
Os números da economia até mostram fôlego, mas a sensação nas ruas conta outra história — e ela pesa. A pesquisa Real Time Big Data desta terça-feira escancara esse descompasso: 48% dos entrevistados avaliam que a economia está pior do que no governo anterior, enquanto 31% veem melhora e 24% dizem que tudo ficou igual. O recorte político aprofunda o quadro: entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 83% enxergam deterioração. No pano de fundo, o cenário eleitoral segue apertado, com o presidente empatando tecnicamente com diversos adversários em um eventual segundo turno.
Índice de miséria
Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, há um paradoxo difícil de ignorar. “O desemprego está baixo… a economia está crescendo, a massa de renda também está aumentando. Você tem um cenário relativamente positivo para uma parcela importante da população”, afirma. Ainda assim, essa melhora não se traduz em aprovação. Ele lembra que o chamado índice de miséria — que combina desemprego e inflação — está no menor nível em três décadas. “Era pro governo estar muito melhor”, resume.
Dívidas, dívidas e dívidas
A explicação, segundo Vale, passa por um ponto sensível: o endividamento. “Quem está endividado e está atrasado tá apoiando com muito mais intensidade o Flávio do que o Lula”, diz. Ou seja, mesmo com emprego e renda em recuperação, quem sente o aperto das contas no fim do mês tende a avaliar a economia de forma mais negativa — e isso se reflete diretamente no humor político.
Guerra agora, Covid antes
Na leitura da economista Natalie Verndl, delegada do Corecon-SP, a percepção também carrega memória e contexto. Ela lembra que, durante a pandemia, no governo Jair Bolsonaro, houve uma sensação de alívio em alguns gastos, impulsionada por juros baixos e mudanças no padrão de consumo. Hoje, o cenário é outro: “A tensão geopolítica, todos os efeitos sazonais que a gente está vivendo com os alimentos… isso tem pressionado a cesta ali do trabalhador”, explica. Na prática, o que pesa é o preço no supermercado, não o indicador macroeconômico.
Afinidade política
Natalie também destaca um componente menos tangível, mas igualmente relevante: a subjetividade. “Envolve, claro, muito mais a questão ali de afinidade política. Se você tem mais afinidade com… o presidente A, a tendência é justamente que você enxergue ali um cenário muito mais positivo”, afirma. No fim das contas, o Desenrola 2.0 surge nesse contexto como uma tentativa de virar esse jogo — mirando justamente a parcela mais endividada da população, onde a insatisfação hoje parece falar mais alto do que os próprios números da economia.