Três pessoas morreram e, pelo menos, outras três estão doentes após um possível surto de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro que navegava no Oceano Atlântico, informou a OMS (Organização Mundial da Saúde) no domingo (3).

Os três mortos eram passageiros de um cruzeiro, informou a Oceanwide Expeditions, empresa que opera o navio, chamado MV Hondius, que está atualmente ancorado em Praia, capital de Cabo Verde, um país insular na costa oeste da África.

Às 19h de domingo (horário de Brasília), as autoridades cabo-verdianas não haviam autorizado o desembarque dos passageiros para receber atendimento médico, mas as autoridades de saúde locais visitaram o navio e avaliaram dois tripulantes sintomáticos que “necessitavam de atendimento médico urgente”, informou a Oceanwide Expeditions em comunicado.

O hantavírus pode causar uma doença respiratória grave e frequentemente fatal chamada síndrome pulmonar por hantavírus, que matou Betsy Arakawa, esposa do falecido ator Gene Hackman, no ano passado.

Segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), a infecção em humanos ocorre mais comumente pelo contato com roedores como ratos e camundongos, especialmente através da urina, fezes e saliva desses animais.

Apenas um tipo de hantavírus, o vírus Andes, é conhecido por ser capaz de se transmitir de pessoa para pessoa, mas isso é raro. Ele é encontrado principalmente no Chile e na Argentina, países de origem do navio.

Onde estava o navio?

O navio MV Hondius partiu de Ushuaia, na Argentina, há cerca de sete semanas, segundo dados da MarineTraffic, que o identificou como um navio de cruzeiro de passageiros com bandeira holandesa. Ele fez escalas na Antártica e no território ultramarino britânico de Santa Helena antes de ancorar no domingo em Praia, capital de Cabo Verde, de acordo com a MarineTraffic.

De acordo com a Oceanwide Expeditions, a embarcação tem capacidade para 170 passageiros e 71 tripulantes, incluindo um médico. A empresa informou à CNN que está “focada na saúde e segurança dos passageiros e da tripulação” e que divulgará mais informações assim que estiverem disponíveis.

Não está claro como ocorreram as infecções. O Ministério da Saúde da província de Tierra del Fuego, onde Ushuaia está localizada, afirmou que nunca houve um caso relatado de hantavírus na província.

Dos seis indivíduos sintomáticos, apenas um caso de infecção por hantavírus foi confirmado em laboratório até o momento, enquanto os outros cinco são casos suspeitos, informou a OMS.

“Até o momento, um caso de infecção por hantavírus foi confirmado em laboratório, e há cinco casos suspeitos adicionais. Dos seis indivíduos afetados, três faleceram e um está atualmente em cuidados intensivos na África do Sul.”

“Investigações detalhadas estão em andamento, incluindo mais testes laboratoriais e investigações epidemiológicas”, afirmou a OMS. “Cuidados médicos e apoio estão sendo fornecidos aos passageiros e à tripulação. O sequenciamento do vírus também está em andamento.”

Scott Miscovich, médico de família e presidente e CEO do Premier Medical Group, afirmou que é extremamente incomum haver um surto de hantavírus em um navio que não tenha viajado para nenhum lugar onde o vírus seja endêmico.

“Quando li isso pela primeira vez, pensei que fosse um erro de impressão”, disse ele à CNN após a notícia do possível surto.

O que sabemos sobre as vítimas?

A primeira vítima foi um homem de 70 anos. Ele morreu no navio e seu corpo foi levado para Santa Helena, informou o Departamento de Saúde da África do Sul em um comunicado divulgado pela AP.

A esposa do homem desmaiou em um aeroporto na África do Sul enquanto tentava embarcar em um voo de volta para a Holanda, seu país de origem, e morreu no hospital, informou o departamento, de acordo com a AP.

Dois dos passageiros falecidos eram holandeses, confirmou à Reuters um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Holanda.

Um cidadão britânico que adoeceu após a partida do navio de Santa Helena está sendo tratado em Joanesburgo, informou o departamento de saúde da África do Sul.

A operadora turística informou que ainda não foi tomada nenhuma decisão sobre a transferência dos tripulantes para receberem atendimento médico.

As autoridades holandesas concordaram em repatriar os tripulantes sintomáticos, bem como o corpo de um indivíduo falecido, para a Holanda, informou a Oceanwide Expeditions.

“A prioridade da Oceanwide Expeditions é garantir que os dois indivíduos sintomáticos a bordo recebam atendimento médico adequado e imediato”, afirmou a empresa.

A OMS afirmou que está “facilitando a coordenação entre os Estados-Membros e os operadores do navio para a evacuação médica de dois passageiros sintomáticos, bem como a avaliação completa dos riscos para a saúde pública e o apoio aos demais passageiros a bordo”.

Miscovich disse ser intrigante que as autoridades não priorizem a evacuação do navio.

“Se eu fosse envolvido nisso, a primeira coisa que precisaria acontecer é levar o navio para terra firme, e basicamente todos precisam desembarcar e serem avaliados”, disse ele.

A CNN entrou em contato com o Departamento de Saúde da África do Sul, o Ministério das Relações Exteriores, da Commonwealth e do Desenvolvimento do Reino Unido, o Ministério das Relações Exteriores da Holanda e o Ministério da Saúde de Cabo Verde.

Quão mortal é o hantavírus?

De acordo com o CDC, cepas do hantavírus encontradas no Hemisfério Ocidental podem causar a síndrome pulmonar por hantavírus, que é transmitida principalmente pelo rato-veado nos EUA.

Os sintomas iniciais incluem fadiga, febre, dores musculares, além de dores de cabeça, tonturas, calafrios e problemas abdominais em alguns pacientes. Os sintomas posteriores da síndrome pulmonar por hantavírus incluem tosse, falta de ar e aperto no peito.

Os hantavírus, encontrados principalmente na Europa e na Ásia, também podem causar doenças renais graves.

Não há cura para a infecção por hantavírus, além do tratamento dos sintomas. Pacientes com dificuldades respiratórias graves podem precisar ser intubados, segundo o CDC.

A doença é rara, mas altamente letal — cerca de 38% das pessoas que desenvolvem sintomas respiratórios podem morrer, de acordo com o CDC. Se os pacientes forem idosos ou imunocomprometidos, a taxa de mortalidade pode ser ainda maior, disse Miscovich.

Até o final de 2023, apenas 890 casos confirmados de doença por hantavírus foram relatados nos EUA desde o início da vigilância em 1993.

A maioria dos casos ocorre no Novo México, o mesmo estado onde Arakawa foi encontrada morta na casa que dividia com Hackman. Roedores mortos e ninhos de roedores foram posteriormente encontrados em oito anexos da propriedade.

Miscovich disse que “todos os indícios apontam” para a origem do vírus em algum lugar do navio.

“Esse navio será vasculhado e eles vão encontrar alguma coisa”, disse ele.





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