O filme “Eclipse”, da diretora Djin Sganzerla, estreia nos cinemas nesta quinta-feira (7) e renova a safra das produções em cartaz. Aos que que querem fugir de longas-metragens americanos, é uma oportunidade.

A história apresenta Cléo (Djin Sganzerla), uma mulher grávida que está no auge da carreira e do casamento, até que tem contato com sua meia-irmã indígena Nalu (Lian Gaia). A visitante inesperada faz uma revelação perturbadora sobre a família da irmã e a ajuda a perceber camadas cada vez mais profundas no marido Tony (Sergio Guizé).

“Essa realização surgiu do desejo de falar sobre esses temas que eu toco e me aprofundo no filme, mas também de fazer um thriller. Foi um processo longo, super elaborado, uma construção intencional. A gente queria mergulhar no feminino, na mulher e em suas questões, tão preciosas e cada vez mais urgentes e necessárias de serem faladas”, disse a diretora em entrevista à CNN Brasil.

“Eclipse” tem potencial para aproveitar os bons ventos em torno do cinema brasileiro e propiciar a não prevalência de abordagens predominantemente americanas nas telonas do país.

Dos sucessos recentes de público, “Uma Batalha Após a Outra“, de Paul Thomas Anderson, aborda um tema crítico e divisório na sociedade norte-americana: a perseguição contra os imigrantes. O filme “O Drama“, estrelado por Robert Pattinson e Zendaya, também traz a reflexão sobre um assunto polêmico para os Estados Unidos: tiroteios escolares.

Mas por mais que os dois longas citados tratem de tópicos extremamente relevantes — e, portanto, mereçam destaque — eles não têm ligação com o Brasil. Já o longa brasileiro traz à mesa de discussão assuntos como feminicídio, violência doméstica, estupro, masculinidade tóxica, noções de família tradicional e cultura indígena.

Outra constante contemporânea de Hollywood envolve a realização de filmes estimulantes. A ideia é jogar tudo em tela muito rápido, de modo a ganhar depressa a atenção do telespectador desde o início, renovando os estímulos constantemente – ainda que não seja propositivo narrativamente.

“Eu parto do princípio que primeiro quero contar uma história e fazer um bom filme. Não adianta eu tentar me moldar e dar informações rápidas, seguir uma cartilha que eu sei que está sendo muito seguida pelos streamings, de dar uma informação rápida e pegar o espectador enquanto ele está no telefone ou falando com outra pessoa, e aí a informação é repetida várias vezes. Eu entendo, mas isso não me interessa”, declarou a diretora.

“O que me interessa é fazer um filme que envolva o espectador, que ele use todos os seus sentidos e capacidades de observar e elaborar os pensamentos enquanto está vendo o filme. É uma tentativa que o público embarque e viaje por essa história”, completou.

Djin também comentou sobre as dificuldades de realizar um filme sendo mulher e estando na direção. A cineasta expôs com extenuação a resistência dentro da indústria para com projetos elaborados por mulheres.

“Não é fácil ser uma diretora mulher, ainda sofremos muito preconceito, inclusive dentro do próprio set. Ainda há muita resistência a uma diretora, sempre precisamos nos provar. Talvez no meu quinto filme não precise mais, mas no segundo as pessoas passaram a me tratar diferente pela primeira vez quando viram o resultado na tela grande”, pontuou.

Filha de Rogério Sganzerla, um dos maiores diretores brasileiros de todos os tempos, e de Helena Ignez, também um dos maiores nomes do cinema nacional, Djin viu a transformação cinematográfica no país, permeando desde a época em que acompanhava seus pais nas gravações quando criança até o momento em que decidiu dirigir os próprios filmes com Mulher Oceano (2020).

“No passado havia um cinema que a gente podia arriscar mais, com menos preocupação em agradar. No Brasil tínhamos uma liberdade maior de fazer, criar filmes mais baratos e inventivos, e isso é maravilhoso pois precisamos dessa diversidade. Normalmente são desses lugares que saem os grandes filmes. Quando o realizador vai engessado tentando fazer uma coisa boa e quadradinha, geralmente é um filme médio, e aí que é um perigo”.

Assista ao trailer de “Eclipse”



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