A crise que atinge as comercializadoras de energia no mercado livre brasileiro é, antes de tudo, uma discussão de liquidez e segurança de mercado, na avaliação do CEO da Copel, Daniel Slaviero. Segundo o executivo, parte relevante das empresas do setor assumiu posições muito acima de sua capacidade financeira, o que ajuda a explicar a onda recente de inadimplência, quebra de contratos e judicializações.
“Várias comercializadoras, que no fundo são grandes intermediários entre geradoras e os clientes finais, assumiram um risco muito maior do que sua capacidade financeira. Com alta alavancagem, transacionando bilhões de reais, qualquer solavanco coloca a empresa que não tenha prudência mais afiada em situação delicada”, afirmou.
O atual colapso no mercado livre não surgiu de forma repentina. O ponto de inflexão foi o rombo deixado por grandes comercializadoras como Gold Energia, 2W, cujas dificuldades financeiras abalaram a confiança entre agentes e levaram a uma retração abrupta do crédito.
A partir daí, o setor passou a registrar uma sequência de defaults e disputas contratuais envolvendo empresas como Máxima, Boven, América Energia, Tradener e Elektra, entre outras, muitas das quais recorreram à Justiça para suspender obrigações e evitar execuções. Esse efeito em cadeia elevou a aversão ao risco, endureceu exigências de garantias e contribuiu diretamente para a queda da liquidez no Ambiente de Contratação Livre (ACL).
Nos bastidores, porém, a interpretação não é consensual. Comercializadoras independentes alegam que a concentração de oferta nas mãos de grandes geradoras e a redução de contratos de longo prazo têm contribuído para a queda da liquidez e dificultado o funcionamento do mercado.
Outro ponto frequentemente apontado como causa da crise — a volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) — também foi relativizado por Slaviero. O executivo destacou que o intervalo de preços no Brasil, entre R$ 57,31/MWh e R$ 785,27/MWh, é inferior ao observado em mercados internacionais, como Colômbia, EUA, Austrália, Inglaterra, entre outros, onde há maior amplitude e até registros de preços negativos.
“Nestes mercados, o preço-teto é muito mais alto e em alguns momentos o preço é negativo. Então falar que tem muita volatilidade no mercado não corresponde com a realidade”, disse.
Ainda assim, agentes do setor apontam que a instabilidade recente na formação de preços, somada a fatores como cortes de geração renovável (curtailment) e mudanças nos modelos de despacho, tem aumentado a imprevisibilidade do mercado.
Para Slaviero, mudanças em discussão nos parâmetros de risco que orientam o nível dos reservatórios podem agravar o cenário. Segundo ele, flexibilizar essas regras pode comprometer a segurança do sistema elétrico, ampliando a exposição a situações críticas no futuro.