O Ibovespa se distanciou da marca inédita de 200 mil pontos e encerrou abril quase no zero a zero, após ensaiar recuperação com a expectativa de negociações entre Estados Unidos e Irã.

Apesar da perda de fôlego, analistas ouvidos pelo CNN Money apontam que o cenário de novos recordes do principal índice da bolsa brasileira segue na mira do mercado, em uma equação que envolve melhora no cenário geopolítico, corte de juros e retomada do fluxo estrangeiro.

O índice fechou abril com leve queda de 0,08%, com variação negativa pelo segundo mês seguido. Em março, o Ibovespa freou uma série de ganhos mensais com os investidores mais cautelosos e com maior aversão ao risco diante de incertezas a cerca da guerra do Oriente Médio.

Na avaliação de Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, mesmo em um mês mais difícil, há uma característica favorável na correção da bolsa: o P/L (preço sobre lucro) caiu mais do que o preço dos ativos.

Para a analista, isso aconteceu porque as estimativas de lucro das empresas foram revisadas para cima, fazendo o valuation voltar a níveis atrativos com mais rapidez.

“Em termos simples: os preços caíram, mas os lucros esperados subiram, então a bolsa ficou ‘mais barata’ para quem olha o que cada ação entrega. Isso pode implicar em novas oportunidades de entrada”.

Na avaliação de Sene, o movimento de queda recente da bolsa brasileira reflete uma combinação de fatores macroeconômicos e técnicos.

“Do lado macro, o cenário ficou mais desafiador ao longo do mês, com inflação mais resistente, núcleos pressionados e menor espaço de manobra para o Banco Central, mesmo com a expectativa de novos cortes graduais da Selic”, analisa.

Para ela, esse ambiente reforça as incertezas advindas principalmente da maior volatilidade do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio, e penaliza principalmente os ativos mais sensíveis ao ciclo doméstico.

Do ponto de vista de mercado, a fraqueza recente na bolsa é acompanhada pela saída de capital externo. A correção no Ibovespa acompanhou a saída de investidores estrangeiros, que vinham sustentando as ações brasileiras.

No mês, o saldo ainda está positivo, em R$ 6,9 bilhões, conforme dados da B3 até o dia 28. Até o dia 15, porém, havia uma entrada líquida de R$ 14,6 bilhões.

De acordo com Anderson Silva, head da mesa de renda variável da GT Capital, a saída do capital estrangeiro é um movimento natural de realização de lucros depois de uma sequência de altas e recordes do Ibovespa no início deste ano.

Silva ressalta que ao fazer o acompanhamento diário do fluxo de capital estrangeiro na bolsa, é possível notar um movimento de redução de posições em BOVA11 de grandes players como Morgan Stanley, Merrill Lynch (BofA), UBS, Citigroup e Goldman Sachs.

“Isso diz que o investidor estrangeiro está reduzindo a mão no ‘combo Brasil’, pois quando eles vendem BOVA11, que é o ETF que replica o índice Bovespa, é exatamente o que estão fazendo, vendendo as principais empresas do Brasil”, avalia.

O superintendente de renda variável na SulAmérica Investimentos, Gilberto Nagai, relembra que parte do capital estrangeiro que chegou aos países emergentes, inclusive o Brasil, foi retirado de empresas de tecnologia dos Estados Unidos pelo receio de problemas financeiros.

“Como o grande medo dos investidores com problemas operacionais e decepções nos resultados das empresas de tecnologia não está acontecendo, a gente acha que o movimento de uma parte do dinheiro estrangeiro que saiu de tech está arrefecendo”, diz.

Retomada do fôlego

Uma sequência de acontecimento precisam acontecer em cascata para que a bolsa retome o fôlego e tenha um cenário resiliente novamente, de acordo com os especialistas.

Para o Ibovespa ultrapassar os 200 mil pontos, Raissa Florence, economista da Oz Câmbio, aponta que o mercado precisa de três gatilhos: melhora do ambiente externo, continuidade do fluxo estrangeiro e queda na curva de juros no Brasil.

A economista alerta que a expectativa para maio é de mais volatilidade. “O índice ainda tem fundamentos positivos, como valuation atrativo, real mais forte e expectativa de queda da Selic, mas o mercado deve ficar muito sensível a petróleo, guerra, Fed, fiscal no Brasil e resultados corporativos”.

Nagai, da SulAmérica Investimentos, analisa que para a bolsa avançar, a aversão ao risco tem que diminuir.

Para que os investidores se sintam mais confortáveis em tomar risco, o cenário da guerra no Oriente Média precisa estar mais claro, o que levaria para o recuo no preço do petróleo recuar, neste cenário o risco de inflação diminui e os juros caem.

“Quando isso acontecer, as projeções de PIB tendem a melhorar e a lucratividade das empresas também. Nesse cenário, os investidores estrangeiros, que gostam da tese de países com inflação sob controle e queda no ciclo de juros, voltaria ao Brasil”, analisa.

Apesar do cenário desafiador, Sene, da Rico, acredito que no médio prazo, há espaço para o Ibovespa buscar os 200 mil pontos.

“A correção atual não altera a tendência estrutural positiva da bolsa brasileira. O fluxo estrangeiro, o câmbio, as commodities e a condução da política monetária colocam o Brasil em posição favorável. Mesmo com ruído geopolítico, o mercado brasileiro segue atrativo e bem posicionado”.

No curto prazo, porém, a especialista alerta que o caminho tende a ser mais tortuoso, com correções, volatilidade e influência crescente do debate eleitoral, o que demanda uma postura mais seletiva, equilibrada e cautelosa por parte do investidor.

“Superado esse ajuste técnico e com sinais mais claros de estabilização de fluxo e macroeconomia, o cenário de médio prazo continua compatível com níveis mais altos para o índice”, finaliza.

Já Silva, da GT Capital, é menos otimista com a retomada dos 200 mil pontos e diz que não vê gatilho para que o índice atinja o patamar no curto prazo.

“Minha expectativa era que nesse ciclo de alta, pudesse ter alcançado os 210 ou até mesmo 220 mil pontos. Com o conflito entre EUA e Irã extrapolando qualquer estimativa prévia dos norte americanos com relação à duração, eu acredito que o impacto real de todo o estrago ao petróleo naquela região ainda não atingiu em cheio a nossa economia e a economia global de forma geral”.



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