A inflação dos alimentos no Brasil só deverá encontrar um caminho mais duradouro de estabilização quando houver ampliação da produção diversificada da agricultura familiar e maior inclusão de pequenos produtores nas políticas públicas de crédito e assistência técnica. A avaliação é de Marcelo Leal, membro do MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), uma das entidades que assina documentos enviados a ministérios, incluindo o da Agricultura, para requerer melhor distribuição do Plano Safra 2026/27.
Na avaliação de Leal, a agricultura familiar ocupa papel central no abastecimento de alimentos da cesta básica e pode ajudar a reduzir pressões inflacionárias tanto no campo quanto nas cidades.
“Quando se trata da produção de alimentos da cesta básica, a agricultura familiar é a grande responsável pelo abastecimento. É nesse lado que é preciso repensar as políticas públicas e redirecionar recursos para ampliar a produção de alimentos”, afirmou.
O MPA faz parte de um grupo com mais de 15 organizações entregou, de forma conjunta e inédita, duas cartas abertas, de teor técnico, contendo recomendações para aprimorar o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) no próximo ciclo do Plano Safra, que deve ser anunciado pelo governo federal no fim de junho.
A entrega é uma forma dessas organizações se inserirem no processo de participação pública do Plano Safra, iniciado em março. Em entrevista ao CNN Agro, Leal afirmou que o desafio não está apenas no volume de recursos destinados ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), mas principalmente na forma como o crédito é distribuído e acessado pelos produtores.
“O Pronaf já conta com condições bastante razoáveis e competitivas. O governo entra com um valor bastante substancial, com juros entre 2,5% e 5,5%, dependendo da linha. O problema hoje é menos o juro e mais as barreiras de acesso”, disse.
Segundo ele, a maior parte dos financiamentos acaba concentrada em cadeias mais consolidadas, como soja, milho e pecuária, enquanto produtores interessados em sistemas diversificados enfrentam dificuldades burocráticas e falta de apoio técnico.
“A maior parte do Pronaf é vinculada à produção de commodities. Já existe um padrão operacional que acelera essas cadeias, mas isso limita bastante os produtores que querem produzir de forma diversificada”, afirmou.
Para Leal, faltam protocolos específicos para sistemas agroecológicos e produção diversificada nos diferentes biomas brasileiros, além de maior preparo dos agentes financeiros para financiar esse modelo de agricultura.
“Hoje o agricultor precisa apresentar projeto, assistência técnica, uma série de exigências que acabam facilitando apenas para quem está nas cadeias já consolidadas. Faltam projetos voltados para hortaliças, fruticultura e produção diversificada”, observou.
O membro do MPA afirma que cerca de 80% dos agricultores familiares ainda não acessam crédito do Pronaf, o que, na avaliação dele, representa um potencial produtivo subutilizado no país. “Milhões de estabelecimentos podem ter sua produção ativada e escalonada. Esses agricultores já têm repertório de práticas associadas aos bioinsumos, aumentando produtividade e escala”, afirmou.
O engenheiro agrônomo também defende uma integração maior entre políticas públicas já existentes, como o Pronaf, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e os serviços de assistência técnica rural.
“O Pronaf e o Pnae são políticas importantes, mas ainda muito fragmentadas. É preciso fazer essas políticas convergirem, identificando territórios mais propensos à produção diversificada e criando coordenação entre Estado e sociedade”, disse.
Para Leal, dois fatores estruturais vêm pressionando o debate global sobre segurança alimentar: as tensões geopolíticas envolvendo fertilizantes e energia e os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola.
“Essas questões estão mudando a forma de pensar produção e consumo no mundo inteiro. Países como Estados Unidos e China já discutem abastecimento e segurança alimentar de forma estratégica”, afirmou.
Nesse cenário, ele avalia que o fortalecimento da agricultura regenerativa e da bioeconomia pode reduzir a vulnerabilidade do Brasil a choques externos, especialmente pela menor dependência de fertilizantes importados.
“Nossa geodiversidade é enorme. Temos fontes riquíssimas de biomassa na agricultura e na agroindústria que podem servir para pensar uma nova rota de insumos mais sustentáveis e diminuir a dependência externa”, disse.
Leal também defende maior participação da indústria privada no estímulo à agricultura familiar, por meio da compra de alimentos vinculados aos biomas brasileiros e da ampliação de mercados para produtos orgânicos e agroecológicos.
“O desafio dos próximos anos é inaugurar uma nova geração de políticas públicas que pense os territórios, a agricultura regenerativa e a agricultura familiar como base da produção diversificada no Brasil”, frisou.