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A partir dos estudos clínicos e dos dados de vida real obtidos com a semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, os médicos começaram a perceber que o potencial das canetas de aplicação semanal não se resumia ao controle do diabetes e da obesidade. Outras indicações poderiam beneficiar pessoas em maior risco cardiovascular, com gordura no fígado ou mesmo quem convive com um transtorno por uso de álcool.
Mas apenas pesquisas desenhadas com essas finalidades conseguem comprovar os efeitos esperados e apontados por análises preliminares. Desta vez, a semaglutida venceu a prova de conceito em um estudo elaborado para avaliar seu impacto no consumo e na dependência alcoólica.
“Associação não prova causa, então precisávamos de um ensaio devidamente controlado para atestar essa hipótese”, comenta o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto.
No estudo clínico, publicado na importante revista médica The Lancet, o tratamento – na dosagem de 2,4 mg por semana, que corresponde à do Wegovy – foi testado entre indivíduos acima do peso e com histórico de problemas com o álcool.
O trabalho incluiu 108 participantes, 54 no grupo da semaglutida e 54 no grupo das canetas sem a substância – o placebo, que permite a análise comparativa. Todos tinham transtorno por uso de álcool de moderado a grave, apresentavam índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m² e estavam em busca de ajuda para reduzir, controlar ou interromper a ingestão etílica. A média de idade era de 52 anos, e 85% dos voluntários preenchiam critérios para a forma grave do transtorno por uso de álcool.
“Esse é um termo médico empregado para descrever uma relação prejudicial com a bebida, marcada por perda de controle sobre o consumo, dificuldade de reduzir ou parar, desejo intenso de beber, prejuízos na vida pessoal ou profissional, uso continuado apesar de consequências negativas e, em alguns casos, tolerância e sintomas de abstinência”, traduz Couri.
Os participantes mantinham um padrão elevado de consumo de álcool por mais de 15 dias por mês. Pelo cálculo dos cientistas, os homens tomavam pelo menos 60 gramas de álcool por dia e as mulheres, 48 gramas.
Para ter ideia do que isso representa, uma lata de cerveja (350 ml) apresenta 14 gramas de álcool. Uma dose de whisky (45 ml) também fica nesse patamar, assim como uma taça de vinho (150 ml).
Além de estarem acima do peso – mais de 100 kg, em média -, os indivíduos bebiam o equivalente a 157 doses de bebida por mês, quantidade suficiente para prejudicar significativamente o organismo.
Impacto na redução do álcool
O estudo durou pouco mais de seis meses. Fora as injeções semanais de Wegovy, os participantes tiveram acesso a até dez sessões de psicoterapia para lidar com o desejo de beber.
Ao final, os estudiosos notaram que o grupo da semaglutida obteve uma redução expressiva nos dias de consumo etílico elevado. Houve uma queda de mais de 40 pontos percentuais contra 26 pontos do grupo que só fez terapia e tomou o placebo.
“A ingestão de álcool caiu 1,5 grama em um mês entre quem usou de fato a semaglutida, ante 1 grama do grupo placebo. Essa diferença representa ao redor de 33 latinhas de cerveja ou doses de destilado por mês”, descreve Couri.
Além de baixar a vontade de beber e a ingestão em si, exames de sangue atestaram a diminuição do impacto do álcool no organismo.
“Como esperado, a semaglutida também levou à perda de peso. O grupo tratado perdeu, em média, 11,2 kg, contra 2,2 kg no placebo”, observa o endocrinologista.
Efeito cerebral
O mecanismo de ação da semaglutida ajuda a entender por que ela oferece esse benefício.
“Os agonistas de GLP-1 atuam no apetite e no metabolismo, mas também parecem interferir em vias cerebrais associadas à recompensa e à compulsão. É por isso que eles passaram a ser investigados para dependências. Ainda assim, o mecanismo exato no consumo de álcool permanece em aberto”, diz Couri.
Apesar dos resultados animadores, os próprios autores da investigação pedem cautela. O estudo foi pequeno, feito em um único centro, na Dinamarca, e incluiu apenas pessoas com obesidade. Portanto, não dá para extrapolar automaticamente os achados para todos os pacientes com transtorno por uso de álcool, especialmente aqueles sem excesso de peso.
Também não houve acompanhamento após as 26 semanas de estudo, o que não permite deduzir se a redução do consumo se mantém no longo prazo.
“A mensagem, por ora, não é que a semaglutida virou tratamento aprovado para transtorno por uso de álcool. É que, pela primeira vez, um ensaio desenhado para responder a essa pergunta mostrou que a droga reduziu o consumo elevado em pessoas com obesidade que buscavam tratamento”, analisa o especialista.
Os bons resultados, contudo, tornam mais tangível uma nova opção terapêutica para ajudar milhões de cidadãos que enfrentam problemas com o álcool no cotidiano.