Pavana para um preto defunto   (Diário de Notícias – 11 de maio de 1947)
Se algum dos meus leitores conheceu o preto Manuel do Nascimento, que era cabineiro de elevador no grande e frio edifício de tristes colunas negras, que fica atrás da Escola de Belas Artes, que saiba apenas que ele morreu, mas não queira saber como foi. Basta a tristeza de sabê-lo morto, porque se o conheceu, certamente gostava dele. A profissão de carabineiro tem suas vantagens, como ele costumava me dizer, e entre essas está a de estar subindo sempre, mesmo descendo se tem a certeza de que vai subir de novo. Mas o certo é que este subir e descer não em anos, mas em minutos, termina cansando até a morte. Dá um tédio enorme da vida. Conheço alguns que procuram fugir da monotonia de subir e descer contando o número de passageiros (há até um aparelho para isso). Outros fogem e ficam longe, sonhando, deixam só o corpo atendendo maquinalmente aos comandos mal silabados.

 

Manuel do Nascimento descobriu um jeito de fugir muito melhor: conversando. Ele era um desses homens que Deus enche de alegria e solta no mundo: e a alegria desse tipo é profunda, mas não silenciosa como a do nosso maior poeta. Ela ou rebenta pelos poros, pelas mãos, pela fala, ou a gente enlouquece. A verdade é que Manuel do Nascimento parecia mesmo um pássaro, com sua farda azul, o nariz semítico, o bigode negro no rosto negro, uma anhuma que em vez de soltar seu grito de solidão e de lamento, transmitisse aos demais seres uma lição de paciência e de coragem: alegria.

 

Morreu, isto é, mataram-no. Quem foi? Quando perguntei isso, ouvi de muitas bocas uma coisa impossível, uma coisa que lembrava as superstições não direi da Idade Média, mas de nossa Idade Contemporânea, alguma coisa assim de indefinida ou misteriosa como o Morcego de Dusseldorf, o Homem da Capa Preta, Frankenstein ou o Micróbio. Diziam: foi a Polícia. Mas apenas voltando a mim, reagi contra a imagem que formara de uma sombra negra e gigante, sem nome nem mãos. Um dos que foram vê-lo no necrotério me disse que se notava nítida, na arca do peito, a marca de uma botina; e se botina havia, algum pé a calçara. Nessa migalha de lógica é que me segurei para voltar a mim e raciocinar com calma. Digo migalha de lógica porque quem afirma que uma botina, para matar um homem, precisa estar calçada? Depois é que fui ligando os demais detalhes; soube que Manuel do Nascimento tinha bebido um pouco na tarde de sábado, quisera entrar num baile em Botafogo, parece que ou preto não entrava ou ele não era sócio, chamaram os guardas (os guardas, os soldados, é sempre mais aceitável do que este mito, a Polícia), deram nele até o Distrito, onde morreu. Se no Distrito apenas morreu ou ainda apanhou, ninguém soube contar. E se era mesmo porque preto não entrava na gafieira de Botafogo, não procurei saber, fugi de saber. Queriam me contar, mas me recusava a ouvir. Não seria monstruoso que mesmo entre os pobres houvesse o preconceito de cor? Não quis saber ou então não dormiria tranquilo, iria, pela primeira vez, à sessão espírita, para convocar o velho Joaquim Nabuco, contar a ele que não bastava que os negros tivessem profissões diversas e até religião diversa, já agora nem no baile dos brancos pobres podiam entrar. Aceitei a versão de que Manuel do Nascimento não entrara no baile porque não era sócio. Nem mesmo porque tivesse bebido, por que quem pode deixar de beber um pouco neste país e com este governo?

 

Creio também, para honra dos guardas ou soldados, que eles foram vítimas de um monstruoso mal-entendido, um dos maiores desta terra de equívocos. De muita gente tenho ouvido que a função da polícia é bater. “Onde você viu polícia que não bata?”, me perguntava um antigo e perpétuo estudante de direito em Belo Horizonte. E argumentava, triunfante e desatinado qual se fora um dos irmãos Góis Monteiro: “Polícia que não bate não é polícia. Polícia tem que bater”. Docemente, declarei que me parecia que o fim da polícia é impedir que se bata e não bater, não substituir-se aos que batem. A utilidade de uma polícia que batesse só me pareceria defensável se todos os desordeiros — e os demais criminosos — abdicassem sinceramente das suas atribuições, direitos e deveres, em favor da polícia, que então tomaria a si as funções, que deve prevenir, daqueles que deve prender. Estabeleceria então um regime lógico, claro e perfeitamente coerente, baseado no exclusivo “só” e não no contraditório “também”. Exemplo: “só” a polícia mata, só a polícia anavalha, só a polícia esbordoa, só a polícia rouba, só a polícia furta, só a polícia atenta contra a moral e os bons costumes. E seríamos todos felizes.

 

Confesso francamente que o sistema atual me parece um pouco (um pouquinho só) ilógico. A polícia às vezes intervém quando há dois sujeitos brigando, embora seja uma briga proporcionada e agradável. Outras vezes intervém quando um herói autêntico, um desses que guardam na terra, sob os mais sutis disfarces, a imagem da cavalaria andante, bebeu um pouco e desafia dezenas de outros. Poder-se-ia supor que entra ao lado da minoria, mesmo quando essa minoria não precisa de ajuda nem gritou: “Aqui, d’El Rey”, para restabelecer o equilíbrio de uma boa briga. Mas não, não é a dignidade da luta que a preocupa. Intervém sempre ao lado da maioria, e intervém para retirar do local, sob pancada, a minoria (mesmo quando ela é de um só e está vencendo) e para, conservando a desproporção, impor-lhe a humilhação da derrota. Intervém ao lado dos filisteus contra Sansão, transforma a vitória de Sansão na mais esmagadora derrota, e, satisfeita de ter imposto a vingança de muitos contra a revolta de um só, que não a convocara, esfrega as mãos de contente.

 

Tão exagerada quanto a opinião do antigo estudante de Belo Horizonte foi a dos médicos que encontrei ontem.  Eram contra a forca, o fuzilamento, mas achavam que um caso desses justificava a pena de morte: o abuso do poder que provoca morte d’homem. Penso de outro jeito. Que haja um inquérito, está bem, mas nem isso mesmo a rigor é necessário. Entre as poucas coisas que podemos confiar na vida, está o julgamento divino. Fiquemos tranquilos que Deus há de medir se houve crime; e se crime houve, de que importa a justiça dos homens? Filinto pode ser senador, irá para as profundas. Estivesse eu tão tranquilo quanto às demais coisas desse mundo quanto estou neste ponto, isto é, quanto à presença de outro mundo nos nossos destinos.

 

O que me dói é saber tão pouco da morte de Manuel do Nascimento, mas posso afirmar que pareceu com sua vida. Ele era sempre tão igual a si próprio, mesmo depois de tantas horas de trabalho monótono. Ainda sinto sua mão no meu ombro, numa alegre recomendação que esqueci, naquele sábado. Era sábado, a tarde fria, quieta, azul, tudo convidava a beber um pouco. Se beber vinho é ou não um bom costume, não entrarei nessa discussão. Lembrarei apenas que para simbolizar o Seu sangue, Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu o vinho, não a água; e que nem de Hitler, nem de Stalin, ambos derramadores e bebedores de sangue de homens, nunca se ouviu dizer que tomassem algum dia um porre-mãe. Mas parece que nem no porre-mãe estava Manuel do Nascimento; e disso tenho pena, embora deva acrescentar que ainda que estivesse, não era motivo para o matarem. Porém tanto não estava que ao chegar na Delegacia creio que ainda riu para a mulher. Entregou-lhe o relógio e o dinheiro que trazia. A alma deu-a a Deus, e era leve. Bastou um anjo para levá-la aos pés do Criador. E nem foi preciso um anjo muito forte.

 

P.S. Espero não ter escrito um chorinho muito soluçado para este negro defunto: ele não gostaria. É certo que nem sempre atendia aos seus pedidos. Por exemplo: não votei nele para vereador. Todavia por um motivo muito simples: nenhum partido o apresentou candidato. Ainda assim me pediu o voto: “Eu sei que o senhor não vai votar em branco. Tem de votar é em preto mesmo.” Nem o seu próprio voto ele teve. Talvez tenha votado em branco. Lia os programas dos partidos, eram todos tão iguais. Não me lembro se lhe pedi voto para este admirável moleque da rua carioca, para esse Pedro Xavier de Araújo, que não há jeito de envelhecer; que perto dos cinquenta anos ainda recorda o menino alagoano que pulava muro, fazia comício e tirava jornal em Maceió. Não creio que Manuel do Nascimento pertencesse a nenhum partido; se pertencesse, a Câmara e o Senado talvez ouvissem discursos inflamados perguntando por ele. Também não adiantaria nada. O jeito é tocar pra frente, nunca esquecendo que quem desce sobe de novo; quem sobe, tem que descer. E que vive, está sujeito a morrer, inclusive se um dia tiver a desgraça de ser preso. Dirão depois que sofria do coração.

 

OCf — assim assinava muitas vezes Odylo Costa, filho



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