“No lugar preferido da minha casa, só tenho lembranças da cordilheira. Fotos de muitos dos que morreram… Me considero o guardião de suas memórias sem que ninguém me pergunte, porque ali ninguém pediu: todo mundo entregou”, conta Gustavo Zerbino, um dos 16 sobreviventes da queda do Voo 571 da Força Aérea do Uruguai na Cordilheira dos Andes em 1972.

Após 72 dias, quando foi resgatado, ele se recusou a ir embora sem levar junto uma mala com cartas, fotos e objetos pessoais daqueles que morreram, para levar aos familiares – na imagem principal uma cena do filme “A Sociedade da Neve” (Netflix, 2023), em que Zerbino foi interpretado pelo ator Tomás Wolf.

“Eu sentei na bolsa e disse que se não pudesse carregá-la, ficaria. Então, finalmente consegui carregar aquela bolsa. Trouxe todos os meus amigos naquela bolsa e passei um mês indo de casa em casa. Foi muito difícil porque todos os dias eu tinha que enfrentar a dor de uma família diferente, atravessando uma serra que não tinha acabado para mim, mas sabendo que, para eles, iria acabar. Cada um deles deixou uma marca enorme em mim”, narrou o sobrevivente em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia.

Um compromisso que ele assumiu sem que lhe pedissem, motivado pelo desejo de honrar a vida daqueles que não voltaram. Inclusive, coletar esses objetos serviu como uma forma de manter a sanidade, o foco e a esperança de sobrevivência, servindo como “combustível” para não desistir.

E foi justamente essa insistência de Zerbino que garantiu que esses relatos e pertences fossem preservados e, posteriormente, expostos no Museu dos Andes, no Uruguai.

Camiseta do time Old Christians que pertenceu a Gustavo Zerbino e está exposta no Museu dos Andes

Hoje, aos 72 anos, ele percorre o mundo como palestrante, levando as lições que aprendeu naqueles dias que o testaram como ser humano e mantendo vivas as memórias daqueles que se foram.

O que Gustavo Zerbino faz não é apenas relembrar o passado — é transformá-lo em ferramenta. A experiência na Cordilheira dos Andes serve de base para reflexões profundas sobre resiliência, liderança em momentos de crise, tomada de decisão sob pressão extrema, solidariedade e o poder dos valores humanos.

Essa visão é o coração das palestras: a crença de que cada ser humano tem dentro de si recursos que só aparecem quando colocado diante do limite — e que esses recursos, uma vez descobertos, transformam a maneira de encarar a vida, o trabalho e as relações.

A história de Gustavo Zerbino está chegando a Brasília. No dia 26 de maio de 2026, às 20 horas, o sobrevivente do Milagre dos Andes sobe ao palco do Ulysses Centro de Convenções para uma palestra que promete ser uma das noites mais marcantes do Metrópoles Talks — o projeto de palestras do maior portal de notícias do Brasil.

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O acidente

Era outubro de 1972. Gustavo Zerbino tinha 19 anos, estudava medicina em Montevidéu e era jogador de rúgbi do time Old Christians, do colégio Stella Maris.

Jovem, cheio de energia e com a vida inteira pela frente, ele embarcou no Voo 571 da Força Aérea do Uruguai como mais um integrante de uma delegação esportiva animada com a viagem a Santiago, no Chile, para uma competição. O que ninguém a bordo poderia imaginar era que aquele voo mudaria — para sempre — a história de todos os 45 passageiros e tripulantes.

Em 13 de outubro de 1972, o avião colidiu com a Cordilheira dos Andes. O que se seguiu foi uma das maiores e mais impressionantes histórias de sobrevivência já registradas pela humanidade.

O avião decolou de Montevidéu na manhã do dia 12 de outubro, mas o mau tempo forçou um pouso técnico em Mendoza, na Argentina. Na manhã seguinte os pilotos decidiram prosseguir viagem. Durante a travessia da cordilheira, a aeronave começou a descida antes do tempo, quando ainda estava entre os picos nevados dos Andes.

A aeronave colidiu com a montanha, perdeu as asas e a cauda, e o que restou da fuselagem deslizou por um vale de neve a mais de 3.500 metros de altitude, no chamado Valle de las Lágrimas, na província de Mendoza, na Argentina.

Doze pessoas morreram no impacto imediato. Vinte e nove sobreviveram à queda — mas apenas para encarar um novo e devastador desafio: sobreviver no topo do mundo, sem alimento, sem comunicação com o exterior e sob temperaturas que chegavam a 40 graus negativos à noite.

O médico improvisado

Foi nesse cenário que Gustavo Zerbino revelou um papel que ninguém havia planejado, mas que se mostrou essencial. Estudante do segundo ano de medicina, ele e o colega Roberto Canessa — também estudante de medicina — tornaram-se os “médicos” do grupo.

Desde as primeiras horas após o acidente, os dois foram os responsáveis pelo atendimento dos feridos, fazendo o que podiam com os pouquíssimos recursos disponíveis nos destroços do avião.

Tratavam fraturas, cuidavam de ferimentos abertos, monitoravam os companheiros mais debilitados. Era medicina de guerra, praticada por jovens que ainda estavam na faculdade, em condições que nenhum livro ou sala de aula poderia ensinar.

Quando os sobreviventes tomaram a decisão — ao mesmo tempo desesperada e racional — de se alimentar dos corpos dos colegas que haviam morrido para não sucumbir à fome, foram Zerbino e Canessa que, com a frieza necessária de quem pensa como médico, ajudaram a tornar aquele momento minimamente suportável. Para eles, era proteína, gordura, a única fonte possível de energia para manter o coração batendo por mais um dia.

A vida depois da cordilheira

Resgatado às vésperas do Natal de 1972, Zerbino voltou ao mundo — mas não voltou o mesmo. Poucos poderiam. Concluiu os estudos e seguiu carreira no setor farmacêutico e químico, tornando-se empresário e ocupando posições de destaque como presidente da Associação Química e da Câmara de Especialidades Farmacêuticas e Afins do Uruguai.

Paralelamente, não abandonou o rúgbi — pelo contrário: chegou a integrar a seleção uruguaia e presidiu a União Uruguaia de Rugby por vários anos.

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Metrópoles Talks com Gustavo Zerbino

Data: 26 de maio de 2026, às 20h
Local: Ulysses Centro de Convenções — Brasília (DF)
Ingressos: Bilheteria Digital



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