
Um protesto liderado pelo Pussy Riot — grupo punk ativista conhecido por ações contra o Kremlin — forçou o fechamento temporário do pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza nesta quarta-feira, 6, durante a abertura para convidados.
A manifestação ocorreu em meio ao retorno da Rússia à mostra pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e evidenciou a crise política que já cercava esta edição, marcada por boicotes e pressão internacional.
A Bienal, maior vitrine de arte contemporânea do mundo e realizada a cada dois anos na cidade dos canais, reúne nesta edição artistas de países em conflito, como Ucrânia, Israel e Estados Unidos. O Irã decidiu cancelar sua participação.
Vestindo balaclavas cor-de-rosa, marca registrada do grupo, cerca de 40 ativistas protestaram em frente ao pavilhão russo, acendendo sinalizadores nas cores rosa, azul e amarelo, em referência à bandeira ucraniana, e entoando slogans como “Sangue é a arte da Rússia”.
A ação, que incluiu uma tentativa de invasão do espaço, foi contida pela polícia. Durante o ato, manifestantes exibiram frases escritas no corpo, como “Curadoria de Putin, com cadáveres incluídos” e “Arte russa, sangue ucraniano”.
O Pussy Riot ganhou notoriedade internacional na década passada por performances de protesto contra o governo de Vladimir Putin, incluindo ações em igrejas, eventos esportivos e espaços públicos.
O protesto ocorre no contexto da volta da Rússia à exposição após a invasão da Ucrânia, decisão que provocou forte reação política na Europa. A Comissão Europeia alertou autoridades italianas e organizadores de que a participação russa pode violar sanções impostas ao país.
A tensão já havia atingido a estrutura da mostra. O júri responsável pelo principal prêmio, o Leão de Ouro, renunciou em bloco após declarar que não avaliaria obras de países cujos líderes são alvo de mandados de prisão internacionais, como Rússia e Israel. Segundo a imprensa italiana, os jurados também foram alertados sobre possíveis implicações legais.
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Sob pressão política
Pouco depois do ato, outro protesto ocorreu diante do pavilhão de Israel. O grupo Art Not Genocide Alliance (ANGA, na sigla em inglês) reuniu manifestantes contrários à presença israelense por causa da guerra em Gaza. O espaço foi fechado durante a manifestação.
Mais de 200 participantes assinaram uma carta pedindo o cancelamento do pavilhão israelense. Em resposta, o governo de Israel classificou o movimento como “doutrinação política” e “discriminação”.
O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, defendeu a inclusão de todos os países e afirmou que o evento deve permanecer como espaço de diálogo, mesmo em contextos de conflito.
A politização da mostra, no entanto, não é inédita. Em 1968, a Bienal foi palco de protestos ligados à Guerra do Vietnã. Seis anos depois, em 1974, dedicou sua programação ao povo chileno sob a ditadura de Augusto Pinochet.