A Polícia Militar de São Paulo (PMESP) abriu 310 procedimentos disciplinares por uso irregular de Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) — popularmente conhecidas como câmeras corporais ou bodycams — no segundo semestre de 2025, segundo dados da Corregedoria da PM obtidos com exclusividade pelo Metrópoles.

Dos 310 procedimentos instaurados, 296 foram considerados de natureza média, e 14 de natureza grave. Nenhum foi considerado de natureza leve, mas não é detalhado quais condutas motivaram os procedimentos nem quantos casos envolveram falhas de gravação, ausência de acionamento obrigatório, obstrução de câmera, desligamento indevido ou problemas nas funcionalidades.

Ainda de acordo com o relatório acessado pela reportagem, 61 dos 310 procedimentos foram finalizados, com 28 repreensões aplicadas e 8 permanências disciplinares — tipo de sanção na qual o transgressor permanece na organização sem estar circunscrito a um local fechado, mas comparecendo a todos os atos de serviço. No caso da PMESP, o limite máximo é de 20 dias, com possibilidade de conversão em serviço.

Os números fazem parte de um universo de quase 12 mil bodycams ativas no estado e evidenciam que, um ano depois do acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a gestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ainda não divulga os indicadores previstos para o programa de bodycams da PM paulista.

O acordo em questão foi homologado pelo Supremo em 7 de maio de 2025, no âmbito da suspensão de liminar (SL) 1.696, em meio à repercussão das mortes decorrentes da Operação Escudo, realizada na Baixada Santista em 2023.

Com a homologação, foram estabelecidas regras de controle e priorização para a implementação total de 15 mil câmeras corporais. O portal Muralha Paulista, do governo do estado, registrava 14.064 COPs distribuídas em 112 unidades da PM, em abril de 2026.

Além disso, também eram previstas medidas de controle, como o envio periódico de relatórios ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) e à Defensoria Pública, bem como a destinação de 80% das bodycams a unidades classificadas como de alta e média prioridade.

Apesar de divulgar a distribuição das câmeras, diretrizes operacionais e relatórios disciplinares, o Muralha Paulista ainda não apresenta publicamente parte das informações previstas no acordo, como indicadores estratégicos de efetividade, métricas de acionamento automático e auditorias quantitativas sobre falhas de gravação, ausência de imagem e uso irregular das câmeras.

Relembre casos emblemáticos envolvendo bodycams

Os números do relatório obtido pelo Metrópoles se referem a um período de análise entre os dias 7 de julho e 31 de dezembro de 2025, intervalo durante o qual algumas ações da PM paulista envolvendo câmeras corporais marcaram o noticiário.

É o caso do jovem Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, morto por policiais militares durante uma operação em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, no dia 10 de julho de 2025.

A versão policial inicial era de confronto armado, mas a análise das câmeras corporais revelou que Igor já estava rendido, afastando a hipótese de legítima defesa que havia sido alegada pelos PMs. Igor foi encontrado morto no local, com dois disparos no tórax e um no pescoço.

Na gravação, é possível ver a ação de três militares em um quarto onde estavam três dos quatro jovens, entre eles Igor Oliveira.

Policial atira contra Igor Oliveira enquanto jovem estava rendido e desarmado
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Policial atira contra Igor Oliveira enquanto jovem estava rendido e desarmado

Arquivo Pessoal

Ação policial termina com um morto em Paraisópolis
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Ação policial termina com um morto em Paraisópolis

Arquivo Pessoal

Imagens gravadas por câmeras corporais mostram toda a ação policial
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Imagens gravadas por câmeras corporais mostram toda a ação policial

Arquivo Pessoal

Igor e os dois jovens estavam rendidos por um policial quando outro agente dispara duas vezes. Os jovens se abaixam. Em seguida, o policial cuja câmera corporal gravava a ação aponta a arma para Oliveira e pergunta: “Tem passagem?”. O jovem responde: “Não, senhor”. “Então, levanta”, diz o militar. Nesse momento, ele atira na cabeça do jovem, e outro policial atira contra ele, em seguida.

Após um barulho da câmera corporal do policial, ele diz “As COP, as COP”, e vira-se para outra direção. “As COP, as COP”, responde outro militar, referindo-se às câmeras operacionais portáteis. Com o dispositivo virado para uma janela, é possível ouvir ainda mais dois disparos de arma de fogo.

 

Mecânico morto por PMs com bodycams

Outro caso marcante foi o do mecânico Alex dos Santos Silva, de 29 anos, morto no dia 24 de agosto de 2025 por agentes das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), que também usavam bodycams no momento da ocorrência.

Na versão policial, os PMs estavam em patrulhamento ao avistarem o veículo de Alex, “que trafegava em atitude suspeita, sendo observado que o condutor demonstrava visível nervosismo”.

Ainda segundo a PM, Alex teria apontado um revólver em direção aos policiais após receber a ordem de parada, ameaça à qual os policiais responderam com um tiro de fuzil e três disparos de pistolas, atingindo Alex no tórax e no braço esquerdo.

Após acordo no STF, PM divulga dados sobre uso irregular de bodycams - destaque galeria

Avenida Paulo Guilguer Reimberg, na zona sul de São Paulo, onde o mecânico Alex dos Santos Silva foi morto por PMs da Rota, na noite de um domingo. Agentes usavam bodycams
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Avenida Paulo Guilguer Reimberg, na zona sul de São Paulo, onde o mecânico Alex dos Santos Silva foi morto por PMs da Rota, na noite de um domingo. Agentes usavam bodycams

Reprodução/Google Maps

Alex dos Santos Silva foi morto pela Rota aos 29 anos de idade, enquanto saia do trabalho, na zona sul de São Paulo
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Alex dos Santos Silva foi morto pela Rota aos 29 anos de idade, enquanto saia do trabalho, na zona sul de São Paulo

Arquivo pessoal

Alex, Eliana e o filho do casal, de quatro anos de idade
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Alex, Eliana e o filho do casal, de quatro anos de idade

Arquivo pessoal

PMs alegam que mecânico portava revólver e mochila com drogas, mas esposa nega
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PMs alegam que mecânico portava revólver e mochila com drogas, mas esposa nega

Arquivo pessoal

Homem é morto pela polícia e família cobra investigação
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Homem é morto pela polícia e família cobra investigação

Reprodução/Redes Sociais

 

A história é contestada pela família e pela esposa de Alex, Eliana Barbara da Silva Souza, de 26 anos. Em entrevista ao Metrópoles, ela afirmou que o mecânico não estava armado e não portava drogas, e que os agentes mentiram no registro do boletim de ocorrência, além de terem plantado uma arma no veículo após a morte do homem.

Clonagem em cartões de câmeras corporais

Outro ponto que é frequentemente alvo de críticas sobre as bodycams da PM diz respeito às fragilidades do programa para manipulações. O especialista em provas digitais e ex-PM Bruno Dias, um dos responsáveis por implementar o sistema de câmeras corporais da PMESP, já chegou a afirmar que o programa tem “inúmeras vulnerabilidades” e é “totalmente passível de fraude”.

“Você pode apagar vídeos avulsos, apagar em massa. Você pode alterar a autoria, deixar o vídeo sem autor relacionado. Você pode também alterar data e hora do fato. Isso é gravíssimo. Compromete a legitimidade dos vídeos enquanto provas”, afirmou Dias à época.

No ano passado, o Metrópoles noticiou o caso do soldado do litoral sul de São Paulo que oferecia, em grupos de WhatsApp, o serviço de clonagem dos cartões usados para acessar as câmeras. O PM cobrava R$ 20 para copiar o chip da credencial e colocá-lo em uma tag eletrônica genérica, que daria acesso ao sistema. À época, ele afirmou ter vendido pelo menos 60 unidades.

Também em julho de 2025, o Metrópoles teve acesso, com exclusividade, a registros da plataforma Evidence, em que uma major ligada à cúpula da corporação teria fraudado o sistema para deletar gravação feita durante homicídio em Santos, no litoral paulista, na Operação Verão.

As informações extraídas da plataforma indicavam um esquema de manipulação de dados que permite fraudar e deletar as gravações por meio de usuário anônimo dentro do sistema.





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