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O trajeto para uma escola no Complexo do Alemão, na Zona Norte carioca, é permeado por barreiras, daquelas que fazem lembrar barricadas de antigas guerras: de pneus empilhados para bloquear o caminho a uma mais sofisticada cancela giratória, que ora abre, ora fecha, ao sabor dos interesses da bandidagem que manda no pedaço. Para chegar à sala de aula, a criançada precisa também cruzar com homens de fuzil em riste, protegendo um ponto de venda de drogas, e estudar em um prédio vizinho a outro que serve para armazenamento de armas. A diretora, que falou à reportagem de VEJA em voz baixa e sob a condição de anonimato, mostra seu carro todo arranhado, tamanha a dificuldade de ultrapassar diariamente os obstáculos que tornam a rua estreita. “Estamos sob as regras deles”, contou ela, em desabafo que ajuda a dar os contornos à dureza da vida nesse naco da cidade há décadas tutelado pelos marginais.

Aquela não é uma área qualquer: junto ao Complexo da Penha, o Alemão compõe um conglomerado de favelas nevrálgico para o crime onde, em 28 de outubro de 2025, uma terça-feira como outra qualquer, o governo estadual, então sob o comando de Cláudio Castro (PL), encabeçou uma megaoperação com o objetivo de capturar uma centena de marginais e frear o avanço do Comando Vermelho (CV), a maior facção do Rio. Em meio ao confronto, morreram cinco policiais, e do outro lado, 117 (dos quais 95% com vínculo comprovado com a quadrilha, segundo o governo).
Passados seis meses, não há grandes motivos para celebrar, já que os mais de 280 000 moradores de lá permanecem silenciados pelo medo, sob o domínio da cada vez mais ousada gangue no poder — situação que ainda representa desafio para as autoridades. Assim que os 2 500 policiais envolvidos na ação deixaram o belicoso terreno, o dia a dia voltou a se desenrolar como antes. Comerciantes relatam as frequentes extorsões de dinheiro e variados serviços básicos, do gás à internet, ainda são vendidos na marra pelo CV. Quem não compra já sabe: vai ter problema.

Lançado pelo governo na esteira da operação, o programa Barricada Zero, que tem como propósito arrancar as trincheiras do crime postas no caminho do Estado, um triste símbolo do poderio dos fora da lei, nunca chegou ao Alemão ou à Penha. Boa parte das que foram desmontadas naquele 28 de outubro acabou sendo reerguida ou substituída por grupos armados que formam uma barreira humana por onde só passa quem eles permitem, não raro tendo que apresentar o celular para averiguação do conteúdo — hábito que ficou mais arraigado no cenário pós-operação, com a desconfiança dos bandidos exacerbada. Responsável pelo programa, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) informa que, nos últimos cinco meses, removeram 14 000 toneladas de material de barricadas em doze municípios do Rio, mas confirma o que se vê entre becos: os dois complexos às margens da Avenida Brasil não foram contemplados. Um integrante do órgão explica a decisão, que terminou por deixar a população à deriva: “Avaliamos que haveria o risco de conflitos violentos”, diz.
Outra demarcação de fronteiras pelo crime está na sólida e ameaçadora engrenagem montada para cercear a liberdade de ir e vir dos fornecedores de serviços, muitos dos quais o CV explora em paralelo, faturando alto. “Dizemos que nessas comunidades não entramos: somos convidados a entrar”, contou o representante de uma das empresas que pena para atuar na região. E nada mudou nessa seara depois da chamada Operação Contenção. A VEJA, moradores relatam não conseguir circular em carros de aplicativos, tampouco receber encomendas na porta de casa — até uma geladeira envolve um mutirão para ser carregada pelas ruelas. São basicamente os mesmos bandidos de antes que impõem a rigorosa cartilha de regras, espalhando o horror. Dos 100 mandados de prisão que embasaram a ação policial, apenas vinte foram cumpridos até agora, e o chefão, Edgar Alves de Andrade, o Doca, segue solto. “As principais lideranças da facção permaneceram por lá”, admite o secretário estadual de Segurança, Victor Santos.

O otimismo que veio no rastro da operação, aprovada de início por oito em cada dez moradores de comunidades do Rio, segundo levantamento da AtlasIntel, foi aos poucos se esvaindo em meio à dura realidade. “No momento em que a polícia se foi, as bocas de fumo voltaram a funcionar e integrantes mortos do CV foram prontamente substituídos”, afirma Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF, dedicado a investigar os imensos bolsões da região metropolitana do Rio sob influência e controle do tráfico ou da milícia desde o fim dos anos 1980 — uma aberração que faz com que 4 milhões de pessoas vivam na mira de fuzis. Por determinação do Supremo Tribunal Federal, o estado elaborou um projeto para reaver territórios sob o jugo do crime abrangendo da infraestrutura à economia, mas ele não saiu do papel, já que a Corte ainda se debruça sobre o plano. Se sair, começará pela Zona Sudoeste, distante dos complexos da Penha e do Alemão. Enquanto o compasso do poder público segue vagaroso, a população enfrenta um drama cotidiano. “As pessoas passam madrugadas em alerta pela violência, sendo que a vida precisa andar no dia seguinte, uma rotina que provoca crises de ansiedade e leva muitas vezes à depressão”, afirma Janaína Balmant, coordenadora da atenção primária de saúde em área que compreende o Complexo do Alemão.
É verdade que ninguém esperava que a operação de 2025 fosse resolver todas as históricas mazelas incrustadas naquelas favelas. Para surtir efeito em horizonte dilatado, precisaria vir sucedida de uma série de outras ações que, no conjunto, pudessem podar as asas do crime no nascedouro, algo que o atual governo estadual ainda não foi capaz de fazer. Seria fundamental usar os recursos de inteligência policial, de modo a tornar o Estado presente de forma ampla, com instituições nas quais a população confie e às quais possam recorrer, ao invés de ficar sob o guarda-chuva dos criminosos. “Grandes operações por si só não abalam a estrutura das quadrilhas”, diz José Vicente da Silva, ex-secretário nacional de Segurança Pública.

É crucial contar com policiamento permanente, tal como ocorreu nos tempos das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, que brotaram a partir de 2008 (inclusive na Penha e no Alemão), fincadas na ideia da retomada de territórios abocanhados pelas facções e guiadas por metas e avaliação de resultados. O programa acabou naufragando por um leque de problemas — do desvio da conduta dos agentes in loco à expansão acelerada justo numa época em que os cofres públicos eram esvaziados pela corrupção. A experiência, porém, ajuda a iluminar a direção a trilhar.
Enquanto os investimentos no caminho correto não ocorrem, a vida segue por lá na mesma triste toada. Sem nenhuma operação de vulto desde os eventos do ano passado, a principal razão hoje para as trocas de tiros nos dois complexos são os confrontos entre bandidos e as forças de segurança, que têm aparecido por lá atrás de caminhões com cargas roubadas. Às vezes, esses veículos lotados de mercadorias (de bebida a eletrodomésticos) acabam por bloquear vias na favela, obrigando os moradores a procurar rotas alternativas. Em 26 de março, uma ação que mirava um desses lotes surrupiados sacudiu a rotina no Alemão, onde mais de uma dezena de escolas municipais tiveram que ser fechadas. Tantas são as ocorrências do gênero que a prefeitura criou junto à Cruz Vermelha uma cartilha com protocolos para proteger os alunos. “Eles já sabem: ouvem o tiroteio, se agacham e correm para uma sala segura, onde as paredes são reforçadas. Aí ponho a TV em volume máximo para abafar a barulheira do lado de fora”, relata a diretora de uma unidade na Penha, local que descreve como “esquecido”. E as crianças crescem achando que tudo aquilo é natural. Um contundente sinal de que há muito trabalho a ser feito em nome do futuro delas e do país.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993