Não sei qual é a impressão do leitor, mas a minha é a de que errei (erramos) completamente. Na verdade, Donald Trump é cabo eleitoral de Lula.
Se não, vejamos. No ano passado, ao impor tarifas alfandegárias ao Brasil e sancionar ministros do governo e juízes do STF, mas voltar atrás na maioria das medidas depois de conversar com o chefão petista — que já havia sido afagado por Trump na Assembleia Geral da ONU e com o qual ele viria a encontrar-se pessoalmente —, o presidente americano possibilitou a Lula que se apresentasse como grande vencedor na luta pela soberania brasileira.
Agora, ao receber o chefão petista na Casa Branca, com uma cordialidade que normalmente não é dispensada a ninguém que o critica publicamente, como faz Lula, e emprestando ao chefão brasileiro mais adjetivos positivos, como “bom homem” e “inteligente”, Trump fortaleceu ainda mais a imagem de estadista tão necessária Lula neste momento que antecede a campanha eleitoral pela reeleição.
O chefão petista saiu de Washington dizendo acreditar que Trump não vai interferir nas eleições deste ano em prol dos adversários do PT e reforçando o discurso de defesa da soberania. “Eu acho que não é uma boa política um presidente de outro país ficar interferindo nas eleições de outros países. É um princípio básico para que a gente não permita a ocupação cultural, política e a soberania de outro país”, afirmou Lula, em coletiva na capital americana.
Trump deixou Jair Bolsonaro no passado, é vendedor da própria mãe, e só o ressuscitará como aliado se Flávio vier a ganhar a eleição presidencial, naturalmente. Para o presidente americano, Lula tem se demonstrado um esquerdista conveniente, apesar do discurso antiamericano, e talvez até pense que a reeleição do chefão petistas possa ser tão confortável para os Estados Unidos quanto a manutenção de Delcy Rodriguez no comando da Venezuela.
Por falar em Venezuela, assim como Trump, o chefão petista deixou aliados históricos no passado, agora que o vento sopra forte em sentido contrário: venezuelanos e cubanos foram assuntos desimportantes na conversa entre ambos. Na verdade, nem foram temas. Lula limitou-se a dizer ao presidente americano que ele está disposto a conversar sobre Venezuela, Cuba, Irã, “sobre o que ele quiser”, e vamos adiante.
Quanto a Cuba, então, o chefão petista de uma indiferença notável ao abordar a ilha na coletiva.
“Eu ouvi, não sei se a tradução foi correta, que ele disse que não pensa em invadir Cuba. Isso foi dito pela intérprete e acho que isso é um grande sinal”, afirmou Lula.
No final das contas, o chefão petista não é tão diferente assim de Trump.