A estudante de arquitetura Maya Glover, de 21 anos, tem uma vida discreta, cercada de amigos da faculdade e das irmãs, passaria despercebida se não fosse um detalhe: Maya é filha do astronauta Victor Glover, piloto que participou da missão à Lua, após mais de 50 anos. O piloto foi o primeiro homem negro a viajar para o espaço profundo e passar tão próximo à Lua, durante a missão Artemis II.

Maya contou, em entrevista exclusiva à CNN Brasil, como é ser filha de um astronauta e abordou questões como ciência, religião e raça. “Ciência e religião podem coexistir, não são opostas. Crescemos indo a cultos, lendo a Bíblia, mas também respeitando outras crenças”, diz Maya sobre a infância religiosa.

 

 

 

 

Missão Artemis II para a Lua: quem são os quatro astronautas da espaçonave

Confira a entrevista completa

CNN Brasil: Como você se sentiu em relação a essa missão e ao trabalho do seu pai?

Maya Glover: Não pensei muito sobre isso. Fiz uma oração e pensei: sabe de uma coisa? A NASA sabe o que está fazendo. Ele está em boas mãos. Com essa missão, acho que experimentei um nível de ansiedade que nunca tinha sentido antes em relação ao meu pai e à profissão dele, mesmo ele sendo piloto de testes ou estando na Marinha a vida toda. Acho que é porque essa é a fase mais velha que eu já tive enquanto ele faz algo tão perigoso no trabalho. E por causa do momento em que o mundo está, no geral, eu fiquei ansiosa sobre como a missão seria recebida. Eu definitivamente estava ansiosa com a segurança da tripulação em primeiro lugar. Acho que, quando criança, na minha cabeça, meu pai sempre foi um super-herói, meio de outro mundo, conquistando coisas que mais ninguém conseguiria, porque, primeiro, ele é meu pai. Segundo, ele sempre esteve envolvido em algum tipo de coisa que impacta o mundo ao nosso redor.

CNN Brasil: Como tem sido ver a reação das outras pessoas à história dele?

Maya Glover: É legal ver todo mundo se conectando com a história dele, até crianças pequenas aqui no campus e ao redor do mundo vestindo roupas de astronauta e dizendo: “um dia vai ser eu”. Isso é muito emocionante de ver. E sei que essa é basicamente a razão pela qual essas pessoas estão voando, é pelo futuro do nosso país, do planeta. Então é muito legal ver isso acontecendo na prática. Você vê as mentes jovens pensando: “isso é possível”. “É isso que eu quero fazer. Como eu faço?” Então as pessoas já estão me procurando tipo: “ouvi a história do seu pai, como posso seguir esse caminho?” E eu tento compartilhar o máximo de detalhes possível. Ele fez isso, estudou isso na faculdade, fez isso depois… esse tipo de coisa que você precisa estudar. Gosto de compartilhar isso para que essas pessoas tenham a melhor chance de fazer algo parecido. Mas também acho que, no geral, ele fez um ótimo trabalho em deixar a missão ser o que ela representa, algo para todos. Ele enfatiza muito que somos um único planeta. E a missão foi para o planeta inteiro. Não foi para os Estados Unidos. Não foi para o governo. Não foi para aliados. Foi para o planeta como um todo e para o futuro da sociedade. Acho que essa é a forma mais importante de inspiração: fazer as pessoas olharem o mundo como um todo, em vez de focar no que nos divide. E isso também foi uma parte muito emocionante da missão: ver como meu pai conseguiu aproximar coisas que foram separadas ao longo do tempo.

CNN Brasil: Você mencionou a faculdade, que seu pai estudou na mesma. Isso influenciou sua escolha? E você quer seguir carreira em ciência, talvez algo parecido com ele? Onde está seu coração profissionalmente?

Maya Glover: Meus pais influenciaram sim, mas de forma indireta. Eles se conheceram aqui, estudaram aqui. Minha irmã mais velha também estudou aqui. Então, quando chegou minha vez, ela já estava no segundo ano aqui, e eu só pensei: quero estudar onde minha irmã está. Então, tecnicamente, vim por causa dela. Ela fazia biologia, na área STEM. Eu achei que faria engenharia arquitetônica, mas quando vi as matérias tipo cálculo, cálculo, cálculo… pensei: não é para mim. Então fui para arquitetura, e é isso que faço há dois anos e meio. É onde está meu coração. E quando perguntam se quero seguir os passos do meu pai… absolutamente não. Amo a Terra. Não quero voar nem nada disso. Acho que meu propósito é aqui, com as pessoas e a infraestrutura. Mas talvez eu possa ser arquiteta espacial — isso existe. Mas esse é o mais perto que vou chegar.

CNN Brasil: Você mencionou Deus. Como foi crescer com ciência e religião?

Maya Glover: Minha família sempre teve uma visão saudável de que os dois podem coexistir. Nunca fomos criados com a ideia de que um invalida o outro. Aprendi que a religião serve como guia e apoio emocional. E que ciência e religião podem coexistir, não são opostas. Crescemos indo a cultos, lendo a Bíblia, mas também respeitando outras crenças. Meu pai estudou várias religiões e respeita todas. Acho fascinante como pessoas diferentes podem acreditar em coisas diferentes com a mesma intensidade. Fomos ensinados a ter mente aberta e aprender com outras culturas.

CNN Brasil: Um vídeo seu viralizou. Você quer seguir algo na internet?

Maya Glover:
No começo, não era minha intenção. Fiquei até com medo no início. Mas depois vieram mensagens e oportunidades. E percebi o alcance global disso. Agora sei que tenho uma plataforma e quero fazer algo com ela. Principalmente falar sobre valores importantes para mim. Já fiz uma colaboração com a organização Rock the Vote no Dia da Terra, incentivando o voto. Quero usar a plataforma para espalhar mensagens importantes.

CNN Brasil: E sobre o Brasil? O que você acha?

Maya Glover: Acho que meu pai talvez já tenha ido, mas eu e minhas irmãs nunca fomos. O que mais conheço vem do filme Rio. Mas adoro aprender sobre culturas. Futebol é muito importante aí. Neymar, Copa do Mundo… foi muito divertido acompanhar. Está na nossa lista visitar o Brasil.

CNN Brasil: Você esteve em eventos importantes, como a Casa Branca. Como foi?

Maya Glover: Foi incrível. Fomos à Casa Branca, ONU, gravação com Jimmy Fallon… Sinto muita gratidão. Como estudante de arquitetura, adorei ver os detalhes históricos. São experiências únicas. Foi uma agenda intensa, fiquei exausta. Tenho muito respeito pela equipe. Foi incrível ver os bastidores desses eventos. E o ponto alto foi passar o aniversário do meu pai juntos.

CNN Brasil: Sobre a playlist da missão, qual música você escolheria?

Maya Glover: Nossa família escolheu “Green Light”, do John Legend com André 3000. E eu escolheria “Black Folk”, do Tank and the Bangas. Tem uma letra linda que me lembra minha família. É a música que eu escolheria.

LEIA TAMBÉM: Brasil na Lua: satélite nacional fará ousada missão no polo sul lunar 

 

Quem é Victor Glover

Victor J. Glover foi selecionado como astronauta da NASA em 2013 e está designado como piloto da missão Artemis II. O astronauta atuou como piloto da missão SpaceX Crew-1, integrando a Expedição 64 da Estação Espacial Internacional.

Nascido em Pomona, na Califórnia, Glover é formado em Engenharia Geral e têm mestrados em Engenharia de Testes de Voo, Engenharia de Sistemas e Arte e Ciências Operacionais Militares. Aviador naval, foi piloto de testes de aeronaves como o F/A-18 Hornet, Super Hornet e o EA-18G Growler.

Na missão Artemis II, Victor se tornou a única pessoa negra a voar mais longe no espaço, próximo da Lua. O piloto  acumula 3.500 horas de voo em mais de 40 aeronaves, mais de 400 pousos de porta-aviões e 24 missões de combate.

 

Missão Artemis II

A missão levou aproximadamente 10 dias, com o foguete SLS (Space Launch System) e a espaçonave Orion do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Assim, a trajetória da cápsula Orion completou duas órbitas ao redor da Terra e, em seguida, viajou até à Lua em um padrão em forma de oito antes de retornar à Terra.

Os astronautas vão observar a Lua de uma perspectiva única, pois passarão a uma altitude muito maior em comparação com as missões Apollo, e verão todo o disco lunar, incluindo áreas próximas aos polos norte e sul.

Ainda no ponto de maior aproximação, o satélite natural vai estar semelhante ao tamanho de uma bola de basquete segurada à distância de um braço. A missão também foi fundamental para preparar o retorno do homem à Lua, com pouso previsto para o lançamento da Artemis IV, que deve ocorrer até 2030.

*Sob supervisão de Thiago Félix. Com informações de Vitor Bonets, Yasmin Silvestre e Thomaz Coelho





Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *