Um estudo publicado na revista científica Conservation Letters, nesta sexta-feira (8), aponta que as costas do Ceará e do Rio Grande do Norte concentram os maiores riscos de impactos por derramamento de petróleo na Margem Equatorial brasileira.
A pesquisa — que analisou a trajetória do óleo no mar, a localização dos ecossistemas marinhos e o grau de sensibilidade dessas áreas à contaminação — também destaca que, em contrapartida, a região entre Pará e Amapá pode sofrer ameaças crescentes aos recifes profundos com a expansão da exploração petrolífera.
O levantamento foi desenvolvido por pesquisadores do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), da Universidade do Porto, em Portugal, e da UFBA ( Universidade Federal da Bahia), para entender como a expansão da exploração petrolífera pode atingir ambientes marinhos considerados estratégicos para a biodiversidade brasileira.
Segundo os pesquisadores, as áreas do Ceará e do Rio Grande do Norte aparecem como as mais vulneráveis a impactos cumulativos de derramamento de óleo. O estudo e divulgado pela agência Bori, pode ser acessado na íntegra, neste link.
Isso acontece porque a região já possui produção ativa de petróleo, além de grande concentração de blocos exploratórios e condições oceânicas que favorecem o deslocamento do óleo em direção à costa.
Entre os ecossistemas mais ameaçados estão: manguezais, pradarias marinhas, recifes de coral e bancos de rodolitos, estruturas formadas por algas calcárias que servem de abrigo e alimento para diversas espécies marinhas. Entre esses ecossistemas, as pradarias marinhas podem ser os ambientes mais afetados em caso de acidentes com óleo.
Já na região entre Pará e Amapá, onde existe previsão de expansão da atividade petrolífera, os principais riscos estão relacionados aos chamados recifes mesofóticos (que ficam em profundidades entre 30 e 150 metros e são considerados importantes corredores ecológicos para espécies marinhas do Atlântico).
Margem Equatorial
Os cientistas explicam que a Margem Equatorial é uma das regiões menos estudadas do Oceano Atlântico, mas também uma das mais importantes do ponto de vista ecológico. A área abriga recifes profundos, bancos submarinos, manguezais e habitats que sustentam espécies marinhas e atividades como pesca artesanal e turismo costeiro.
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Para chegar aos resultados, os pesquisadores simularam durante cinco anos possíveis trajetórias do óleo no oceano, considerando correntes marítimas e ventos. O estudo analisou 15 blocos já em produção na Bacia Potiguar, além de 34 blocos com possibilidade de exploração e outros 75 blocos de possível oferta futura.
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Vazamentos históricos
O trabalho também relembra o derramamento de óleo que atingiu o litoral brasileiro entre 2019 e 2020, considerado o maior desastre desse tipo já registrado em oceanos tropicais. Na época, quase 2.900 quilômetros de costa foram afetados, causando impactos ambientais, prejuízos à pesca, ao turismo e à saúde pública.
De acordo com o pesquisador Rafael Magris, autor principal do artigo, os efeitos de um derramamento podem ser difíceis de calcular, principalmente porque muitos ecossistemas ainda são pouco conhecidos cientificamente. “As consequências de episódios de derramamento são frequentemente difíceis de serem mensuradas, tanto pelo conhecimento ainda limitado sobre muitos ecossistemas quanto pela vulnerabilidade socioambiental das regiões costeiras”, afirma o pesquisador.

A CNN Brasil procurou a Petrobras para comentar o estudo, mas não obteve retorno até a publicação. O espaço segue aberto.
O estudo sugere medidas para reduzir os riscos, como ampliação do monitoramento ambiental, criação de planos de emergência e fortalecimento da capacidade de resposta rápida em acidentes.
Os pesquisadores também defendem a ampliação de áreas marinhas protegidas, principalmente na região da Foz do Amazonas, entre Pará e Amapá, considerada estratégica para a conservação da biodiversidade.