O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central chamou a atenção do mercado financeiro ao incluir a palavra “extensão” no comunicado da decisão de cortar em 0,25 pontos percentuais a taxa básica de juros.

Segundo analistas consultados pelo CNN Money, o colegiado abriu caminho para uma revisão do ciclo de corte de juros nessa quarta-feira (29). Na prática, isso significa a possibilidade de um encerramento antecipado da sequência de quedas e de uma taxa Selic terminal mais elevada do que o esperado anteriormente.

A leitura mais cautelosa rapidamente se traduziu em revisões de cenário, com parte relevante do mercado já abandonando a expectativa de juros em 13% no fim dos cortes.

A SulAmérica Investimentos passou a projetar a Selic em 14%, em um ambiente de maior dificuldade para a convergência da inflação à meta.

A avaliação da economista-chefe da casa, Natalie Victal, é de que a atividade resiliente, a pressão sobre preços livres e os efeitos da guerra no Oriente Médio, ainda não totalmente incorporados, tornam o cenário mais desafiador, com risco inclusive de interrupção do ciclo de cortes já no curto prazo.

Na mesma direção, o Itaú elevou sua projeção para a taxa básica de juros em 2026 para 13,25%, ao citar a piora do quadro inflacionário, a deterioração das expectativas e um balanço de riscos mais pressionado.

O banco também revisou para cima a estimativa de inflação, com destaque para a alta de combustíveis e alimentos, influenciada por fatores climáticos e restrições de oferta.

O risco dos efeitos secundários

Parte relevante desse debate gira em torno de riscos dos resultados naturais do conflito no Oriente Médio sobre combustíveis e alimentação, os chamados efeitos de segunda ordem. Embora o BC tenha destacado essa preocupação, os indicadores mais recentes ainda não apontam para uma disseminação generalizada da inflação.

A desaceleração dos serviços e a estabilidade dos núcleos sugerem, até o momento, que o choque permanece concentrado em itens mais voláteis, como combustíveis e alimentos.

Ao CNN Money, Marcela Kawauti afirmou que esses efeitos ainda não aparecem de forma clara nos dados, mas seguem no radar do BC.

Segundo a economista, o cenário atual combina choques concentrados em itens como combustíveis e alimentos com uma incerteza elevada sobre a capacidade de esses aumentos se espalharem pela economia.

“Os efeitos potenciais sobre commodities também podem ter impactos mais amplos, dependendo do grau de repasse”, afirma.

Para Kawauti, esse é um fator que exige cautela na condução da política monetária, já que uma eventual disseminação para serviços e núcleos de inflação pode tornar o processo inflacionário mais persistente e limitar ainda mais o espaço para cortes na Selic.

Ainda assim, o simples fato de esse risco estar no radar já altera a condução da política monetária, segundo a economista, que menciona ainda que o documento “deve detalhar o balanço de riscos considerado na decisão recente e oferecer pistas sobre o ritmo futuro de cortes da Selic”.

Outras instituições também reforçaram a leitura de um tom mais duro por parte da autoridade monetária. O Santander classificou o comunicado como “hawkish”, ao destacar a piora das expectativas, a acceleration da inflação subjacente e a menção explícita a possíveis efeitos secundários dos choques de oferta.

Para o banco, a inclusão de “extensão” desloca o foco do próximo movimento para o nível final da taxa de juros.

Apesar disso, casas como Daycoval e ASA ainda veem espaço para continuidade dos cortes, embora em ritmo mais moderado, de 0,25 ponto percentual por reunião. O ponto comum entre as análises é que a trajetória da Selic se tornou mais dependente da evolução dos dados, especialmente diante das incertezas no cenário externo.



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