensa após a conversa formal entre os dois.
- A presença da imprensa em reuniões bilaterais no Salão Oval já foi palco de episódios constrangedores transmitidos ao vivo, como nos encontros com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa.
- Diferentemente do que estava programado, os dois presidentes não realizaram uma coletiva de imprensa conjunta depois da reunião. A mudança foi justificada pela demora no encontro, que estava programado para durar cerca de uma hora e meia, mas se estendeu por três horas. O petista optou por falar com jornalistas na embaixada do Brasil em Washington.
Cooperação contra crime organizado
Lula afirmou que a possível classificação de facções criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas, tema em análise pelo governo dos Estados Unidos, não foi abordada na conversa. A ideia é rechaçada pelo governo Lula, que vê risco de interferências externas.
No entanto, os líderes falaram sobre o combate ao crime organizado na América Latina e discutiram a proposta de colaboração no tema, considerado prioridade pelo Brasil. A sugestão foi apresentada pelo governo brasileiro ao Departamento de Estado em dezembro e inclui medidas de repressão à lavagem de dinheiro e ao tráfico internacional de armas.
“Estamos levando muito a sério essa questão do combate ao crime organizado. Esse negócio de dizer que as facções tomaram o território das cidades… Temos que dizer que o território é do povo, não é do crime organizado”, disse.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington Lima e Silva, informou, depois do encontro, que o titular do Planalto propôs grupos de trabalho com o governo dos EUA para tratar sobre o tema, tanto em relação as questões do Brasil quanto em nível de cooperação.
Parceira em minerais críticos
Outro tema à mesa de negociação foi uma parceria sobre minerais críticos, com destaque para terras raras. Segundo o chefe do Planalto, o Brasil não tem preferência de países para fechar parcerias. O tema é considerado estratégico para o governo brasileiro, que tem buscado expandir a colaboração com outras nações na área.
O petista defende que o assunto seja tratado de forma soberana, e que o Brasil não só exporte matéria-prima, mas que domine toda a cadeia de valor dos minérios no país.
“Nós não temos preferência. O que queremos é fazer parceria, compartilhar com as empresas americanas, chinesas, francesas. Quem quiser ajudar a gente a fazer mineração, a separação e produzir a riqueza que essas terras raras nos oferecem estão sendo convidados para ir ao Brasil”, declarou.
O governo brasileiro também informou Trump sobre o projeto de lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, aprovado pela Câmara dos Deputados na véspera do encontro. A matéria agora segue para o Senado.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, presente na reunião na Casa Branca, avaliou que o setor sai “extremamente otimista” com a perspectiva de investimentos norte-americanos.
Troca de elogios
Após a reunião, os líderes trocaram elogios públicos e exaltaram qualidades um do outro.
Lula disse que saiu “satisfeito” da reunião. “A nossa relação é muito boa, uma relação que pouca gente acreditaria que pudesse acontecer com tanta rapidez”, disse.
Na declaração, o petista lembrou o primeiro encontro com o republicano, na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025. “Sabe aquela história de amor à primeira vista, aquele negócio da química? Foi isso que aconteceu, e eu espero que continue assim”, afirmou o brasileiro.
Pela rede Truth Social, Trump chamou Lula de “o dinâmico presidente do Brasil”.
“Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito produtiva”, escreveu o presidente americano nas redes sociais.









